Polêmica

Esquerda pequeno-burguesa argentina inventa o ‘anti-imperialismo’ imperialista

O simples abandono das lutas parciais contra o imperialismo é ultraesquerdismo e leva, finalmente, à adesão de posições favoráveis ao grande capital

Tiro

O artigo A esquerda será anti-imperialista ou não será, assinado por Joaquín Antúnez e publicado no sítio Prensa Obrera neste 24 de julho, estabelece uma polêmica com Myriam Bregman, líder nacional do PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas).

Em sua polêmica, Antúnez diz que Bregman encerra com o slogan “A esquerda será anti-imperialista ou não será” uma postagem no X sobre “a campanha midiática europeia, por um lado, em relação à seleção argentina e seu desempenho dentro e fora de campo e, por outro, à ‘febre das Malvinas’ kirchnerista — um regime que tem consistentemente pago a dívida externa. A declaração chamou a atenção porque se poderia pensar que a ‘esquerda não pode existir’ se não for socialista e sua estratégia não for a revolução proletária internacional. Essa afirmação surge em um momento em que o PTS definiu, em seu manifesto eleitoral, que o objetivo da ‘esquerda’ é ‘superar a decadência nacional’.”

A divergência aparece no terceiro parágrafo. Segundo Antúnez, Bregman “prioriza o anti-imperialismo em detrimento do socialismo, apresentando-o como um momento decisivo e como um programa e uma estratégia, inclusive como uma estratégia ‘existencial’ (‘a esquerda não existirá’). No entanto, a relação entre as lutas pela autonomia nacional e a luta internacional pelo socialismo opera na direção oposta. O socialismo baseia a abolição de todas as formas de opressão (nacional ou de gênero) na abolição do regime de opressão de classe, e não o contrário; a luta contra a opressão nacional busca ampliar a dominação de classe da burguesia local, não a sua abolição.”

Segundo o autor, na luta contra o imperialismo, as burguesias nacionais e os socialistas caminham em direções opostas. Enquanto aquela busca apenas aumentar sua dominação nessa luta, a esquerda estaria buscando a emancipação geral.

Ocorre que o anti-imperialismo não está necessariamente atrelado à dominação da burguesia. Quem faz essa ligação é a própria Prensa Obrera. A classe trabalhadora deve trabalhar de maneira independente e pode mesmo concluir tarefas incompletas da burguesia, mas com sua política própria, lideranças e métodos.

Na Venezuela, por exemplo, a revolução não conseguiu expropriar a burguesia e, por isso, vem sofrendo assédios constantes. A esquerda, em vez de simplesmente combater o governo e com isso facilitar a dominação imperialista, deve se movimentar para completar a revolução.

Adiante, Antúnez escreve que “em relação ao anti-imperialismo, Mariátegui alertou contra a demagogia de transformar esse slogan em um programa autossuficiente: ‘O anti-imperialismo é, assim, elevado à categoria de programa, atitude política, movimento autossuficiente que conduz, espontaneamente, não sabemos por qual processo, ao socialismo, à revolução social. Esse conceito leva a uma superestimação exorbitante do movimento anti-imperialista, ao exagero do mito da luta pela ‘segunda independência’, à noção romântica de que já estamos vivendo os dias de uma nova emancipação’. Para o autor, “tanto a corrente de Myriam Bregman quanto a de Alejandro Bodart professam o mito da ‘segunda independência’ há décadas. A afirmação de Bregman reforça o caráter nacionalista do manifesto eleitoral. Essa é a base da suspeita sobre algum tipo de acordo eleitoral entre o kirchnerismo e o FIT.”

O autor utiliza um conceito confuso para desembocar em uma posição ultraesquerdista. Para ele, está havendo um processo de Frente Popular entre a esquerda e setores nacionalistas. Assim, cita Mariátegui, que vê aí uma abertura para a dominação ideológica das classes médias: “‘A tomada do poder pelo anti-imperialismo, como um movimento populista demagógico, mesmo que fosse possível, jamais representaria a conquista do poder pelas massas proletárias, pelo socialismo. A revolução socialista encontraria seu inimigo mais amargo e perigoso — perigoso por sua confusão, por sua demagogia — na pequena burguesia entrincheirada no poder’. Após o massacre de trabalhadores chineses em 1927 pelo nacionalista Chiang Kai-shek; o assassinato de um milhão de trabalhadores pelo nacionalismo indonésio em 1966; e a Operação AAA na Argentina em 1973/76, poderíamos acrescentar, além da confusão, sequestros e desaparecimentos.”

O que o autor sugere é que a esquerda deveria abandonar a burguesia nacionalista em sua luta contra o imperialismo, em virtude de que a esquerda poderia não ter forças para encabeçar o movimento e sofreria as consequências.

Por outro lado, as burguesias locais não vão lutar sozinhas contra o imperialismo. Se a esquerda abandonar a burguesia nacional em sua luta e esta for dominada pelo imperialismo, o que o proletariado ganha?

Joaquín Antúnez demonstra seu desconhecimento da luta de classes quando escreve que “ao atribuir a responsabilidade exclusivamente às ‘multinacionais estrangeiras’, a líder desvia a culpa da burguesia local. Ela omite deliberadamente o fato de que a principal força motriz por trás da reforma trabalhista e da desregulamentação econômica tem sido a própria associação nacional de empregadores.”

O autor se esquece de que as burguesias nacionais são oprimidas pelo grande capital. Uma política revolucionária teria de reconhecer que a burguesia da Argentina, ou de qualquer país atrasado, não tem independência. Elas são como apêndices da burguesia imperialista. Ao atuar contra os trabalhadores, o faz em nome do grande capital em troca de algumas migalhas; ao passo que, quando pressionada pela classe trabalhadora, pode agir contra o imperialismo. Nesse sentido, as burguesias locais vivem em uma espécie de equilibrismo.

É absurda a colocação de Antúnez quando diz que “a denúncia das tentativas de pilhagem da ‘propriedade pública’ ou dos ‘bens comuns’ — um tema recorrente no Manifesto de seu movimento — dilui o caráter de classe do Estado. A ‘propriedade pública’ e as empresas estatais, sob a organização capitalista, servem à acumulação privada global e nacional. Argumentar o contrário apaga a fronteira entre a administração pública burguesa e a propriedade socializada sob o controle dos trabalhadores.” Para ele, não faz diferença se uma empresa é pública ou privada, pois seria capitalismo do mesmo jeito. É exatamente o que o imperialismo quer ouvir.

A telefonia no Brasil, após a privatização, aumentou o preço para o consumidor em mais de 10 vezes. O mesmo se pode dizer da energia elétrica. A multinacional italiana, Enel demitiu 30% do quadro de funcionários, a energia elétrica tem aumentado e a qualidade é terrível. Para o trabalhador, faz total diferença, e também para o país, pois essas empresas demitem, não investem e remetem o lucro para suas matrizes. Lutar por empresas públicas no capitalismo não é o mesmo que lutar pelos interesses dos capitalistas. A prova disso é a enorme pressão que o imperialismo faz pelas privatizações.

A Prensa Obrera acusa o PTS de desvincular o anti-imperialismo da luta de classes, mas acaba ela mesma ficando a reboque do imperialismo ao, na prática, negar a importância da luta democrática contra ele, que para os marxistas deve ser travada com independência de classe e de política. Ao não querer se subordinar à pequena burguesia, acaba se subordinando ao imperialismo.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.