Há 90 anos, a França era sacudida por uma das maiores mobilizações operárias de sua história. Cerca de 2 milhões de trabalhadores entraram em greve e aproximadamente 12 mil empresas foram atingidas pelo movimento. Em grande número delas, os operários ocuparam os locais de trabalho, colocando os patrões diante de uma situação que rapidamente deixou de ser uma disputa por salários e passou a ameaçar o próprio regime.
A greve explodiu logo depois da vitória eleitoral da Frente Popular, aliança entre o Partido Socialista, o Partido Comunista Francês (PCF) e o Partido Radical, tradicional agremiação da burguesia francesa. Enquanto as direções da esquerda se preparavam para governar dentro das instituições existentes, milhões de trabalhadores entravam em movimento por fora do regime burguês.
A situação chegou a tal ponto que os patrões aceitaram de uma só vez reivindicações que haviam negado durante décadas: jornada semanal de 40 horas, férias remuneradas, aumentos salariais, convenções coletivas e representantes dos trabalhadores dentro das empresas.
Não era generosidade. A burguesia fazia concessões porque estava acuada e temia que as ocupações avançassem para uma luta aberta pelo poder.
Foi justamente nessa hora que socialistas e comunistas passaram a trabalhar pelo encerramento da greve. Em vez de organizar os trabalhadores para aproveitar a crise do regime, foram às fábricas defender o retorno ao trabalho.
Apresentada como instrumento para impedir o fascismo, a Frente Popular acabou cumprindo outra função: impediu o movimento da classe trabalhadora que colocava a burguesia francesa contra a parede.
A crise de 1934
A explosão operária de 1936 vinha sendo preparada por uma profunda crise política.
No fim de 1933, o caso Stavisky revelou as relações entre especuladores financeiros, deputados, magistrados, jornais e integrantes do aparelho estatal. O escândalo atingiu em cheio o Parlamento e abriu espaço para uma ofensiva das organizações fascistas.
Em 6 de fevereiro de 1934, organizações de extrema direita convocaram uma manifestação em Paris contra a corrupção parlamentar. Comparado à Marcha sobre Roma de Mussolini, o ato terminou numa tentativa de assalto à Assembleia Nacional Francesa, na praça da Concórdia. Cerca de 15 pessoas morreram nos confrontos e o governo de Édouard Daladier caiu. A classe operária estava dividida justamente no momento de ascensão do fascismo francês.
O Partido Socialista encontrava-se profundamente adaptado ao regime imperialista e apostava nas instituições burguesas para resolver a crise. O PCF seguia a política stalinista do chamado “social-fascismo”, tratando os socialistas como inimigos equivalentes, ou até superiores, aos próprios fascistas. Essa orientação bloqueava uma ação comum dos trabalhadores contra as organizações de extrema direita.
No próprio dia 6, uma associação de ex-combatentes dirigida pelos comunistas também se mobilizou contra a corrupção parlamentar. Não houve adesão do PCF à manifestação fascista, mas houve uma convergência objetiva entre as duas agitações. A luta contra a corrupção era colocada acima do problema decisivo daquele momento: organizar os trabalhadores contra o avanço fascista.
A tentativa de insurreição, no entanto, produziu uma reação que não fora prevista por ninguém.
Os trabalhadores impõem a unidade
Operários socialistas e comunistas começaram a exigir que suas organizações atuassem juntas. Em 12 de fevereiro, uma greve geral levou grandes contingentes às ruas e, na prática, começou a derrubar a barreira levantada pelas direções partidárias.
Era justamente a política defendida por Leon Trótski diante do avanço do fascismo na Europa: a frente única das organizações operárias para defender os trabalhadores, seus partidos, sindicatos, reuniões e locais de trabalho.
A pressão obrigou o PCF a abandonar a política anterior. O partido passou a defender a unidade com os socialistas, mas a Internacional Comunista dirigida por Stalin levou a mudança muito além disso.
Em vez de uma frente dos trabalhadores, passou-se a defender também uma aliança com a burguesia. O Partido Radical (PR) foi incorporado ao bloco e nasceu a Frente Popular.
O PR não era um partido operário. Representava setores tradicionais da classe dominante e estava profundamente integrado ao regime parlamentar que entrara em crise em 1934. Sua presença transformava a unidade contra o fascismo numa coalizão em que os partidos operários ficavam amarrados a um representante direto da burguesia.
A nova política foi consolidada em 1935. Em maio, Stalin apoiou publicamente a defesa nacional francesa, com o tratado franco-soviético. Em agosto, o VII Congresso da Internacional Comunista oficializou internacionalmente a política das frentes populares com a burguesia considerada “democrática”.
Pouco antes, o stalinismo se recusava até mesmo a agir conjuntamente com os socialistas. Agora, colocava um partido burguês no centro da aliança.
As eleições não encerram a crise
A Frente Popular venceu as eleições legislativas de abril e maio de 1936. A Seção Francesa da Internacional Operária (SFIO, o Partido Socialista francês), tornou-se a maior força da coalizão e Léon Blum foi escolhido para chefiar o novo governo.
Blum não escondia a natureza de sua política. Diferenciava o “exercício do poder” da “conquista do poder”: sua intenção era governar o Estado existente, não derrubá-lo.
O PCF decidiu permanecer fora do ministério e oferecer apoio parlamentar. A preocupação era não assustar o Partido Radical, a classe média e os capitalistas.
A vitória eleitoral, porém, não apaziguou os trabalhadores.
Antes mesmo da posse de Blum, em 4 de junho, uma onda de greves começou a se espalhar pelo país. Em poucas semanas, cerca de 2 milhões de operários estavam parados e aproximadamente 12 mil empresas tinham sido atingidas. A característica mais importante do movimento, porém, era a ocupação.
Os trabalhadores não se limitavam a organizar piquetes diante dos portões. Permaneciam dentro das fábricas, interrompiam o controle patronal sobre os estabelecimentos e começavam a demonstrar, na prática, que a produção podia existir sem o comando dos donos. A greve econômica dava lugar a uma crise de poder.
Na região industrial de Paris, as ocupações ganharam enorme extensão. Uma tentativa de expulsar pela força milhares de trabalhadores poderia provocar uma explosão ainda maior.
Trótski caracterizou naquele momento que a revolução francesa havia começado. O PCF, no entanto, não chamou os operários a lutar pelo poder.
Os patrões cedem para não perder tudo
A gravidade da situação aparece na própria reação patronal.
Com as fábricas ocupadas e a mobilização ainda crescendo, os grandes capitalistas aceitaram negociar sob a mediação do novo governo. Em 7 de junho foram assinados os Acordos de Matignon.
Os trabalhadores obtiveram aumentos salariais de aproximadamente 7% a 15%, convenções coletivas e reconhecimento de representantes do pessoal dentro das empresas. Vieram também a semana de 40 horas e duas semanas de férias remuneradas.
Para uma classe operária acostumada a trabalhar o ano inteiro sem férias pagas, eram conquistas enormes. O tamanho das concessões, porém, mostrava a fraqueza política dos patrões naquele momento.
Direitos considerados impossíveis durante décadas apareceram em questão de dias porque a burguesia enfrentava um perigo muito maior que o custo das reformas. Entre aceitar férias, aumentos salariais e redução da jornada ou correr o risco de perder o controle das fábricas – e do país -, preferiu ceder.
Matignon não foi uma demonstração de que a colaboração entre esquerda e burguesia funcionava. Foi uma demonstração da força alcançada pelos trabalhadores quando entraram em movimento.
A greve não termina com os acordos
Mesmo com as concessões assinadas, as ocupações continuaram. Milhares de trabalhadores permaneciam dentro das empresas e resistiam à volta à normalidade.
Isso mostrava que a mobilização havia ultrapassado as reivindicações econômicas que apareciam inicialmente. Era preciso, portanto, retirar os operários das fábricas.
Em 11 de junho, o secretário-geral do PCF, Maurice Thorez, deu a orientação que sintetizou a posição do partido: “é preciso saber terminar uma greve assim que a satisfação foi obtida.”
Começou então uma campanha das direções comunista e socialista pelo fim das ocupações.
Os militantes foram às fábricas defender que as concessões eram suficientes e que os trabalhadores deveriam retornar aos seus postos. Ainda assim, a desmobilização demorou semanas.
Esse é um dos fatos mais importantes de junho de 1936. Nem mesmo uma reforma trabalhista gigantesca bastou para fazer os trabalhadores abandonarem imediatamente o movimento.
A greve havia chegado muito além disso.
A esquerda faz o que a repressão não podia fazer
O regime estava numa situação extremamente delicada. Uma repressão em massa contra milhões de grevistas e milhares de fábricas ocupadas poderia empurrar a situação ainda mais para a esquerda. A burguesia precisava de outra saída.
Socialistas e comunistas tinham autoridade entre os trabalhadores e podiam obter pela persuasão aquilo que, naquele momento, seria muito arriscado tentar conseguir pela força. Esse foi o papel decisivo desempenhado pela Frente Popular.
Em vez de transformar a ocupação generalizada das fábricas numa luta pelo poder, suas organizações usaram sua influência para retirar os trabalhadores dos locais ocupados e restaurar a normalidade. A greve foi desmontada e o regime sobreviveu.
As férias remuneradas, a redução da jornada e os aumentos salariais permaneceram como conquistas importantes da classe operária. Mas foram obtidos no momento em que os trabalhadores tinham força para conquistar infinitamente mais. A burguesia cedeu para preservar o essencial: sua propriedade e seu poder político.
Depois da greve, começa o recuo
A popularidade inicial do governo Blum foi enorme. Pela primeira vez, milhões de trabalhadores puderam tirar férias remuneradas, e a semana de 40 horas alterou profundamente a vida de uma parcela da população.
Mas a força que havia arrancado essas medidas estava sendo desmobilizada.
Em 1937, Blum anunciou uma “pausa” nas reformas. Em junho, seu governo caiu após o Senado (dominado pela direita) recusar o pacote econômico apresentado pelo primeiro-ministro. O direitista Camille Chautemps, do PR, assumiria o governo e se encarregaria de encerrar de vez as concessões aos trabalhadores. Nos governos seguintes, começou o ataque às próprias conquistas de 1936.
No fim de 1938, decretos do governo Daladier esvaziaram na prática a semana de 40 horas. Em 30 de novembro, uma greve geral tentou impedir o retrocesso, mas foi derrotada.
Dois anos antes, milhões de trabalhadores ocupavam fábricas e a burguesia fazia concessões para evitar uma revolução. Agora, a classe operária encontrava-se numa posição muito mais desfavorável. A política da Frente Popular tinha cumprido seu papel.
Do combate ao fascismo à derrota diante de Hitler
Toda a política havia sido justificada pela necessidade de enfrentar o fascismo. Até sob esse aspecto, porém, o desfecho foi desastroso.
Em agosto de 1939, Stálin assinou o pacto Molotov-Ribbentrop com Hitler. O PCF acompanhou a nova orientação soviética e, no fim de setembro, foi colocado na ilegalidade pelo governo francês.
A invasão alemã da França ocorreu no ano seguinte. Em maio de 1940 teve início a ofensiva que em poucas semanas derrotaria, terminaria com Paris ocupada.
A classe dominante francesa, tão preocupada em impedir os operários de tomarem as fábricas em 1936, não demonstrou a mesma disposição para organizar uma resistência diante dos nazistas.
Após a derrota militar, formou-se o regime de Vichy, dirigido por Philippe Pétain. Em 10 de julho de 1940, a Assembleia Nacional concedeu plenos poderes ao marechal por 569 votos contra 80. Entre os parlamentares que aprovaram a medida estavam muitos dos que haviam sido eleitos quatro anos antes na vitória da Frente Popular. O balanço não poderia ser mais claro.
Em junho de 1936, milhões de trabalhadores haviam paralisado a França, ocupado milhares de empresas e criado uma situação em que a própria continuidade do domínio burguês estava em discussão. Em vez de levar essa luta adiante, a Frente Popular utilizou a autoridade dos partidos operários para encerrá-la.
A classe operária foi desmobilizada. Quatro anos depois, Paris estava nas mãos do Exército nazista. A burguesia foi salva.





