A maior crise da gestão de Gianni Infantino na FIFA se aprofundou neste fim de semana, depois que a UEFA declarou ter perdido a confiança no dirigente e federações europeias passaram a defender uma revisão da direção da entidade. O presidente da FIFA foi obrigado a retirar, em apenas três dias, o projeto que entregaria a investidores privados uma participação nos negócios da Copa do Mundo.
A proposta previa a criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), empresa que concentraria operações comerciais da Copa do Mundo, do Mundial de Clubes e de outros torneios da entidade. Uma parte da companhia seria vendida a investidores privados numa operação de bilhões de dólares.
A UEFA ameaçou retirar suas 55 federações das competições da FIFA enquanto o projeto não fosse cancelado. A Concacaf e a Confederação Asiática de Futebol (AFC) também se posicionaram contra. Diante da rebelião, Infantino anunciou a retirada da proposta na sexta-feira (31).
O recuo, porém, não encerrou o conflito. A UEFA afirmou que a atual direção perdeu sua confiança e pediu uma revisão da liderança da FIFA. Inglaterra, Noruega e País de Gales apoiaram publicamente a iniciativa.
Pela primeira vez desde que assumiu o comando da entidade, em 2016, Infantino enfrenta uma oposição organizada capaz de ameaçar sua permanência.
A tentativa de entregar uma parcela dos negócios da Copa ao capital privado apenas fez explodir um conflito que vinha se acumulando dentro da FIFA. Durante a Copa do Mundo de 2026, a entidade voltou a ser alvo de denúncias de favorecimento esportivo. A Argentina recebeu novamente um tratamento privilegiado depois da roubalheira da Copa de 2022, quando recebeu cinco pênaltis durante a campanha pelo título.
Na última Copa, houve reclamações sobre arbitragens, gols anulados, critérios disciplinares e condições oferecidas às seleções. A Argentina teve um caminho excepcionalmente favorável até a final, apesar de acabar derrotada pela Espanha por 1 a 0.
Lionel Messi permaneceu no centro da propaganda da competição. Não por acaso. Depois da Copa de 2022, o jogador transferiu-se para os Estados Unidos e tornou-se o principal garoto-propaganda da tentativa de ampliar comercialmente o futebol norte-americano.
A ArgenFIFA está diretamente ligada a essa política. A direção de Infantino transformou a Argentina e Messi em instrumentos de promoção de um projeto comercial voltado principalmente para o mercado dos Estados Unidos.
A própria Copa de 2026 foi organizada principalmente em território norte-americano. Um ano antes, o país havia recebido o novo Mundial de Clubes.
Infantino também aprofundou sua relação política com Donald Trump. Durante o Mundial, o episódio envolvendo Folarin Balogun aumentou ainda mais as suspeitas. Uma punição que deveria afastar o jogador norte-americano de uma partida foi convertida em multa, e Trump declarou ter falado diretamente com Infantino sobre o caso.
A origem da atual direção da FIFA ajuda a explicar a crise. Em 2015, o Departamento de Justiça e o FBI realizaram a operação conhecida como FIFAgate. Dirigentes foram presos em Zurique pouco antes de um congresso da entidade e Joseph Blatter acabou afastado.
Até então, o imperialismo europeu exercia influência predominante sobre a organização. O FIFAgate transferiu a posição principal para os Estados Unidos. A FFE representava uma nova etapa desse processo.
O plano abriria a investidores privados uma participação numa empresa responsável por alguns dos negócios mais importantes da FIFA. Segundo a imprensa, a operação poderia levantar cerca de US$4,2 bilhões. Também foi divulgado que a remuneração de Infantino poderia chegar a cerca de US$30 milhões por ano caso o projeto fosse aprovado, aproximadamente seis vezes seu salário atual.
A reação europeia não representa uma defesa do futebol contra os capitalistas. A UEFA dirige o setor mais rico e monopolizado do futebol mundial. Os clubes europeus concentram as maiores receitas, compram jogadores dos países pobres e dominam os torneios mais lucrativos. O conflito é uma disputa entre diferentes setores do imperialismo pelo controle do futebol.
A expansão das competições da FIFA já vinha aumentando o atrito com a Europa. O Mundial de Clubes ampliado disputa calendário, audiência, jogadores e receitas diretamente com as competições europeias. A criação da FFE aumentaria ainda mais a independência econômica da FIFA em relação à UEFA.
Os Estados Unidos conquistaram uma posição decisiva na entidade depois do FIFAgate. Agora, o imperialismo europeu procura recuperar parte do espaço perdido. É isso que explica a intensidade da reação.
Apesar da crise, a queda de Infantino não está garantida. UEFA, AFC e Concacaf reúnem juntas 143 das 211 federações filiadas à FIFA. Isso, porém, não significa que todas votarão contra o presidente. As federações votam individualmente.
O Catar, por exemplo, pertence à AFC e declarou apoio a Infantino. Marrocos também saiu em sua defesa. A Confederação Africana de Futebol evitou aderir à ofensiva europeia. A Conmebol adotou uma posição ainda mais cautelosa. Convocou uma reunião para discutir a FFE, mas não atacou o presidente da FIFA. A CBF tampouco se posicionou contra ele.
A base de Infantino foi construída durante dez anos por meio da distribuição de recursos e da ampliação das competições. A Copa com 48 seleções aumentou principalmente a participação de países da África, Ásia e América Central. Agora, discute-se inclusive a expansão do Mundial de 2030 para 64 seleções.
Para dezenas de federações, cada nova vaga significa mais dinheiro, mais prestígio e maior possibilidade de disputar uma Copa. A ampliação dos torneios é, portanto, também uma arma política de Infantino.
A eleição para a presidência da FIFA será realizada em março de 2027. O prazo para inscrição de candidatos termina em 18 de novembro.
Até a atual crise, Infantino caminhava para uma nova eleição praticamente sem oposição, como aconteceu em 2019 e 2023. O principal nome agora mencionado para enfrentá-lo é Victor Montagliani, presidente da Concacaf e vice-presidente da FIFA. A imprensa europeia também mencionou Nasser Al-Khelaifi, presidente do Paris Saint-Germain e da Qatar Sports Investments.





