O Partido dos Trabalhadores (PT) oficializou neste domingo (2), no Expo Center Norte, em São Paulo, a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição. O vice será novamente Geraldo Alckmin, antigo dirigente do PSDB.
Em 2022, Alckmin aparecia como uma garantia improvisada à burguesia: um antigo tucano colocado ao lado de Lula para assegurar que um novo governo do PT não romperia com o regime. Quatro anos depois, a situação mudou. Alckmin está consolidado no governo, o PSB cresceu como partido da direita dentro da frente ampla e os restos do antigo tucanato foram incorporados organicamente à coligação.
A própria convenção demonstrou isso. Antes de Lula subir ao palco, militantes ficaram retidos do lado de fora por não possuírem a autorização exigida pela organização. Segundo o Poder360, o acesso dependia de um código, chamado de “pin”. Diante dos portões, os petistas começaram a gritar “libera o portão”. A entrada só foi ampliada depois da pressão.
Dentro do pavilhão, segundo informações repassadas à reportagem, pulseiras separavam o público. A maior parte da militância foi enviada para as arquibancadas. Dirigentes, autoridades, convidados e setores selecionados permaneceram perto do palco. Horas depois, cinicamente, Simone Tebet ainda declarou: “ninguém pagou para estar aqui hoje. As pessoas estão aqui porque amam o Lula”.
A própria direção já havia avisado que o encontro seria principalmente “cênico”. Integrantes do PT disseram ao Estado de S. Paulo que o objetivo era produzir discursos curtos, imagens e vídeos para as redes sociais. A convenção formal terminou antes do ato político. Por volta das 10h, Edinho Silva anunciou que Lula já estava homologado e que começaria então a parte pública do evento.
O espetáculo serviu para apresentar a nova frente do PT. Em 2022, a frente ampla ainda tinha um caráter de improvisação. Lula saía da perseguição judicial, Bolsonaro estava no governo e Alckmin funcionava como um fiador isolado da direita dentro da chapa. Em 2026, o antigo tucano não é mais um corpo estranho. Mais importante: ao redor dele se consolidou o PSB.
Na sexta-feira (31), o PSB confirmou apoio a Fernando Haddad para o governo de São Paulo, Márcio França como vice, Simone Tebet para o Senado e apoio a Marina Silva para a segunda vaga.
É praticamente uma chapa do PSDB. Márcio França foi vice-governador de Geraldo Alckmin e assumiu o Palácio dos Bandeirantes quando o tucano deixou o cargo em 2018. Simone Tebet fez carreira no MDB e disputou a Presidência em 2022 com apoio do PSDB. Marina Silva apoiou Aécio Neves contra Dilma Rousseff no segundo turno de 2014. Geraldo Alckmin foi uma das principais figuras nacionais do tucanato durante décadas.
No centro está Fernando Haddad, que recentemente chegou a lamentar publicamente o desaparecimento do PSDB e declarou que gostaria que o partido voltasse a existir como força nacional. Haddad elogiou Mário Covas, José Serra, Alckmin e Fernando Henrique Cardoso e afirmou que PT e PSDB possuíam um “solo comum de conceitos, de valores”. O PSDB desapareceu como grande partido. Sua política, seus quadros e seus aliados estão reaparecendo dentro da frente do PT.
O episódio mais grotesco foi protagonizado por Simone Tebet. No palco da convenção petista, a candidata ao Senado atacou Flávio Bolsonaro:
“Tal pai, tal filho. Golpista, sempre golpista.”
Fato é que Simone Tebet participou diretamente do golpe de Estado de 2016. Era senadora quando o Congresso derrubou Dilma Rousseff, eleita com mais de 54 milhões de votos. Em 31 de agosto de 2016, votou a favor do impeachment. Agora, dez anos depois, aparece no palco do PT denunciando os outros como golpistas. Se vale sua própria máxima, “golpista, sempre golpista”, a primeira pessoa a ser expulsa da chapa petista deveria ser ela própria.
O PSDB foi uma das principais forças políticas do golpe contra Dilma. Depois da derrota de Aécio Neves em 2014, o partido pediu auditoria das urnas, ingressou com ações contra a chapa eleita e se colocou no centro da campanha pelo impeachment. Depois, seus dirigentes apoiaram o governo Michel Temer. Agora, parte dessa mesma direita é apresentada pelo PT como “democrática”.
O golpe de 2016 foi apagado e substituído por uma nova divisão artificial: de um lado, os “democratas”; do outro, os bolsonaristas. Quem votou pelo impeachment de Dilma, quem ajudou a preparar a ofensiva que desembocou em Bolsonaro e quem sustentou a direita tucana pode ser absolvido desde que entre na frente ampla.
A mudança eleitoral acompanha a evolução do terceiro governo.
O governo começou com promessas de reconstrução econômica. Terminou com Fernando Haddad consolidado como principal condutor da política econômica, Alckmin fortalecido, grandes empresários cada vez mais integrados ao governo e uma política de alianças mais aberta com a direita.
Em nome da “defesa da democracia”, o PT apoiou censura, perseguições judiciais e arbitrariedades do Supremo Tribunal Federal. O 8 de Janeiro foi transformado em justificativa permanente para aprofundar essa política. A mesma evolução ocorreu na chamada “segurança pública”, no combate ao chamado crime organizado e na aproximação com setores diretamente ligados ao imperialismo.
Apesar do cenário desastroso, Lula ainda tentou se apresentar como combativo:
“No quarto mandato, eu não quero Lulinha paz e amor, quero Lulinha porreta”, declarou.
O “Lulinha paz e amor” de 2002 foi construído para tranquilizar a burguesia. Em 2026, Lula promete abandonar essa fórmula ao mesmo tempo em que mantém como vice um dos principais representantes históricos da direita paulista. E não é apenas Alckmin. A frente está hoje muito mais dominada por políticos burgueses do que em 2002. A diferença é que agora eles não aparecem como aliados externos. Estão incorporados ao núcleo da coalizão.





