Para se combater um adversário, é fundamental caracterizá-lo de maneira adequada, exatamente o que Moisés Mendes não faz em seu artigo “A direita brasileira não tem um líder”, publicado no Brasil247 nesta sexta-feira (31).
O texto busca fazer uma piada, de que se um marciano aterrissar no Brasil e pedir a algum brasileiro de direita para indicar seu líder nacional, aquele indicaria Javier Milei porque “desde o momento em que Bolsonaro foi condenado e virou caseiro, ninguém mais se habilitou a cumprir seu papel. Tentam, mas não conseguem”, uma conclusão curiosa, pois Lula saiu da cadeia direto para o Palácio do Planalto; e Donald Trump, a despeito da enormidade de processos, perseguições e ameaças de prisão, se reelegeu presidente dos Estados Unidos.
Segundo Mendes, “na velha direita, que alguns chamam de direita profissional, os líderes são Valdemar Costa Neto, Ciro Nogueira, Gilberto Kassab e Antonio Rueda. Um manda no PL, o outro no PP, o terceiro no PSD e o último no União Brasil”, o que completa dizendo que “dos quatro, só um, Ciro Nogueira, tem votos. Outros líderes dos povos da direita já tiveram, mas preferiram ser CEOs dos seus partidos a lutar pela legitimação do que fazem por deliberação do eleitor.”
Mendes fala em uma suposta falta de líder, mas essas pessoas e partidos dominam o Congresso, enquanto o PT definha e mal consegue lançar candidatos próprios para as próximas eleições.
O jornalista escreve que Kassab terá votos indiretos como vice de Ronaldo Caiado, e que os “outros sem votos são apenas os grandes operadores da direita. A democracia para eles é a dedicação permanente a arranjos, barganhas e negociatas”, mas isso só pode indicar que, diferentemente de alguns iludidos, eles têm uma noção muito exata do verdadeiro caráter da democracia burguesa.
A dificuldade que Mendes tenta introduzir no seu texto é a de que o cidadão de direita “não teria nem como levar o visitante a Flávio Bolsonaro, que não lidera a família do pai”, e com isso desconsidera que Jairo Bolsonaro transferiu praticamente todos seus votos para seu filho que, apesar do bombardeio na grande imprensa, está virtualmente empatado com Lula.
O articulista faz uma análise equivocada ao falar de Milei que “a extrema-direita trouxe à convenção do PL para apresentá-lo como modelo a ser seguido. Porque Flávio é frágil. Porque os outros líderes da velha direita são, na verdade, empreendedores da política das oportunidades.”
A presença de Milei no Brasil e seu encontro com Flávio Bolsonaro é uma sinalização para a burguesia de que o candidato pretende ser o Milei brasileiro, um neoliberal furioso. O problema, no entanto, é que a base social bolsonarista é um entrave para que se leve adiante no País as medidas econômicas drásticas que o imperialismo deseja e que só podem ser feitas por um candidato sem votos.
Mendes diz que, hoje na Argentina, “61% dos argentinos consideram Milei um fracasso. Que o sistema de Justiça cercou o presidente e sua irmã Karina por envolvimento com quadrilhas de criptomoedas. E que o FMI manda na Argentina.” A burguesia sabe que um candidato sem votos não tem nada a perder; por isso, é agressivo na política econômica, ao passo que um candidato que tenha capital político, como Lula e Flávio Bolsonaro, tenderá a governar de modo a preservar sua base. Fica como exemplo Donald Trump, que ao levar adiante a política do imperialismo no Oriente Médio, perdeu uma enormidade de votos e sua rejeição só faz aumentar, enquanto as eleições de meio de mandato se aproximam rapidamente.
Quem terá apoio?
Neste momento, tudo indica que o grande capital leva adiante seu plano de um candidato de terceira via, um “Milei”, pois ataca incessantemente Flávio Bolsonaro e passou a atacar Lula com o Supremo Tribunal Federal autorizando que se investigue Lulinha, o filho de Lula, por suposto tráfico de influência. Mesmo que a burguesia não consiga derrotá-los, pelo menos os levará para o segundo turno completamente enfraquecidos. Assim, qualquer um que vença será mais fácil de controlar.
Moisés Mendes, seguindo o protocolo da imprensa burguesa, aproveia para atacar a Seleção. Escreve que o suposto cidadão de direita diria ao marciano: “não temos líderes da direita. Caiado e Zema são tão líderes quanto Renan Santos e Cabo Daciolo. Não temos mais um craque, nem técnico da Seleção temos hoje. E confessaria: eles [da esquerda] têm o Lula.”
No último parágrafo, querendo fazer uma piada, Mendes acaba fazendo uma confissão, mas que contém um erro. No diálogo, o marciano diria que já sabe sobre Lula e perguntaria: “um líder de centro, pelo menos isso vocês têm? O cidadão constrangido diria que sim, mas esse líder é o vice de Lula.”
Geraldo Alckmin, assim como os outros vice-presidentes do PT, é um elemento de direita. O ex-tucano (se é que isso é possível) foi governador de São Paulo e ficou famoso por sua política repressora em 2013. Seu (ex)-partido é um escritório do imperialismo dentro do Brasil. Entregou a Vale do Rio Doce, a telefonia, as estradas e tudo o que pôde para o grande capital, além de reduzir a pó a indústria nacional.
O PT, para se eleger, tem caminhado constantemente não para o centro, mas para a direita. Aquilo que começou com vices reacionários culminou com a adesão à política imperialista na questão da Venezuela, bem como com a política de juros elevadíssimos, que tem asfixiado a indústria, endividado as famílias, e feito os bancos lucrarem como nunca.



