Anthony Fauci, principal autoridade sanitária dos Estados Unidos durante a pandemia da COVID-19, recusou-se a responder a dezenas de perguntas feitas pelo Senado norte-americano na quarta-feira (29). O antigo diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas invocou repetidamente a Quinta Emenda da Constituição, que garante ao interrogado o direito de permanecer em silêncio para não produzir provas contra si próprio.
A cena resume a transformação sofrida por Fauci. Durante a pandemia, suas palavras eram apresentadas como determinações da própria ciência. Governos, órgãos sanitários, jornais e empresas de tecnologia tratavam qualquer contestação às suas declarações como “negacionismo” e uma ameaça à população. Agora, diante das investigações sobre sua conduta, ele se recusa a explicar o que fez.
Poucos dias antes da audiência, o senador Rand Paul divulgou mais de mil páginas de anotações pessoais de Fauci. O material foi localizado depois de uma investigação de oito meses em computadores e servidores do governo norte-americano.
As anotações revelam que, em pleno desastre provocado pela pandemia e pelas medidas de confinamento, Fauci dedicava grande atenção aos elogios que recebia, às aparições na imprensa e às conversas com celebridades.
“Minha fama nacional e internacional é explosiva e realmente inimaginável”, escreveu. Em outra passagem, comemorou uma reportagem de capa do Washington Post e afirmou que o presidente norte-americano parecia “apaixonado” por ele, embora Fauci estivesse “roubando os holofotes”.
Enquanto trabalhadores perdiam seus empregos, pequenos negócios eram fechados pelas autoridades, crianças eram afastadas das escolas e milhões de pessoas eram submetidas a medidas repressivas, o homem apresentado como personificação da ciência e comandante da luta contra a pandemia registrava cuidadosamente cada manifestação de sua recém-adquirida celebridade.
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Fauci comemorava a própria fama
O diário contém relatos detalhados de conversas com artistas, jornalistas e pessoas influentes. Em uma das anotações, Fauci descreveu uma ligação com a cantora Barbra Streisand, que lhe perguntou se poderia tomar uma vacina de RNA mensageiro depois de ter sofrido herpes-zóster.
Fauci anotou o horário da conversa, as perguntas feitas pela cantora, o diálogo sobre os produtos da Pfizer e da Moderna e até uma ligação posterior realizada acidentalmente pelo telefone guardado no bolso.
Em outra troca de mensagens, comemorou com sua mulher, Christine Grady, o lançamento de um boneco inspirado em sua figura. “Você foi imortalizado”, respondeu ela.
O contraste com o tratamento dado a assuntos realmente graves é revelador. Em janeiro de 2021, Fauci encaminhou à mulher uma reportagem sobre a morte de 23 pessoas na Noruega depois de receberem a vacina da Pfizer. Escreveu apenas “para sua informação”. Christine respondeu com a expressão inglesa “yikes”, usada normalmente de maneira jocosa ou para manifestar um susto superficial.
As mortes precisavam ser investigadas para que se determinasse sua relação com a vacinação. O problema exposto pelos documentos é o completo desinteresse de Fauci diante de uma informação que exigia a atenção da principal autoridade sanitária dos Estados Unidos.
O mesmo funcionário que registrava minuciosamente os elogios recebidos e suas conversas com celebridades dedicou apenas algumas palavras à morte de dezenas de pessoas depois da aplicação de uma vacina promovida pelo governo.
As anotações indicam ainda que Fauci acompanhava os números da pandemia por meio de um gráfico publicado pela revista The Atlantic, acessível a qualquer leitor. Não há nos registros uma estrutura própria de acompanhamento estatístico correspondente ao poder e aos recursos do órgão que dirigia.
Ao mesmo tempo, Fauci mantinha consultas frequentes com Bill Gates sobre vacinas e tratamentos. O bilionário, embora não seja médico ou pesquisador da área, tornou-se um dos principais participantes privados da política sanitária internacional. A boa e velha promiscuidade entre autoridades e capitalistas.
Alertas ficaram restritos aos bastidores
Os documentos também mostram que Fauci recebeu alertas sobre a circulação pelo organismo dos componentes das vacinas de RNA mensageiro.
Em fevereiro de 2021, o pesquisador Drew Weissman, posteriormente agraciado com o Prêmio Nobel de Medicina, informou Fauci sobre experiências realizadas em animais. Os testes indicavam que nanopartículas lipídicas utilizadas para transportar o RNA mensageiro poderiam alcançar diferentes órgãos.
Em estudos feitos com ratas, componentes chegaram à placenta, ao feto, ao útero e aos ovários. Weissman informou que novos experimentos seriam realizados com doses e formas de aplicação mais próximas das utilizadas em seres humanos.
Os resultados iniciais não permitiam concluir automaticamente que o mesmo ocorreria em pessoas vacinadas. Mostravam, porém, que a distribuição desses componentes pelo organismo ainda estava sendo estudada quando autoridades e jornais apresentavam ao público um discurso de certeza absoluta.
Fauci respondeu que seria “interessante” conhecer os resultados posteriores. Quando Weissman enviou novas informações, funcionários ligados ao instituto dirigido por Fauci trataram o assunto como secundário e transferiram a responsabilidade para a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos.
As dúvidas permaneciam nos e-mails internos. Para a população, não havia dúvida alguma. Havia apenas a ordem para se vacinar.
A propaganda oficial, nos EUA e no resto do mundo, incluindo o Brasil, dizia que os produtos eram inteiramente conhecidos e que qualquer pessoa que levantasse uma pergunta sobre sua segurança ou eficácia era inimiga da ciência. Os documentos mostram que as próprias autoridades discutiam problemas que não eram apresentados publicamente.
O que Fauci escondia sobre a origem do vírus
A diferença entre o discurso público e as discussões privadas também aparece no debate sobre a origem do coronavírus.
Em anotação de 26 de janeiro de 2020, Fauci escreveu que o mercado de Huanan, em Wuhan, não havia sido a fonte inicial do vírus, mas apenas um local onde os contágios se ampliaram.
Poucos dias depois, participou de uma reunião com importantes virologistas. Segundo seu próprio diário, a maioria dos participantes desconfiava da versão de que o vírus havia surgido naturalmente em animais antes de passar aos seres humanos.
Os pesquisadores discutiram características do vírus, como o sítio de clivagem da furina, e levantaram a possibilidade de uma modificação realizada em laboratório seguida por uma liberação acidental.
Isso não encerrava a investigação sobre a origem da COVID-19. Provava, no entanto, que a hipótese laboratorial era considerada seriamente por cientistas consultados por Fauci desde o início da pandemia.
Publicamente, a versão era outra. Fauci declarou ao Congresso e aos meios de comunicação que não acreditava na possibilidade de um vazamento de laboratório. Aqueles que mencionavam essa hipótese eram apresentados como conspiracionistas.
Publicações foram apagadas, contas foram suspensas e jornalistas foram censurados por levantar uma possibilidade debatida reservadamente pela própria direção sanitária norte-americana.
A ocultação era ainda mais grave porque o instituto comandado por Fauci havia financiado indiretamente pesquisas com coronavírus realizadas em Wuhan. Os recursos foram repassados por intermédio da EcoHealth Alliance, organização dirigida por Peter Daszak.
Fauci, portanto, não era um observador afastado do problema. O aparelho sob seu comando tinha vínculos com o financiamento das pesquisas que deveriam ser investigadas.
Vacinação virou instrumento de repressão
As revelações expõem a fraude política montada durante a pandemia. As opiniões de Fauci foram transformadas em lei nos Estados Unidos e reproduzidas por governos de todo o mundo, inclusive no Brasil.
Quem manifestasse dúvida era tratado como ignorante, criminoso ou inimigo da coletividade. Quem recusasse a vacina podia perder o emprego, ser impedido de viajar ou proibido de entrar em determinados estabelecimentos.
No Brasil, governos estaduais e municipais instituíram passaportes sanitários e restrições de circulação. A imprensa exigia medidas ainda mais duras. O Globo publicou à época um editorial defendendo que o Ministério da Saúde realizasse uma “busca de não vacinados”.
A linguagem era própria de uma perseguição policial. Pessoas que exerciam o direito de recusar um procedimento médico passaram a ser tratadas como indivíduos que deveriam ser localizados pelo Estado.
Para sustentar a campanha, a imprensa explorou declarações absurdas, como a conhecida frase sobre pessoas que se transformariam em “jacaré” depois da vacinação. A intenção era simples: identificar todo cidadão contrário à vacinação obrigatória com as ideias mais ridículas.
O fato de uma pessoa não querer se vacinar não significa que ela acredite em teorias fantásticas. Também não significa que considere inúteis todas as vacinas. Significa apenas que não aceita que o Estado decida, sob ameaça de punição, quais substâncias devem ser introduzidas em seu corpo.
Era perfeitamente possível defender a vacinação de pessoas vulneráveis e, ao mesmo tempo, ser contra a obrigatoriedade. Essa posição elementar foi retirada do debate, passando por cima dos direitos individuais do cidadão.
A campanha também escondeu os limites dos produtos. As vacinas podiam reduzir o risco de doença grave, especialmente entre pessoas mais velhas ou com problemas de saúde, mas não impediam completamente a infecção nem a transmissão do vírus. Mesmo assim, o não vacinado foi apresentado como um perigo ambulante para toda a sociedade.
A discussão científica foi substituída por uma operação política. Discordar das autoridades deixou de ser uma posição e passou a ser tratado como um delito. Quem se beneficiou disso foi, naturalmente, a direita tradicional, ferramenta política por excelência da burguesia e de seu Estado. Governadores como João Doria foram apresentados como heróis da ciência e do compromisso com a saúde da população, enquanto impunham um estado de policiamento e repressão sobre o povo – que, ao mesmo tempo, continuava tendo de pegar transporte público lotado para ir e voltar do trabalho, sem proteção contra o vírus.
A farsa da campanha pró-vacina
Os documentos não provam que todas as vacinas fossem inúteis nem que cada médico envolvido na campanha agisse conscientemente para enganar a população. O que comprovam é a fraude da campanha que transformou a vacinação numa obrigação política e as autoridades ligadas ao Estado burguês em seres acima de qualquer contestação.
Fauci conhecia dúvidas que eram escondidas da população. Participava de discussões privadas muito diferentes do discurso repetido diante das câmeras. Recebia alertas, mas reservava seu entusiasmo para matérias elogiosas, conversas com artistas, prêmios e bonecos com a sua imagem.
Apesar disso, suas afirmações serviram para justificar confinamentos, demissões, censura, perseguição aos não vacinados e a suspensão de direitos elementares.
O problema nunca foi apenas saber se uma determinada vacina produzia algum benefício. A questão fundamental era se o Estado tinha o direito de impor um tratamento médico enquanto escondia informações, abafava dúvidas e ameaçava quem se recusasse a obedecer.
Durante anos, as autoridades da burguesia exigiram que toda a população confiasse cegamente no Estado, nas instituições burguesas (públicas ou privadas) e em seus burocratas. A audiência do Senado norte-americano, junto com a revelação dos documentos de Fauci, ajuda a desmascarar a farsa.





