O artigo “Como derrotar Milei e a extrema direita” de Martin Mosquera, publicado em 15 de junho no sítio Jacobin, apesar da longa explicação de 62 mil caracteres, cai no mesmo problema da esquerda pequeno-burguesa em geral: formar uma frente ampla para “derrotar o fascismo”.
Segundo o autor, “a extrema-direita avança globalmente a um ritmo desigual, mas decisivo. Não é invencível, como demonstra a recente derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria, mas também não é um mero fenômeno circunstancial.” A derrota de Orbán, Mosquera não explica, foi uma jogada da União Europeia, do imperialismo, uma vez que o húngaro estava colocando empecilhos que dificultavam a guerra da Ucrânia.
Visto por esse ângulo, Orbán, apesar de ser um direitista, se opunha ao grande capital internacional, que utiliza os ucranianos para uma guerra por procuração que está provocando uma verdadeira catástrofe em número de mortos e feridos, além do endividamento assombroso da Ucrânia.
Qual é a vantagem da derrota de Orbán se a UE o queria fora do posto por ele não apoiar o regime nazista de Zelensky? Lembrando que o imperialismo, a OTAN, ajudou a treinar e armar as milícias fascistas do Euromaidan, responsáveis também pelos massacres contra civis na região do Donbass.
Continuando, o autor diz que “nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, se somarmos as suas várias facções políticas, a extrema direita tornou-se a segunda maior força parlamentar, apenas um assento atrás da direita tradicional, agrupada no Partido Popular Europeu. Na França, o partido de Le Pen tem, pela primeira vez, uma chance real de chegar ao Palácio do Eliseu. Na Itália, Meloni governa desde 2022 com índices de aprovação consistentemente elevados, enquanto na Alemanha, o AfD rompeu o cordão sanitário do pós-guerra para se tornar o segundo maior partido nacional.”
Começando pelo final, na Alemanha, a “democracia” tem reprimido violentamente as manifestações contra o genocídio em Gaza, de modo que sustenta o governo fascista de “Israel”. Em 2025, decisões envolvendo grupos de estudos e debates foram alvo de ações jurídicas ao se avaliar se determinadas leituras de Karl Marx promoviam a derrubada da ordem constitucional. Um grupo de leituras de Marx só não enfrentou os tribunais porque foi considerado “irrelevante”. Ou seja, o Estado tem o direito de se “defender” de seus opositores, os socialistas, por exemplo.
O governo italiano, apesar de ser um herdeiro direto de Mussolini, é completamente pró-OTAN, de modo que a desaprovação de Meloni é resultado dessa política. Além da crise causada na indústria em virtude da guerra na Ucrânia.
Na França, o governo golpista de Macron está utilizando a Justiça, a prisão, para controlar a extrema direita.
“No Reino Unido” – continua o texto – “o Reform UK lidera as sondagens pela primeira vez na história. Trump lidera a maior potência mundial com uma agenda explícita de reestruturação autoritária do Estado e apoia abertamente seus aliados de extrema direita em todo o mundo.” Mas, olhando de perto, temos que o “democrático” governo britânico não fica devendo nada para os fascistas. Assim como na Alemanha, manifestantes contra o regime de apartheid “israelense” e contra o genocídio em Gaza são absurdamente reprimidos, chegando-se ao cúmulo de dezenas de milhares de prisões. Com acusações de terrorismo, inclusive.
Os dois últimos primeiros-ministros parecem ter sido treinados pelo Mossad, tamanha adesão aos interesses “Israel” e apoio à guerra de agressão contra o Irã.
Mais adiante, Mosquera escreve que “na América Latina, embora o governo Bolsonaro tenha sido deposto há três anos e Lula tenha, desde então, melhorado importantes indicadores sociais, com crescimento econômico e do emprego e recuperação da renda popular, Flávio Bolsonaro chegou a superar Lula em algumas pesquisas de segundo turno. No Equador, Daniel Noboa consolida um regime autoritário que combina a perseguição sistemática de ativistas e opositores com um preocupante envolvimento institucional com o narcotráfico. No Chile, José Antonio Kast governa desde março deste ano. Os exemplos poderiam ser multiplicados: a Turquia de Erdoğan, a Índia de Modi, El Salvador de Bukele ou Israel de Netanyahu. A força global desse fenômeno é impressionante.”
A gestão de Lula, como os próprios números de Flávio Bolsonaro demonstram, ficou muito abaixo do esperado. Os governos de extrema direita na América Latina nada mais são que lacaios do imperialismo, não exatamente de Trump. A missão destes é acabar com todas as estatais e abrir os mercados para o capital especulativo. Não têm nada de nacionalismo.
Quanto ao governo turco, que já sofreu tentativa de golpe orquestrado pelo imperialismo, está completamente pressionado também pela população que exige medidas contra “Israel”, que tem atacado países da região, como Síria, Líbano, Palestina e Irã.
A “força global” que o texto comenta é a expressão da crise aguda do imperialismo e o aumento da polarização política no mundo. As sucessivas derrotas no Afeganistão, na Ucrânia, na Palestina e no Irã estão fazendo o mundo se rebelar contra a dominação. As massas populares não estão encontrando resposta na esquerda, havendo uma certa ilusão com a extrema direita. No Brasil, por exemplo, a esquerda tem se empenhado em defender as instituições do Estado burguês, enquanto o bolsonarismo se apresenta como antissistema e, com isso, consegue dividir o eleitorado.
Continua…





