América do Sul

‘Não fomos derrotados eleitoralmente’: Petro volta a denunciar fraude na Colômbia

Presidente acusa registrador de golpear a soberania nacional e afirma que resultado deve ser enfrentado com a mobilização popular

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, voltou a denunciar nesta quarta-feira (29) a fraude nas eleições presidenciais que deram a vitória ao direitista Abelardo de la Espriella. Em publicação na rede social X, Petro afirmou que o campo governista continua sendo a maioria legítima do país e acusou o registrador nacional, Hernán Penagos, de participar da manipulação do resultado.

“Não fomos derrotados eleitoralmente, somos a maioria legítima. O registrador se prestou não apenas a uma fraude, mas a golpear nossa soberania nacional. Porém, diz a nossa Constituição que a soberania pertence ao povo; portanto, é preciso resgatá-la com o povo.”

A declaração dá continuidade às denúncias apresentadas pelo presidente desde antes do primeiro turno. Petro sustenta que o resultado anunciado pela Registradoria Nacional não corresponde à votação real e que a eleição foi manipulada por meio do censo eleitoral, do sistema privado de pré-contagem e da alteração de documentos.

Segundo os números oficiais, De la Espriella, da coligação Defensores de la Patria, recebeu 49,66% dos votos no segundo turno, realizado em 21 de junho. Foram aproximadamente 12,96 milhões de votos. Iván Cepeda, candidato do Pacto Histórico, apareceu com 48,70%, ou 12,71 milhões.

A diferença foi de cerca de 250 mil votos, equivalente a 0,96 ponto percentual. Mais de 26,3 milhões de colombianos participaram da votação, um comparecimento recorde de 63,60%.

No primeiro turno, realizado em 31 de maio, De la Espriella havia recebido oficialmente 43,74%, contra 40,90% de Cepeda. A diferença, então próxima de 673 mil votos, caiu para menos da metade na segunda votação.

Apesar das contestações, o Conselho Nacional Eleitoral entregou a credencial ao presidente “eleito” em 25 de junho. A posse está marcada para 7 de agosto.

Empresa privada controla sistema eleitoral

Petro já vinha advertindo sobre o risco de fraude desde fevereiro. Antes da votação, exigiu uma auditoria técnica dos sistemas utilizados pela Registradoria e denunciou a presença da empresa Thomas Greg & Sons em etapas decisivas da eleição.

Controlada pelos empresários conhecidos como irmãos Bautista, a empresa mantém contratos com o Estado colombiano para a impressão de cédulas, a logística eleitoral e a produção de passaportes. Seus programas também recebem e processam os dados da pré-contagem divulgada pela imprensa na noite da eleição.

O presidente recordou uma decisão de 2018 do Conselho de Estado que reconheceu a vulnerabilidade desse sistema a intervenções internas e externas. A decisão também determinava que o Estado colombiano assumisse o desenvolvimento e o controle dos programas eleitorais.

A determinação não foi cumprida. A Registradoria continuou dependente de uma empresa privada, enquanto os partidos e a população permaneceram sem acesso integral ao código-fonte responsável pelo processamento dos resultados.

Depois do primeiro turno, Petro afirmou possuir “bases comprovadas” de fraude. Uma de suas principais denúncias foi a inclusão de 885 mil registros ou cédulas no censo eleitoral depois da votação.

Segundo o presidente, havia dois cadastros em funcionamento: o censo oficial apresentado antes da eleição e outro incorporado ao sistema utilizado para processar os votos.

Também foram apontadas 5.300 mesas com resultados considerados atípicos, registrando entre 300 e 700 votos. Petro afirmou que seria justamente nessas mesas que se encontraria a vantagem atribuída a De la Espriella.

Houve ainda denúncias sobre a votação no exterior. Em pelo menos um consulado, o total de votos teria sido superior ao número de eleitores inscritos.

Ao comentar o resultado, Petro definiu De la Espriella como representante de um “fascismo mafioso” ligado ao ex-presidente Álvaro Uribe, ao paramilitarismo e aos setores mais reacionários da oligarquia colombiana.

Formulários publicados já alterados

As acusações se tornaram ainda mais graves depois do segundo turno. Petro recusou-se a reconhecer a vitória do candidato da direita e declarou: “Abelardo não venceu a eleição.”

O presidente denunciou que formulários E-14 haviam sido divulgados “já alterados”. Esses documentos são preenchidos pelos jurados de votação e registram os resultados de cada mesa.

De acordo com Petro, informações como data, horário e código de verificação digital foram removidas dos arquivos. Sem esses registros, os formulários poderiam ser modificados posteriormente sem que a alteração deixasse um rastro técnico.

Os escritórios ligados aos irmãos Bautista e à Thomas Greg & Sons teriam participado da operação. A retirada desses dados impediria que aproximadamente 70 mil testemunhas eleitorais digitais do Pacto Histórico comparassem os formulários originais com os resultados publicados pela Registradoria.

Petro também denunciou mudanças nos endereços de IP dos servidores eleitorais. Segundo ele, somente “Israel” teria capacidade técnica para realizar uma intervenção desse tipo.

A suspeita é particularmente grave porque o regime sionista mantém há décadas relações estreitas com os aparelhos militares, policiais e de espionagem da Colômbia. Empresas israelenses fornecem equipamentos, programas e treinamento às forças repressivas do país.

Petro exigiu uma recontagem completa dos votos em todas as seções eleitorais e convocou uma “batalha pela democracia”.

Operação em Los Angeles

Em julho, o presidente afirmou que a fraude teria sido organizada em Los Angeles, nos Estados Unidos, por meio de uma empresa israelense e com financiamento de um advogado da Flórida.

Aliados do governo apresentaram uma ação pedindo a anulação da eleição. Entre os envolvidos está Luis Guillermo Pérez, ex-magistrado do Conselho Nacional Eleitoral.

Um relatório apresentado como perícia forense identificou comportamento atípico em 14.400 mesas. A quantidade de seções questionadas é suficiente para colocar em dúvida uma diferença oficial de apenas 250 mil votos.

O documento também apontou inconsistências no censo eleitoral. Petro declarou que preparava um relatório completo para entregar à Justiça colombiana.

O presidente convocou manifestações para 20 de julho, Dia da Independência da Colômbia. Também anunciou o início do empalme, o processo formal de transição entre os governos, sem que isso significasse reconhecer a vitória de De la Espriella.

Registradoria tenta encerrar o caso

A Registradoria Nacional rejeitou as denúncias. Segundo o órgão, a pré-contagem teria coincidido em 99,997% com o escrutínio, com uma variação de apenas 0,06%.

Entidades ligadas à ingerência imperialista na política latino-americana, como a Missão de Observação Eleitoral da União Europeia e a organização colombiana MOE também afirmaram não ter encontrado manipulação. Classificaram o processo como “transparente, ordenado e fluido” e disseram que as campanhas tiveram acesso a mecanismos de auditoria.

O desmentido burocrático, entretanto, não responde às denúncias sobre o controle privado dos programas, a falta de acesso completo ao código-fonte, a retirada de informações dos formulários E-14 e as mudanças nos servidores da Registradoria.

Iván Cepeda aceitou inicialmente os números divulgados, mas anunciou que contestaria aproximadamente 33 mil seções. O candidato afirmou que somente reconheceria o resultado definitivo depois do escrutínio, “sem renunciar à verdade”.

De la Espriella respondeu acusando Petro e Cepeda de preparar um golpe de Estado e de aplicar um “plano B para permanecer no poder”. O presidente “eleito” chegou a suspender as reuniões de transição.

A direita procura transformar qualquer investigação sobre o processo em uma tentativa de golpe. Ao mesmo tempo, recusa-se a abrir completamente os programas e documentos que permitiriam verificar as acusações.

Fraude não começou na Colômbia

A eleição colombiana faz parte de um processo que se repete em toda a América Latina. As oligarquias locais e o imperialismo norte-americano sempre controlaram os regimes políticos da região e nunca aceitaram eleições verdadeiramente livres quando seus interesses fundamentais estavam ameaçados.

No Equador, Daniel Noboa permaneceu no poder em 2025 depois de um resultado que contrariou as principais pesquisas. Luisa González denunciou fraude, enquanto os Estados Unidos reconheceram imediatamente o governo.

No Peru, a manipulação eleitoral, a repressão e a perseguição política abriram caminho para o retorno do fujimorismo. As denúncias da população foram desprezadas pelos mesmos organismos internacionais que agora certificam a eleição colombiana.

https://causaoperaria.org.br/2026/povo-peruano-volta-a-protestar-contra-a-fraude-eleitoral/

Na Bolívia, o golpe de 2019 derrubou Evo Morales. Em 2025, seu impedimento eleitoral retirou da disputa o principal dirigente popular do país antes que a população pudesse votar.

A fraude não ocorre apenas quando uma ata é adulterada ou quando votos são acrescentados ao resultado. Também existe quando candidatos populares são impedidos de concorrer, quando programas secretos ficam nas mãos de empresas privadas, quando os monopólios da imprensa fazem campanha pela direita e quando os Estados Unidos decidem quais governos podem assumir.

Da Bolívia ao Peru, do Equador à Colômbia e ao Brasil, muda apenas o método: golpe de Estado, proscrição, perseguição judicial, ingerência estrangeira ou manipulação da contagem. O objetivo é sempre o mesmo: conservar o poder nas mãos das oligarquias subservientes ao imperialismo e impedir que a maioria da população decida os destinos de seu país.

Foi a esse sistema que Petro se referiu ao afirmar que a soberania colombiana precisa ser resgatada pelo povo. As eleições latino-americanas nunca foram livres do controle do imperialismo e das classes dominantes locais. A eleição colombiana mostra que continuam não sendo.

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