A coluna A manobra de Mamdani envolvendo Netanyahu foi um desperdício de seu talento e do nosso tempo, de Thomas L. Friedman, publicada pelo The New York Times nesta terça-feira (28), combina a tradicional defesa do Estado genocida de “Israel” com uma exposição involuntária dos limites do socialismo democrático norte-americano, tão celebrado pela esquerda pequeno-burguesa brasileira.
Logo no primeiro parágrafo, Friedman escreve:
“Não sei que tipo de prefeito de Nova Iorque Zohran Mamdani acabará sendo, mas ele já se mostrou uma verdadeira decepção como estadista. Nova Iorque é a única cidade do mundo onde vivem, lado a lado, pelo menos 750 mil judeus e 750 mil muçulmanos. Em vez de atuar como um construtor de pontes construtivo entre eles, Mamdani — o primeiro prefeito muçulmano da cidade — escolheu ser um destruidor de pontes, usando o conflito israelense-palestino como sua marreta. É um enorme desperdício de um talento político verdadeiramente carismático.”
A própria formulação do jornalista revela que o conflito na Palestina alcançou e dividiu não apenas a cidade de Nova Iorque, mas a sociedade norte-americana. A balança parece pender cada vez mais para o lado dos palestinos, sobretudo entre a juventude, na qual cresce o apoio à causa palestina e, inclusive, ao Hamas.
Recentemente, Mamdani ameaçou prender o primeiro-ministro “israelense”, Benjamin Netaniahu, caso ele vá a Nova Iorque para a reunião das Nações Unidas, em setembro. Contra Netaniahu existe um mandado de prisão expedido em 2024 pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes contra a humanidade cometidos na Faixa de Gaza.
Como informa a própria coluna, Mamdani não teria autoridade para executar diretamente a prisão e dependeria da ação do governo federal. Ainda assim, Friedman procura transformar a ameaça contra um criminoso de guerra em um favor político a Netaniahu:
“Esse foi exatamente o tipo de coisa que Netaniahu usará em sua campanha para ser reeleito em 27 de outubro. Eu mesmo consigo escrever o comercial de campanha de Bibi: ‘O único lugar seguro para os judeus é Israel. Basta olhar para o que está acontecendo em Nova Iorque. O único líder capaz de proteger os israelenses sou eu: Bibi.’”
A conclusão é clara: os genocidas podem cometer os crimes que quiserem porque qualquer tentativa de puni-los seria supostamente pior, já que poderia fortalecê-los eleitoralmente.
Embora a declaração de Mamdani não passe de uma jogada publicitária, ela expressa um sentimento amplamente difundido. Friedman, por sua vez, procura preservar a imagem de um “país” que massacra civis para roubar suas terras. A eventual reeleição de Netaniahu é secundária, pois todos os governos de “Israel”, com diferenças apenas de forma e intensidade, seguem a mesma política de opressão contra os palestinos.
Friedman recorre ainda a uma falsificação grosseira ao afirmar que “as opiniões extremas de Mamdani e de Netanyahu são apenas dois lados da mesma moeda”. Segundo ele:
“Bibi não reconhece o direito do povo palestino à autodeterminação em sua pátria nacional e acredita que apenas Israel deve governar o território que se estende do Mar Mediterrâneo ao Rio Jordão.”
Em seguida, acrescenta:
“Mamdani também não defende uma solução de dois Estados. Ele argumenta que os judeus não têm direito à autodeterminação em um Estado próprio — um Estado judaico em sua terra natal bíblica, naquela mesma região que se estende do Mar Mediterrâneo ao Rio Jordão.”
A equiparação é fraudulenta. A história da “terra bíblica” não passa de uma justificativa religiosa para a ocupação e o roubo das terras palestinas. Já a chamada “solução de dois Estados” é uma fórmula inviável, utilizada repetidamente para impedir que se reconheça o direito dos palestinos a viver em seu próprio território.
Continuando a falsificação, Friedman escreve que “mais de sete milhões de judeus também vivem nesse espaço e eles, também, não vão embora nem abrirão mão de seu direito a um Estado judaico — independentemente do que Mamdani e outros socialistas democráticos digam”. Por isso, segundo o colunista, os opositores do sionismo também estariam “promovendo uma guerra sem fim”.
Em primeiro lugar, ninguém está propondo a expulsão dos moradores da região. O que está em questão é o suposto direito de constituir um Estado baseado na supremacia de um grupo religioso e étnico sobre as terras de outro povo.
Afirmar que aqueles que se opõem ao roubo da Palestina e à criação de um Estado artificial sobre seu território também promovem uma “guerra sem fim” é uma das formas mais abjetas de cinismo.
Os “israelenses” podem não querer abrir mão do Estado sionista, mas a política não funciona segundo a vontade abstrata de cada agrupamento. “Israel” depende integralmente do apoio militar, financeiro e diplomático do imperialismo, além da conivência das chamadas “democracias” ocidentais, para continuar existindo.
A recente guerra de agressão contra o Irã expôs sua fragilidade e sua incapacidade de se sustentar por meios próprios. Quando o apoio estrangeiro cessar, o Estado sionista estará com os dias contados.
A fraude dos dois Estados
Apesar de os sucessivos governos “israelenses” terem demonstrado inúmeras vezes que não aceitam a existência de um Estado palestino, Friedman insiste na velha farsa:
“Se Mamdani realmente quisesse atuar como uma ponte entre israelenses e palestinos, um papel para o qual possui capacidade e talento singulares, ele anunciaria a intenção de convocar um seminário em seu escritório — no dia em que Bibi chegasse a Nova Iorque para a Assembleia Geral da ONU — e convidaria especialistas israelenses, palestinos, árabes, muçulmanos e judeus para discutir a única solução justa e estável: como criar dois Estados distintos para dois povos que vivem nessa área entre o rio e o mar.”
Nem o próprio jornalista pode acreditar seriamente nessa proposta. Ainda assim, precisa sustentar a farsa. Enquanto especialistas participam de seminários e discutem a “solução de dois Estados”, os assentamentos ilegais continuam avançando, os palestinos seguem sendo expulsos de suas casas e os bombardeios contra civis não cessam.
Friedman imagina que bastaria reunir algumas lideranças em um escritório para que todos concordassem em viver em paz e formar dois Estados. Mesmo que tal acordo fosse alcançado, permanece a questão decisiva: como seria transferido para o terreno e imposto ao Estado sionista?
A resposta é que não seria. A chamada solução de dois Estados foi inviabilizada pela própria política de ocupação de “Israel”. A única saída efetivamente democrática é a constituição de um Estado palestino único, no qual os “israelenses” que desejarem permanecer possam viver sem privilégios sobre a população árabe.
A declaração de Mamdani provocou algum impacto, mas deveria fazer parte de uma verdadeira campanha de agitação política, e não de uma operação oportunista de imagem.
O socialismo democrático norte-americano não conduz uma campanha real de mobilização e esclarecimento da classe trabalhadora. Seu papel, quando muito, é apresentar-se como uma versão melhorada do Partido Democrata, cada vez mais desgastado por sua política de guerras permanentes e pelo apoio incondicional ao genocídio na Palestina.




