Em entrevistas recentes, Fernando Haddad lamentou o desaparecimento do PSDB e afirmou que gostaria de ver o partido “voltar a existir”. Classificou Mário Covas, Geraldo Alckmin, José Serra e Fernando Henrique Cardoso como “grandes quadros” e declarou que petistas e tucanos partilham “um solo comum de conceitos e de valores”. O pré-candidato ao governo de São Paulo também reclamou da ausência de “um partido de centro-direita viável” no País.
As declarações esclarecem a política seguida pelo PT. Depois de ter apresentado o PSDB durante décadas como seu principal adversário, o partido passou a recolher, reabilitar e promover os representantes da direita tradicional desgastados pelas sucessivas crises políticas e administrações antipopulares.
O caso mais evidente está na própria Presidência da República. Fundador do PSDB, Geraldo Alckmin governou São Paulo por quatro mandatos, disputou a Presidência contra Lula em 2006 e tornou-se conhecido pela repressão às greves, às ocupações estudantis e às mobilizações populares. Como governador, colocou reiteradamente a Tropa de Choque contra trabalhadores e estudantes.
Esse histórico não impediu que Alckmin fosse apresentado como representante da “democracia” e escolhido para ocupar a Vice-Presidência. A mudança para o PSB alterou apenas a legenda partidária. Sua presença no governo levou para o Palácio do Planalto os interesses e os quadros políticos que comandaram o tucanato durante décadas.
A composição eleitoral organizada pelo PT segue o mesmo caminho. Simone Tebet, do MDB, concorreu contra Lula em 2022, aderiu ao petista no segundo turno e recebeu o Ministério do Planejamento. Agora, a representante dos latifundiários do Mato Grosso do Sul aparece entre os nomes promovidos pela esquerda para disputar o Senado por São Paulo.
Marina Silva, ligada ao aparato internacional de George Soros, comanda o Ministério do Meio Ambiente. Márcio França, que foi vice-governador em administrações tucanas, é apresentado como possível candidato a vice novamente, agora na chapa de Haddad. as migalhas reservadas a representantes dos trabalhadores diminuem à medida que aumentam os cargos, as candidaturas e a influência oferecidos aos representantes da burguesia.
O retorno de Ciro Gomes ao PSDB completa o quadro. Durante anos, ele procurou apresentar-se como nacionalista, defensor dos trabalhadores e crítico de Lula pela esquerda. Depois de passar por diversos partidos, entregou sua carta de desfiliação ao PDT em outubro de 2025 e regressou ao PSDB, legenda pela qual governou o Ceará na década de 1990.
Recebido por Tasso Jereissati, Ciro assumiu a tarefa de ajudar a reconstruir o tucanato e passou a preparar sua candidatura ao governo cearense. Sua volta ao partido revelou o caráter fraudulento da imagem de político progressista cultivada durante anos.
A política de frente ampla do PT funciona, assim, como uma máquina de recuperação da direita tradicional. Políticos rejeitados por sua atuação contra os trabalhadores recebem cargos, candidaturas e uma nova roupagem. Antigos tucanos, dirigentes do MDB (partido irmão do PSDB) e representantes das grandes organizações financiadas pelo imperialismo passam a circular como integrantes de um campo supostamente progressista apenas porque se associaram eleitoralmente a Lula.
Enquanto o bolsonarismo conserva uma base mobilizada nas ruas, o PT tenta reconstruir a direita burguesa tradicional, considerada mais confiável pelos grandes capitalistas e pelas instituições do regime político, abandonando sua base original. A esquerda pequeno-burguesa chama essa aliança de frente “democrática” e ajuda a apresentar antigos inimigos dos trabalhadores como aliados necessários contra o “fascismo”.
Haddad não fez um elogio isolado. Ao reivindicar a volta do PSDB e reconhecer a existência de valores comuns entre petistas e tucanos, o ministro expressou abertamente uma política que já está em curso no governo, nos ministérios e na formação das chapas eleitorais. Uma política que vem se desenvolvendo no PT desde finais da década de 1980, mas que agora ganha contornos dramáticos à medida que o PT vai se tornando o representante por excelência do regime pós-ditadura militar – um regime em franco declínio. Declínio este que o PT faz questão de acompanhar, enquanto resgata os verdadeiros responsáveis por este regime.





