As Forças Armadas do Iêmen atacaram instalações da petrolífera Aramco nas cidades sauditas de Jizan e Yanbu, em resposta aos bombardeios realizados pela Arábia Saudita contra a província de Hodeidá e a ilha de Kamaran. O porta-voz militar iemenita, brigadeiro-general Iahia Saré, anunciou neste sábado (25) que a proibição naval contra embarcações vinculadas ao reino saudita continuará em vigor.
A primeira operação empregou dezenas de mísseis balísticos e drones contra instalações da Aramco em Jizan. A segunda atingiu unidades da empresa em Yanbu com mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones.
Segundo Saré, os projéteis atingiram diretamente os alvos estabelecidos. A Arábia Saudita não apresentou um balanço dos danos. Também foram registradas explosões nas proximidades da base aérea de Khamis Mushait, enquanto a Defesa Civil saudita emitiu alertas para a região de Jizan.
Os ataques iemenitas ocorreram depois de aviões sauditas bombardearem a cidade e o porto de Hodeidá, instalações de telecomunicações e a ilha de Kamaran. A agência de notícias SABA informou que uma mulher ficou ferida na ilha.
A coalizão comandada por Riade reconheceu os bombardeios, que classificou como uma “resposta militar proporcional” contra supostos “alvos militares legítimos”. O comando saudita negou ter atingido o porto de Hodeidá e afirmou que os portos do país continuavam abertos à navegação.
A versão saudita contradiz as informações divulgadas pela SABA e pela emissora Al Mayadeen, segundo as quais a área portuária foi um dos alvos. O Ministério da Defesa do governo de Saná informou ainda que as defesas antiaéreas iemenitas enfrentaram formações de aviões sauditas e as obrigaram a deixar o espaço aéreo do país antes que realizassem novos ataques.
Saré afirmou que a agressão demonstra a intenção da monarquia saudita de manter o cerco contra o Iêmen e continuar violando a soberania nacional.
“Isso é inaceitável, e nosso povo livre, fiel e valente enfrentará essa agressão com firmeza e força”, declarou.
‘Escalada por escalada’
O Ministério das Relações Exteriores do governo de Saná advertiu que os ataques contra Hodeidá inauguram uma nova etapa do confronto. Segundo o ministério, Riade preferiu retomar os bombardeios a atender à exigência iemenita de abertura dos portos e aeroportos do país.
A Arábia Saudita, acrescentou o governo iemenita, deverá responder pelas consequências da agressão. A reação seguirá a fórmula anunciada pelas autoridades de Sanaa: “bloqueio por bloqueio e escalada por escalada”.
O Birô Político do Ansar Alá condenou os ataques contra Hodeidá e Kamaran, destacando que foram atingidas instalações civis essenciais à população. Para a organização, o regime saudita procura compensar suas derrotas militares e políticas destruindo a infraestrutura do país.
A direção do Ansar Alá reafirmou que os ataques não ficarão sem resposta e resumiu a posição iemenita: “bloqueio por bloqueio, portos por portos e escalada por escalada”.
Mohammad Abdul Salam, chefe da delegação de Saná que negocia com a Arábia Saudita, afirmou que os bombardeios demonstram a intenção de Riade de manter fechado o Aeroporto Internacional de Saná e condicionar qualquer reabertura à autorização saudita.
Abdul Salam denunciou o regime saudita por falar em “soberania iemenita” enquanto controla o espaço aéreo e o acesso marítimo do país. Segundo o dirigente, a monarquia se parece com “Israel” em sua política de “mentira, arrogância, malícia e agressão”.
“Qualquer agressão contra o Iêmen não passará sem resposta, e o regime saudita deverá arcar com as consequências de seus atos criminosos”, afirmou.
Doze anos de cerco
A Arábia Saudita iniciou a guerra contra o Iêmen em março de 2015, à frente de uma coalizão apoiada pelos Estados Unidos. Incapaz de derrotar o Ansar Alá, Riade submeteu o país a um bloqueio de portos, aeroportos e estradas, provocando uma das maiores catástrofes humanitárias das últimas décadas.
Em agosto de 2016, a coalizão proibiu a circulação de aeronaves no espaço aéreo iemenita, fechando o Aeroporto Internacional de Saná aos voos comerciais. O aeroporto atende uma região onde vivem cerca de 20 milhões de pessoas, aproximadamente 80% da população do país.
Os bombardeios sauditas de grande escala diminuíram após oito anos de guerra, mas o cerco permaneceu. A situação entre Riade e Saná passou a ser definida pelas autoridades iemenitas como um estado de “nem guerra nem paz”.
Nas últimas semanas, porém, a Arábia Saudita voltou a atingir o aeroporto de Saná, Hodeidá e Kamaran. O Iêmen respondeu proibindo a passagem de embarcações vinculadas ao comércio saudita pelo Mar Vermelho.
As autoridades de Saná afirmam que a medida somente será suspensa quando a Arábia Saudita abrir os portos e aeroportos iemenitas.
“Forçar o povo iemenita a se render é impossível. O lado saudita deve levantar o bloqueio”, declarou Nasser al-Amer, diretor da agência SABA, à Al Mayadeen.
Bloqueio atinge exportações de petróleo
A proibição naval começou a pressionar as exportações sauditas de petróleo. Embarcações ligadas ao reino passaram a evitar o estreito de Babelmândebe e a procurar rotas mais longas pelo Canal de Suez.
A dificuldade é agravada pela forte redução do tráfego no Estreito de Ormuz após o início da guerra dos Estados Unidos contra o Irã. Em 23 de julho, apenas um petroleiro atravessou o estreito, o menor movimento registrado desde 7 de maio, segundo dados da empresa Kpler citados pela Reuters.
Para contornar o bloqueio iraniano, a Arábia Saudita vinha transportando petróleo por meio do oleoduto Leste-Oeste, que liga as regiões produtoras do Golfo Pérsico ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Os navios poderiam então atravessar Babelmândebe e seguir para os principais compradores asiáticos.
A ação iemenita colocou esse caminho sob ameaça. O petroleiro Rodos, que transportava petróleo para a Índia, mudou de direção e seguiu para o Canal de Suez. Pelo menos outras cinco embarcações adotaram medidas semelhantes.
As Forças Armadas iemenitas também anunciaram ataques contra os petroleiros Encelia e Layla, acusados de desrespeitar a proibição. As autoridades sauditas confirmaram que o Encelia foi atingido e pegou fogo, mas afirmaram que a tripulação não sofreu ferimentos.
O desvio pelo Egito aumenta drasticamente o tempo de viagem. Um petroleiro que parte de Yanbu em direção a Taiuã leva cerca de 19 dias pelo Estreito de Babelmândebe. Pela rota alternativa, precisa atravessar o Suez, cruzar o Mediterrâneo, passar pelo Estreito de Gibraltar e contornar o Cabo da Boa Esperança. O percurso passa a durar aproximadamente 48 dias.
O custo estimado de combustível sobe de US$1,26 milhão para US$2,87 milhões. A passagem pelo Canal de Suez acrescenta cerca de US$1 milhão em tarifas, além do aumento dos gastos com seguro e frete.
A alternativa egípcia também possui limitações. Os grandes petroleiros não conseguem atravessar o Canal de Suez completamente carregados devido às restrições de profundidade. Outra possibilidade é utilizar o oleoduto Sumed, que liga o Mar Vermelho ao Mediterrâneo, mas sua capacidade é de 2,5 milhões de barris por dia, diante de exportações sauditas próximas de sete milhões de barris diários.
A Aramco já começou a oferecer carregamentos com saída do porto egípcio de Sidi Kerir. A medida mostra que a Arábia Saudita foi obrigada a incorporar a rota mais longa à sua política de exportação.
Saré reafirmou que o bloqueio naval permanecerá em vigor e poderá ser ampliado caso Riade mantenha os ataques:
“Não hesitaremos em expandir nossas operações de acordo com os acontecimentos das próximas horas e dos próximos dias, dentro da equação de bloqueio por bloqueio e escalada por escalada.”





