A declaração de Fernando Haddad de que o PSDB “faz falta ao Brasil” revela uma tendência cada vez mais clara: setores importantes do PT procuram ocupar o espaço deixado pelo partido que comandou o maior ciclo de privatizações e destruição econômica da história recente do País.
O PSDB de Fernando Henrique Cardoso entregou empresas estatais estratégicas, destruiu empregos qualificados, encareceu serviços essenciais e aprofundou a dependência da economia brasileira em relação ao capital estrangeiro. Vale, Telebrás, parcelas da Eletrobrás e da Petrobrás foram transferidas ao setor privado por valores muito inferiores à importância econômica e patrimonial dessas empresas.
As privatizações desmontaram cadeias produtivas, reduziram quadros técnicos e provocaram centenas de milhares de demissões. Empresas construídas com recursos públicos passaram a operar com menos trabalhadores, tarifas mais altas e prioridade absoluta para a remessa de lucros.
O caso da energia elétrica resume esse processo. Antes das privatizações, a conta de luz tinha peso muito menor no orçamento popular. Hoje, milhões de famílias enfrentam tarifas elevadas, enquanto concessionárias estrangeiras reduzem investimentos, mantêm equipes insuficientes e enviam recursos para suas matrizes.
A Enel tornou-se um exemplo evidente.
O governo FHC também aprofundou a desindustrialização. A política de valorização do real diante do dólar facilitou a entrada de produtos estrangeiros e destruiu parte significativa da indústria brasileira.
Desde então, o País perdeu capacidade produtiva, empregos industriais e autonomia tecnológica. O Brasil passou a exportar matérias-primas e importar produtos de maior valor agregado, reforçando uma estrutura econômica subordinada.
O resultado foi um processo de destruição econômica que ainda determina a situação nacional. Serviços essenciais foram entregues a empresas privadas, a indústria encolheu e uma parcela crescente da riqueza produzida no Brasil passou a ser transferida ao exterior.
É esse partido que Haddad afirma fazer falta.
Durante anos, o PT construiu sua força eleitoral denunciando o programa tucano. A campanha contra a privatização da Vale, as críticas ao sistema financeiro e a denúncia da entrega do patrimônio público foram elementos centrais da propaganda petista.
O partido não reverteu as privatizações quando chegou ao governo, mas manteve uma oposição verbal ao neoliberalismo do PSDB. Essa diferença, ainda que limitada, ajudava a preservar a imagem do PT como força ligada aos trabalhadores.
O elogio de Haddad representa uma ruptura com essa tradição. Ele não trata o PSDB como responsável por um programa de destruição nacional, mas como uma força necessária ao funcionamento da política brasileira.
Não é coincidência que a declaração tenha vindo do ministro da Fazenda. Haddad é o principal defensor, dentro do governo Lula, de uma política de controle de gastos sociais, metas fiscais, concessões ao mercado financeiro e subsídios aos grandes empresários.
A aproximação entre o PT e o antigo tucanato deixou de ser ocasional. Geraldo Alckmin, um dos principais dirigentes históricos do PSDB, tornou-se vice-presidente. Márcio França, Simone Tebet, Marina Silva e outros representantes da política burguesa passaram a integrar ou gravitar em torno do governo.
A justificativa inicial era formar uma frente ampla contra o bolsonarismo. Com o passar do tempo, porém, essa aliança passou a definir a própria orientação política do PT.
O partido procura apresentar-se como representante de um grande bloco da burguesia brasileira, especialmente dos setores que rejeitam o bolsonarismo, mas defendem o ajuste fiscal, os privilégios dos bancos e a continuidade das privatizações.
Ao mesmo tempo, tenta preservar sua influência sobre os sindicatos e o eleitorado popular. Esse equilíbrio é cada vez mais instável.
A política econômica do governo mostra para quem os recursos públicos são dirigidos. Bancos, exportadores e grandes empresas recebem subsídios, crédito e garantias bilionárias.
O governo aprovou R$18 bilhões para exportadores, valor superior a um mês inteiro do Bolsa Família. Para os grandes empresários, o dinheiro é liberado com poucas exigências. Para os pobres, há pente-fino, fiscalização constante e risco de perda do benefício por qualquer aumento mínimo de renda.
A tentativa de transformar o PT em um novo PSDB pode destruir sua base social. O partido ainda ocupa, de maneira deformada, o espaço de uma representação política dos trabalhadores. Os principais sindicatos continuam ligados à CUT, e uma parcela importante do eleitorado operário ainda vota no PT.
Essa ligação, porém, está enfraquecida. A classe trabalhadora possui pouca influência real sobre a direção, as bancadas parlamentares e os governos petistas.
Sem Lula, que ainda funciona como elo entre o partido e o eleitorado popular, a tendência de deslocamento para a direita poderá avançar ainda mais rapidamente.
A experiência internacional mostra o destino desse caminho. Partidos social-democratas europeus que adotaram integralmente o neoliberalismo perderam sua base operária e entraram em crise.
O PSDB foi destruído porque sua política se tornou insuportável para a população. Caso o PT procure substituí-lo, herdará não apenas seu espaço político, mas também seu fracasso histórico.




