Fernando Haddad saiu em defesa do PSDB. Em entrevista ao portal UOL, afirmou que gostaria de ver o partido novamente como uma força nacional.
“Eu também queria que o PSDB voltasse a existir”, declarou. Haddad chamou Mário Covas, Geraldo Alckmin, José Serra e Fernando Henrique Cardoso de “grandes quadros” e lamentou que o País já não tenha “um partido de centro-direita viável”.
A declaração tenta ressuscitar a fábula de que o PSDB representava uma direita democrática, civilizada e respeitadora das instituições. A eleição presidencial de 2014 mostra o contrário.
Naquele ano, Aécio Neves dirigiu uma das campanhas mais direitistas desde o fim da ditadura militar. O PSDB concentrou seus ataques na acusação de que o PT seria uma organização corrupta, tratou a esquerda como uma ameaça ao País e, depois de perder a eleição, lançou dúvidas sobre a vitória de Dilma Rousseff.
Antipetismo como programa
Aécio foi oficializado candidato da coligação Muda Brasil em 14 de junho de 2014. No segundo turno, recebeu 48,36% dos votos válidos, contra 51,64% de Dilma Rousseff. A diferença foi de cerca de 3,4 milhões de votos.
A pequena vantagem obtida por Dilma elevou o tom dos tucanos. Em vez de apresentar uma simples disputa entre dois programas burgueses, o PSDB procurou transformar a eleição em um julgamento do PT.
A principal acusação dizia respeito às denúncias de pagamento de propinas na Petrobrás. No primeiro debate do segundo turno, realizado em 14 de outubro, Aécio cobrou Dilma sobre o esquema e perguntou por que o governo não havia impedido sua continuidade.
No último debate, realizado pela Rede Globo em 24 de outubro, o candidato tucano começou sua participação exigindo explicações sobre uma matéria da revista Veja. O texto afirmava que Dilma e Luiz Inácio Lula da Silva “sabiam tudo” sobre os desvios na estatal.
A edição foi divulgada na sexta-feira anterior à votação, quando faltavam apenas dois dias para o segundo turno. A acusação ainda não havia sido julgada, mas foi usada imediatamente pelo PSDB como se constituísse uma prova definitiva contra a candidata petista.
Os tucanos insistiam que o PT havia tomado o Estado para beneficiar seus dirigentes. Uma nova vitória de Dilma era apresentada como garantia de que os desvios continuariam. Dessa maneira, qualquer debate sobre salários, emprego ou privatizações era substituído por acusações de natureza policial.
Essa campanha preparou o terreno para a perseguição política que se desenvolveu nos anos seguintes. O PT deixou de ser tratado apenas como adversário eleitoral e passou a ser apresentado como uma quadrilha que precisava ser retirada do governo por qualquer meio.
Ao redor da candidatura tucana também se difundiam acusações contra o chamado “bolivarianismo”, o Foro de São Paulo e as relações do PT com governos e organizações de esquerda da América Latina. Era uma campanha geral que apresentava o petismo e os movimentos populares como partes de uma ameaça autoritária.
O bolsonarismo apenas pegou o discurso pronto e o popularizou, classificando organizações de trabalhadores, camponeses e estudantes como inimigos internos.
Contra os salários e a Petrobrás
Aécio também atacava a política econômica dos governos petistas. Uma de suas frases mais repetidas era que “a inflação está de volta porque o PT fracassou na economia”.
Sua equipe econômica, formada com a participação de Fernando Henrique Cardoso e de representantes do grande capital, defendia novas privatizações, redução dos gastos públicos e medidas favoráveis aos bancos.
Integrantes ligados à candidatura chegaram a ser acusados de considerar elevado o salário mínimo. A posição retomava a política dos governos de Fernando Henrique, marcados pela venda das empresas estatais, pelo desemprego e pela contenção dos salários.
O PSDB que Haddad deseja novamente forte era o partido das privatizações, dos banqueiros e do ataque aos direitos dos trabalhadores. Sua aparência de moderação desapareceu quando o PT ameaçou conquistar o quarto mandato presidencial consecutivo.
Aécio perde e PSDB contesta as urnas
Aécio reconheceu publicamente a derrota na noite de 26 de outubro. Quatro dias depois, o PSDB apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral um pedido de “auditoria especial” sobre a votação.
O partido exigiu cópias dos boletins de urna de todas as seções eleitorais, os registros originais das máquinas e os dados dos sistemas de votação e totalização. Era o início de uma campanha destinada a lançar suspeitas sobre a vitória de Dilma.
O diretório municipal do PSDB em São Paulo foi além. Uma nota aprovada pelo partido pediu uma auditoria “de preferência internacional”.
Milton Flávio, então presidente municipal dos tucanos, citou supostas fraudes nas urnas eletrônicas divulgadas nas redes sociais e questionou a isenção de Dias Toffoli, presidente do TSE.
Todos os elementos usados posteriormente pelo bolsonarismo já estavam presentes: denúncias sem provas divulgadas na Internet, ataques às urnas, suspeitas contra os ministros do tribunal e pedidos de fiscalização internacional.
Em 18 de dezembro de 2014, o PSDB protocolou uma ação para cassar o registro de Dilma e Michel Temer. O partido pediu que ambos fossem declarados inelegíveis sob a acusação de abuso de poder político e econômico.
Ao todo, os tucanos apresentaram quatro processos no TSE contra a chapa vencedora. Essas iniciativas, somadas à campanha pelo impedimento de Dilma, serviram para manter o governo sob ataque desde o começo do segundo mandato.
Quase um ano depois, a auditoria encomendada pelo próprio PSDB concluiu que não existiam provas de fraude. O partido havia contestado a eleição antes de encontrar qualquer falha no sistema favorável ao PT.
O partido que chocou o ovo
Pouco após ser derrotado, Aécio acusou o PT de instaurar uma “organização criminosa” na Petrobrás e de ter uma “agenda” supostamente “antidemocrática e totalitária”. Exatamente as acusações da extrema direita bolsonarista.
O bolsonarismo não inventou o hoje combatido ataque às urnas, a acusação permanente de fraude ou a tentativa de derrubar um governo popular. Antes de Jair Bolsonaro assumir o protagonismo na direita, o PSDB já havia empregado esses métodos contra Dilma e o PT.
A candidatura de Aécio apresentou o antipetismo como programa nacional. As denúncias contra a Petrobrás foram usadas para tratar o adversário como uma organização criminosa. Depois da derrota, os tucanos procuraram transformar a pequena diferença de votos em motivo para questionar a eleição.
A diferença entre o PSDB e o bolsonarismo foi principalmente de forma e eficiência. Os tucanos prepararam o discurso, criaram os precedentes e abriram o caminho político que Bolsonaro percorreria depois, sem o mesmo apoio da burguesia recebido pelo PSDB.
O PSDB não foi uma vítima inocente da extrema direita. Foi o partido que chocou o ovo da serpente bolsonarista.




