Retrospectiva

Amado por Haddad, PSDB esmagou greves, prendeu estudantes e massacrou sem terra

Haddad chama os dirigentes tucanos de “grandes quadros”, mas o partido lançou tropas contra operários, professores, estudantes e trabalhadores sem-terra

Fernando Haddad quer o PSDB de volta. Em entrevista ao portal UOL, o pré-candidato do PT ao governo de São Paulo lamentou o enfraquecimento do antigo inimigo do seu partido e afirmou que desejava vê-lo novamente como uma força nacional.

“Eu também queria que o PSDB voltasse a existir”, declarou. Haddad chamou Mário Covas, Geraldo Alckmin, José Serra e Fernando Henrique Cardoso de “grandes quadros” e afirmou que PT e PSDB possuíam “um solo comum de conceitos, de valores”. Também lamentou a inexistência de “um partido de centro-direita viável” no País.

O elogio encobre a história do tucanato. Durante seus mandatos, o PSDB mandou o Exército ocupar refinarias, lançou a Polícia Militar contra professores e estudantes, despejou milhares de moradores, perseguiu o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e promoveu uma campanha para derrubar o governo do próprio PT.

Bolsonaro insultou grevistas, professores, sem-terra e militantes de esquerda. Os dirigentes tucanos, quando controlavam o aparato estatal, foram além dos discursos. Usaram soldados, policiais, cavalaria, helicópteros, bombas e balas de borracha contra os trabalhadores.

A direita de que Haddad sente falta

Haddad reconhece que o PSDB defendia as privatizações e se opunha à valorização do salário mínimo. Mesmo assim, considera que os dois partidos compartilhavam valores fundamentais.

As privatizações, o arrocho salarial e a repressão aos trabalhadores não foram aspectos secundários dos governos tucanos. Formaram o centro de seu programa. Fernando Henrique Cardoso entregou empresas públicas ao grande capital e mobilizou as Forças Armadas para derrotar uma greve nacional. Nos estados, os governadores tucanos repetiram o mesmo método contra professores, servidores, estudantes e trabalhadores sem-terra.

Quando vencia eleições, o PSDB aplicava o programa dos grandes capitalistas com o auxílio da repressão. Quando começou a perder, passou a procurar meios para impedir o PT de governar. Depois da quarta derrota presidencial consecutiva, o partido participou diretamente do golpe contra Dilma Rousseff.

FHC mandou o Exército ocupar refinarias

A greve dos petroleiros de maio de 1995 começou poucos meses depois da posse de Fernando Henrique Cardoso. A categoria reivindicava reposição salarial e combatia os planos de privatização. Mais de 90% dos trabalhadores aderiram à paralisação, que durou 32 dias.

No sétimo dia, o Tribunal Superior do Trabalho declarou a greve abusiva e determinou multa diária de R$100 mil para cada um dos 21 sindicatos participantes. Contas foram bloqueadas, bens foram penhorados e o valor acumulado das multas chegou a aproximadamente R$35,7 milhões.

Em 24 de maio, FHC mandou o Exército ocupar a REPAR, no Paraná; a REPLAN, em Paulínia; a RECAP, em Mauá; e a REVAP, em São José dos Campos. Tropas armadas entraram nas refinarias para quebrar a paralisação e garantir o funcionamento das unidades.

Ao fim forçado da greve, 73 trabalhadores tinham sido demitidos, entre eles dirigentes sindicais, e mais de 1.000 receberam punições. O governo ainda reteve por quase três anos a anistia das multas aplicadas aos sindicatos.

O homem apresentado por Haddad como um dos grandes democratas do PSDB estreou na Presidência enviando soldados contra uma das categorias mais importantes da classe operária.

Carajás e a ofensiva contra o MST

Em 17 de abril de 1996, durante o governo de Almir Gabriel, do PSDB do Pará, 155 policiais militares cercaram integrantes do MST que bloqueavam a rodovia PA-150, em Eldorado dos Carajás.

O secretário estadual de Segurança, Paulo Sette Câmara, determinou que a estrada fosse liberada “de qualquer maneira”. A ordem autorizava o uso da “força necessária, inclusive atirar”.

A operação matou 19 trabalhadores no local. Outros dois morreram no hospital e cerca de 69 ficaram feridos. Os laudos registraram tiros pelas costas, crânios esmagados e mortes provocadas por armas brancas. Apenas dois comandantes da operação foram condenados. Almir Gabriel nunca foi denunciado.

O ataque aos sem-terra prosseguiu no plano federal. Em maio de 2000, FHC editou uma medida provisória que proibia, por dois anos, a vistoria e a desapropriação de propriedades ocupadas. Em caso de nova ocupação, o impedimento podia durar quatro anos. Os participantes também ficavam sujeitos à exclusão do programa de reforma agrária.

A norma procurava inutilizar as ocupações, principal instrumento de luta do MST contra os latifundiários. Sua reedição, em 2001, ocorreu depois que o movimento ocupou uma fazenda pertencente a parentes de FHC em Buritis, Minas Gerais.

O medo do PT como propaganda eleitoral

Nas campanhas presidenciais, o PSDB procurou apresentar o PT como uma ameaça à economia, à propriedade e à estabilidade do País.

Em 1994, Fernando Henrique Cardoso usou o Plano Real para associar uma eventual vitória de Lula à volta da inflação e da desordem econômica. A mesma campanha ocultava que o programa tucano preparava privatizações, desemprego e ataques aos direitos dos trabalhadores.

O recurso apareceu novamente em 2002. Na propaganda eleitoral de José Serra, a atriz Regina Duarte declarou diante das câmeras: “eu tenho medo”. A intenção era produzir temor diante da possibilidade de uma vitória petista.

Serra fazia isso depois de oito anos de governo FHC, que tinham deixado o País endividado, submetido ao Fundo Monetário Internacional e atingido por uma onda avassaladora de privatizações. O PSDB procurava atribuir ao candidato do PT os problemas produzidos por sua própria política.

A campanha fracassou. Lula venceu Serra em 2002. Quatro anos depois, derrotou Geraldo Alckmin. Dilma Rousseff venceu Serra em 2010 e Aécio Neves em 2014.

Serra lançou a PM contra professores

Em março de 2010, quando preparava sua candidatura à Presidência, José Serra enfrentou uma greve dos professores da rede estadual paulista.

No dia 26, milhares de trabalhadores se reuniram nas proximidades do Palácio dos Bandeirantes. A Polícia Militar avançou com bombas de efeito moral, gás de pimenta e balas de borracha. Professores ficaram feridos e outros sofreram desmaios.

Carlos Ramiro de Castro, então vice-presidente da CUT de São Paulo, foi atingido na testa enquanto tentava negociar com os policiais. Helicópteros fizeram voos rasantes sobre os manifestantes.

Em outro protesto, três professores foram presos e indiciados. Serra recusou-se a receber os representantes da categoria.

Poucos meses depois, o mesmo governador apareceu na propaganda eleitoral como representante do equilíbrio e da experiência. Para os professores que cobravam salários e direitos, reservou a tropa de choque.

Alckmin transformou Pinheirinho numa praça de guerra

Geraldo Alckmin comandou uma das maiores operações policiais já realizadas contra uma ocupação urbana no Brasil.

Na madrugada de 22 de janeiro de 2012, cerca de 2.000 policiais cercaram o Pinheirinho, em São José dos Campos. A tropa empregou cavalaria, helicópteros, bombas de gás e balas de borracha para retirar 1.659 famílias. Depois da expulsão, tratores começaram a derrubar as casas.

A área pertencia à massa falida do grupo Selecta, do especulador Naji Nahas. O prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury, também pertencia ao PSDB.

No dia anterior, uma decisão da Justiça Federal tinha suspendido a retirada. Mesmo assim, o governo estadual executou a reintegração de posse na manhã de um domingo, sem aviso aos moradores.

A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência registrou numerosas violações. Gilberto Carvalho, então secretário-geral da Presidência, acusou Alckmin de montar uma “praça de guerra”. Posteriormente, o Estado de São Paulo foi condenado pela violência empregada na operação.

Esse é o político escolhido pelo PT para ocupar a Vice-Presidência da República e elogiado por Haddad como um dos grandes quadros da política nacional.

Estudantes tratados como inimigos

Os estudantes paulistas também enfrentaram a polícia dos governos de Alckmin.

Em novembro de 2011, a Polícia Militar entrou na Universidade de São Paulo para retirar estudantes que ocupavam a reitoria. A operação terminou com 72 prisões.

Em 2015, o governo anunciou uma reorganização da rede estadual que previa o fechamento de pelo menos 94 escolas e a transferência compulsória de cerca de 311 mil alunos.

Os secundaristas responderam ocupando as escolas. Entre outubro e dezembro, 213 unidades foram tomadas. A Polícia Militar agrediu adolescentes, usou bombas e tentou impedir manifestações nas ruas da capital.

A repressão não derrotou o movimento. O secretário estadual de Educação, Herman Voorwald, deixou o cargo e Alckmin suspendeu o plano. O recuo foi imposto pela mobilização dos estudantes.

Beto Richa disparou 2.323 vezes contra servidores

Em 29 de abril de 2015, professores e servidores estaduais se reuniram no Centro Cívico de Curitiba para protestar contra uma mudança na ParanáPrevidência promovida pelo governo de Beto Richa.

A Polícia Militar realizou uma operação com bombas, cavalaria, helicópteros e balas de borracha. Em cerca de duas horas, os agentes fizeram 2.323 disparos, uma média próxima de 20 por minuto.

Mais de 200 pessoas ficaram feridas. As entidades sindicais contabilizaram 213 vítimas. O efetivo mobilizado ficou entre 1.682 e 2.516 policiais.

O Ministério Público do Paraná apresentou ação contra Beto Richa, o secretário de Segurança Fernando Francischini e o comando da Polícia Militar. Nenhum agente estatal foi punido criminalmente pelo massacre.

Bolsonaro passou anos atacando professores em discursos. Beto Richa, governador do partido que Haddad deseja ressuscitar, mandou milhares de policiais atirarem contra eles.

Doria levou bombas e demolições à Cracolândia

João Doria, o tucano engomadinho, assumiu a Prefeitura de São Paulo em 2017 apresentando-se como um empresário eficiente e moderno.

Em 21 de maio, comandou uma grande operação na Cracolândia com a Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana. Policiais usaram cães, bombas de efeito moral e balas de borracha contra usuários de drogas e moradores da região.

Um imóvel começou a ser demolido enquanto ainda tinha pessoas dentro. Três ficaram feridas. A prefeitura também tentou conseguir autorização para internações compulsórias, mas a Justiça impediu a medida.

O Ministério Público, a Defensoria Pública e profissionais da saúde condenaram a operação. Duas secretárias municipais ligadas à assistência social deixaram seus cargos. Os usuários foram dispersos e reapareceram em dezenas de outros pontos da cidade.

A ação serviu à propaganda pessoal de Doria, mas não solucionou nenhum dos problemas da região. Para a população pobre, ficaram a perseguição policial e as demolições.

O tucano que inventou o ‘Bolsodoria’

Na eleição de 2018, Doria abandonou até mesmo a aparência de distância em relação à extrema direita.

Embora Geraldo Alckmin fosse o candidato do PSDB à Presidência, Doria associou sua campanha ao nome de Jair Bolsonaro. Surgiu o “Bolsodoria”, acordo eleitoral informal destinado a atrair os votos bolsonaristas para a candidatura tucana ao governo de São Paulo.

Doria explorou a popularidade de Bolsonaro e ajudou a levar a extrema direita ao poder. Depois da eleição, tentou se apresentar como adversário do presidente.

O episódio mostrou que a suposta oposição entre o tucanato civilizado e o bolsonarismo nunca foi de princípios. Quando precisou dos votos da extrema direita, Doria aderiu a ela sem dificuldade.

Eduardo Leite ameaçou professores grevistas

A geração mais nova do PSDB conservou a política dos antigos dirigentes.

Em 2019, Eduardo Leite apresentou no Rio Grande do Sul um pacote que atingia as carreiras dos servidores e aumentava as contribuições previdenciárias. Professores e funcionários públicos iniciaram uma das maiores greves da história recente do estado.

Em 22 de novembro, Leite ameaçou cortar o ponto dos professores grevistas. Em dezembro, a Assembleia Legislativa aprovou a adaptação da previdência estadual à reforma de Bolsonaro, obrigando inclusive aposentados de baixa renda a pagar contribuições mais altas.

Durante anos, Leite foi apresentado como uma alternativa moderada ao bolsonarismo. No governo estadual, aplicou contra os servidores uma política semelhante à da extrema direita e usou a ameaça de desconto salarial para tentar encerrar a paralisação. Por isso passou a ser conhecido como “Bolsoleite”.

Aécio abriu o caminho para o golpe

A derrota de Aécio Neves em 2014 marcou a passagem do PSDB da oposição eleitoral para a ofensiva destinada a retirar Dilma Rousseff da Presidência.

Dilma venceu com cerca de 52% dos votos válidos, uma diferença aproximada de 3,5 milhões de votos. Aécio telefonou à presidenta e reconheceu verbalmente o resultado.

Quatro dias depois, porém, o PSDB pediu ao Tribunal Superior Eleitoral uma auditoria das urnas. O partido também apresentou quatro ações contra a chapa Dilma-Temer, sob a acusação de abuso de poder político e econômico.

As iniciativas alimentaram a campanha para deslegitimar a eleição. Nos meses seguintes, Aécio, Serra, FHC e a direção tucana passaram a atuar abertamente pelo afastamento de Dilma.

O PSDB tinha perdido para o PT em 2002, 2006, 2010 e 2014. Incapaz de retornar ao governo pelo voto, tornou-se uma das principais forças do golpe de 2016.

Anos depois, Aloysio Nunes, candidato a vice-presidente na chapa de Aécio, resumiu o que tinha ocorrido: “a eleição foi limpa, perdemos porque faltou voto”.

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