O sítio Esquerda Online publicou o “Manifesto: O futuro não demora – chegou o revide Revide” nesta quarta-feira (22), que mostra que acentua uma tendência que já se apresentava na esquerda: a de diluir, açúcarar o socialismo. O que, em última análise, é um abandono do socialismo, que passa a ser substituído por “ecossocialismo”, luta contra mudanças climáticas etc.
Um partido socialista, para se dirigir à juventude, não deve recorrer a truques. É preciso dizer claramente do que se trata em vez de enganar as pessoas como se elas fossem participar de uma comunidade hippie.
O texto tem trechos que falam coisas do tipo: “Nós te desejamos / Na mudança das estações. No cair da noite. Nos primeiros raios de sol. No encanto da madrugada. Na força do meio-dia. Entre a Amazônia e o Sertão. Cortando arranha-céus na metrópole paulistana, ou cruzando as curvas das montanhas de Minas Gerais. Pelas areias e periferias cariocas, ou no vento gelado do pampa. Na maior avenida em linha reta do mundo ou na Roma negra que nasceu o Brasil.”
Além da qualidade literária duvidosa, como um grupo político pode pretender se construir com esse tipo de declaração?
A pequena burguesia é muito suscetível à propaganda que a direita faz contra os comunistas, por isso esses grupos fogem do assunto tentando se apresentar como “novidade”.
Em vez de nomear a burguesia como inimiga da classe trabalhadora, o texto utiliza um artifício: “o nós contra eles”, que é o modo como muitos jovens se sentem em relação ao mundo, daí o trecho “E ele está lá, à espreita. Observando e querendo ser notado. Por ora, tímido, com receio. Afinal, seus inimigos estão atentos.”
Em uma espécie de pregação, o parágrafo seguinte diz que “os ‘seus inimigos’ tentam a todo momento sabotar. Transformar a vida num eterno presente, para que amanhã permaneça subordinado às lógicas de acumulação do capital financeiro. Seus inimigos buscam as guerras, a destruição ambiental, a superexploração do trabalho, a destruição dos serviços públicos, tudo isto para otimizar seus lucros. Seus inimigos ameaçam a democracia, recorrem ao colonialismo, ao genocídio, e ao resurgimento do fascismo, como forma de manter seu controle. Seus inimigos, são também os nossos inimigos.”
Em nenhum momento do manifesto aparece a palavra burguesia. Então, como fazer a oposição necessária descrita no Manifesto Comunista entre burgueses e proletários?
Como se vê no parágrafo, o empenho é lutar pelo meio ambiente, pela democracia, sendo que os comunistas devem lutar pelo socialismo e justamente desmascarar a democracia burguesa.
A luta genérica contra o fascismo tem sido utilizada para levar a esquerda a apoiar a democracia liberal contra essa “terrível ameaça”. Mas são os próprios democratas que estão praticando genocídios e colocando o mundo em guerras intermináveis. Neste momento, é “democrática” União Europeia que impede o fim do conflito na Ucrânia. É ela que persegue quem se manifesta nas ruas em favor do povo palestino.
O intuito da classe trabalhadora é o de derrotar a burguesia, expropriá-la, acabar com a divisão social, instaurar uma ditadura do proletariado e caminhar em direção ao socialismo, que seguramente não tem nada em comum com um “temos em Nuestra América as tecnologias ancestrais para a construção de um mundo novo”. O comunismo dependerá do pleno desenvolvimento das forças produtivas.
Esse manifesto não se coloca no campo da classe trabalhadora e tem uma concepção pequeno-burguesa da realidade, como se lê no trecho “Somos, o que somos. Entre cores e valores, somos socialistas. A justiça social, o fim da miséria, a igualdade de direitos, a paz e a soberania das nações, são nossas bandeiras. O ecossocialismo é nossa estratégia. Superar o atual estágio das coisas, onde umas poucas dezenas de bilionários dormem em berços de ouro para que metade da humanidade mergulhe na miséria, é nosso objetivo.”
O que significa ter o “ecossocialismo” como estratégia? Isso não é marxismo, materialismo dialético, não encara a realidade de maneira científica e, como tal, não pode dar uma resposta às lutas da classe trabalhadora, nem intervir de maneira apropriada na política.
“Ecossocialismo” é um desvio que vai levar o movimento ao que se tem visto durante décadas, partidos “verdes” que são facilmente cooptados por ONGs financiadas pelo imperialismo e logo adotam posições das mais reacionárias.
No lugar da luta pelo socialismo, grupos como esses ficam reféns de bandeiras que nascem dentro da própria democracia burguesa: “discussões sobre DataCenters, soberania digital e Inteligência Artificial. O debate sobre as Terras Raras. A luta contra o machismo, a ideologia redpill e o feminicídio. A busca por reparação para o povo negro. A conquista das cotas trans nas universidades. A batalha por mitigação e transição energética.”
Partido Democrata do Brasil
O Esquerda Online, e o PSOL, do qual fazem parte, nada mais são que uma sucursal do Partido Democrata dos Estados Unidos aqui no Brasil. Há tempos que o EO critica a Rússia, a China, Irã, Venezuela e todos que de alguma maneira se opõem ao imperialismo.
É do EO também a proposta de que, em nome da luta contra o fascismo, a esquerda se coloque no campo da esquerda liberal.
A “novidade” que certos grupos apresentam não passa de revisionismo mal disfarçado. E o revisionismo é uma adesão, uma capitulação à burguesia.
Embora o manifesto tente se apresentar como irreverente e se diga revoltado contra o estado atual das coisas, é extremamente bem comportado e está condenado a ser mais um puxadinho do Partido Democrata.




