Brasil

A maior ameaça à segurança pública é a própria polícia

Corporações policiais mataram 6.602 pessoas em 2025, o maior número registrado no País em uma década

As polícias brasileiras mataram 6.602 pessoas em 2025. Foram 18 mortes por dia, o maior número registrado no País durante a última década.

Os dados foram divulgados pelo 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado nessa quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O número representa um crescimento de 5,4% em comparação com 2024 e de 55,7% em dez anos.

Uma em cada seis mortes violentas intencionais ocorridas no Brasil em 2025 foi provocada por policiais civis ou militares. Enquanto o total de assassinatos, latrocínios e outras mortes violentas caiu, a quantidade de pessoas mortas por agentes do Estado aumentou.

O próprio relatório reconhece que o poder público se tornou “parte do problema” da segurança. A formulação é moderada diante dos números. As polícias estão entre as principais responsáveis pela violência armada existente no País.

A tendência não começou em 2025. Os anuários anteriores já registravam mais de seis mil mortes por policiais ao ano. Em 2023, foram aproximadamente 6.400 vítimas. O levantamento daquele período também mostrou que mais de 80% dos mortos eram negros, cerca de sete em cada dez tinham entre 12 e 29 anos e praticamente todos eram homens.

A polícia mata, portanto, um setor definido da população: jovens trabalhadores, pobres e negros. Não se trata de acontecimentos isolados nem de desvios cometidos por alguns agentes. O padrão se repete em estados governados por partidos diferentes – incluindo o PT –, durante governos federais de direita e de esquerda e em corporações submetidas a comandos distintos.

Operações de extermínio

Os números nacionais são acompanhados por chacinas policiais cada vez mais mortíferas. A chamada Operação Contenção, realizada no Rio de Janeiro, tornou-se a ação policial mais letal da história do estado. Em São Paulo, operações da ROTA e de outras unidades da Polícia Militar transformam bairros pobres em áreas de ocupação.

No início de julho, a ROTA matou três homens durante ações iniciadas depois que um tenente da corporação foi baleado em São Caetano do Sul, no ABC paulista. As mortes ocorreram na zona leste da capital e em Peruíbe, no litoral.

A polícia afirmou que procurava os participantes do atentado. Entretanto, não apresentou elementos que justificassem a morte dos três homens. O que deveria ser uma investigação adquiriu as características de uma retaliação armada realizada por uma tropa policial contra a população.

O procedimento é conhecido. Um policial é supostamente ferido ou morto e a corporação responde com invasões de casas, prisões e mortes. Os agentes envolvidos apresentam versões semelhantes, afirmando que as vítimas estavam armadas e resistiram. A própria polícia recolhe as provas, registra a ocorrência e conduz a investigação.

A corporação aparece ao mesmo tempo como autora das mortes, testemunha dos acontecimentos e responsável pela apuração. Pouquíssimos casos chegam a julgamento. Menos ainda resultam na condenação de policiais. Quem mora na favela sabe o tamanho dessa farsa.

Essa impunidade estimula novas mortes. O agente sabe que sua versão será aceita, que seus colegas confirmarão o relato e que o comando da corporação apresentará a operação como um êxito no combate ao crime.

A campanha do medo

A burguesia brasileira realiza uma campanha permanente para apresentar o País como dominado pelo crime. Jornais, redes de televisão, empresários, promotores e dirigentes policiais repetem que as organizações criminosas controlam o território nacional, penetram nas instituições e ameaçam toda a população.

Cada roubo, assassinato ou conflito entre facções serve para exigir mais policiais, armamentos, presídios, câmeras, sistemas de reconhecimento, leis repressivas e poderes para o Estado. A população é levada a acreditar que somente o fortalecimento das corporações policiais pode protegê-la.

Os mesmos jornais que divulgam diariamente essa campanha precisam reconhecer que a polícia matou 6.602 pessoas em um único ano. A força apresentada como solução é responsável por uma parcela crescente das mortes violentas.

A campanha acerca do crime organizado prepara o terreno para um regime cada vez mais autoritário. A burguesia quer centralizar as polícias, criar agências nacionais, ampliar a vigilância financeira, controlar as comunicações e facilitar prisões. Sob o pretexto de atingir facções, forma-se um aparelho que historicamente é empregado contra greves, manifestações, ocupações de terra e organizações operárias.

As medidas nunca se limitam aos criminosos apresentados como justificativa. Toda lei repressiva aprovada para uma situação específica termina utilizada contra setores mais amplos da população.

A Lei Antiterrorismo, por exemplo, abriu a possibilidade de perseguir pessoas por supostos “atos preparatórios”. A classificação de organizações como terroristas permite ampliar a espionagem, as prisões preventivas e a cooperação com órgãos estrangeiros. Instrumentos criados com a desculpa de combater delitos graves podem ser empregados contra movimentos sociais e adversários políticos.

Violência organizada pelo Estado

A polícia não está fora da violência existente no País. Ela participa diretamente dessa violência e protege a ordem social que a produz.

O Estado mobiliza milhares de homens armados para defender bancos, latifúndios, grandes empresas e propriedades dos capitalistas. Quando trabalhadores entram em greve, camponeses ocupam terras improdutivas ou moradores resistem a um despejo, são as polícias que aparecem para garantir os interesses dos proprietários.

A função essencial da polícia não consiste em proteger a vida da população. Ela defende a propriedade privada e a autoridade da burguesia.

Por essa razão, a violência policial não pode ser explicada apenas pela falta de preparo, por erros de comando ou por agentes descontrolados. A repressão é uma função fundamental dessas instituições. A polícia foi formada para vigiar e dominar os pobres, não para protegê-los.

Nas periferias, uma pessoa pode ser abordada, revistada, agredida ou morta porque o policial a considerou suspeita. Nos bairros ricos, a mesma corporação protege residências, estabelecimentos comerciais e patrimônios. A diferença decorre da classe social daqueles que estão diante dos agentes.

Quando um policial mata um jovem pobre, o Estado procura justificar a morte. Quando um trabalhador reage à violência policial, todo o aparelho repressivo é mobilizado contra ele.

A violência dos poderosos

Essa propaganda reacionária também oculta os crimes cometidos pelos grandes capitalistas. Os bancos praticam fraudes bilionárias. Empresários desviam recursos públicos, financiam organizações criminosas e utilizam empresas para movimentar dinheiro ilegal. Proprietários rurais mantêm pistoleiros e promovem ataques contra camponeses e índios.

Fora a atividade cotidiana dos capitalistas, que é a lei do regime burguês: roubar os pobres com impostos, alta taxa de juros e endividamento da nação para repassar a riqueza produzida por mais de 200 milhões de trabalhadores para os sanguessugas internacionais. Isso não é crime, é o funcionamento legal do Estado.

Esses setores raramente enfrentam operações semelhantes às realizadas nas favelas. Seus escritórios não são atacados por tropas de fuzil. Seus familiares não são obrigados a deitar no chão durante a madrugada. Quando são investigados, contam com advogados caros, relações políticas e recursos para prolongar os processos durante anos.

A chamada guerra às drogas também mostra o caráter de classe da repressão. O pequeno vendedor de uma favela é preso ou morto. Os grandes responsáveis pelo transporte internacional, pela lavagem de dinheiro e pela entrada de armas permanecem protegidos.

A proibição das drogas criou um enorme negócio clandestino e forneceu ao Estado uma justificativa permanente para ocupar bairros populares. As corporações podem invadir casas, revistar trabalhadores e matar jovens afirmando que combatem o tráfico.

Décadas dessa política não acabaram com a venda ou o consumo de drogas. Produziram prisões lotadas e milhares de mortos.

Segurança para a burguesia

Marx mostrou que o Estado existente protege o domínio da classe capitalista. A chamada segurança pública é, antes de tudo, a segurança da propriedade, dos negócios e do poder político da burguesia.

O trabalhador não precisa de uma corporação que o vigie, agrida e mate. Precisa de emprego, salário, moradia, saúde, educação e condições para organizar sua própria defesa.

O Partido da Causa Operária defende o fim das corporações policiais, a legalização de todas as drogas e a retirada dos instrumentos usados pelo Estado para perseguir a população pobre. A legalização eliminaria uma das principais desculpas para a ocupação policial das periferias e atingiria a base financeira das facções formadas em torno do comércio clandestino.

O partido também defende o direito da população trabalhadora ao armamento e à organização independente de sua autodefesa. Trabalhadores e camponeses devem poder defender seus bairros, locais de trabalho, terras e organizações sem depender das corporações controladas pela burguesia.

A proteção da população deve ficar nas mãos da própria população organizada. Enquanto a burguesia conservar o monopólio das armas e mantiver corporações separadas do povo, a chamada segurança pública continuará significando repressão contra os trabalhadores.

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