O ex-ministro da Fazenda e atual pré-candidato ao governo de São Paulo pelo PT, Fernando Haddad, concedeu entrevista à Mara Luquet do MyNews nesta terça-feira (21). Durante sua fala, Haddad, que já foi chamado por Lula de o mais tucano dos petistas, lamentou a derrocada do PSDB, além de elogiar os políticos da pior espécie do partido que foi símbolo de apoio ao imperialismo e destruição da economia nacional.
Vale notar que o petista lamenta a crise de um partido que deve apoiar Tarcísio de Freitas para governador, contra o PT.
Abaixo, a transcrição de um trecho da entrevista que para muitos pode parecer surpreendente, mas que corrobora a caracterização que este Diário vinha fazendo do candidato.
Haddad – Às vezes eu vejo me perguntarem assim sobre segundo turno e primeiro turno, eu fico interessado em saber o que tem por trás da pergunta porque ela não faz sentido. Segundo turno só existe com três candidatos
MyNews – Quem são os outros candidatos?
Haddad – Eu não sei, eu acho que não tem nenhum. Porque tinha lá o PSDB, o Aécio andou falando que queria renovar. Eu também queria que o PSDB voltasse a existir porque realmente foi uma pena [sua destruição]. O PSDB tinha grandes quadros. Uma pessoa como Covas, como o Alckmin, como o Serra, como Fernando Henrique Cardoso, são pessoas que pensam diferente da gente do PT, mas são pessoas que têm um solo comum de conceitos, de valores, que não são dispensáveis num país como o Brasil.
É curioso esse trecho. Haddad deveria explicar o que ele quer dizer com Covas, Alckmin, Serra e Fernando Henrique Cardoso serem grandes quadros e o quador comum de conceitos, pois a lista de crimes desses políticos é interminável.
Mário Covas destruiu a educação em São Paulo, entregou o Banespa praticamente de graça para o Santander, que recuperou o dinheiro em apenas dois anos. Um verdadeiro crime contra o estado.
Geraldo Alckmin, que esteve à frente da repressão nas manifestações de 2013, é também o carrasco do Pinheirinho, que jogou na rua 1800 famílias para desocupar um terreno pertencente a Naji Nahas, que acumulava uma dívida de R$ 14,6 milhões em impostos com a Prefeitura de São José dos Campos. Após a expulsão das famílias, Nahas conseguiu, por meio de manobras, reduzir a dívida para R$ 1,6 milhão.
José Serra foi denunciado pelo WeakLeaks, telegramas indicaram que ele teria conversado com uma representante da petroleira Chevron em 2009, sugerindo que os documentos de 2007 mostraram que, na época em que era governador de São Paulo, ele buscou apoio e cooperação técnica de autoridades dos Estados Unidos em temas de segurança pública, que ele próprio confessou posteriormente.
Fernando Henrique Cardoso, o príncipe da privataria, foi o responsável por entregar a telefonia brasileira e a Vale do Rio Doce para o capital estrangeiro. Foi ele também que dizimou a indústria do País, que já foi maior que a China e a Coreia do Sul, juntas.
Durante sua gestão, 300 crianças morriam por dia no País.
Na sequência, Haddad diz:
Ninguém ali discutia soberania nacional, democracia. Ninguém discutia a questão da dignidade da pessoa humana, do combate ao preconceito, seja à mulher, seja ao negro. Enfim, tinham tantos valores comuns que essas coisas não se discutiam. Você discutia se ia privatizar ou não, se ia valorizar o salário mínimo ou não. Era outro departamento.
As últimas coisas com as quais o PSDB se preocupava eram a soberania e a dignidade humana. É mentira que havia um diálogo sobre se iria haver ou não determinada privatização. Aliás, Haddad contraria até o pensamento da base do PT.
Então, eu lamentei muito quando o PSDB não tinha força sequer para lançar um candidato. Porque já na eleição passada, todo mundo sabe que o Rodrigo Garcia não tinha nada de tucano, mas foi o jeito do [João] Doria, que também não tinha nada de tucano, manter a chama do PSDB de alguma forma viva. Mas foi uma debacle. Foi o Doria, o Rodrigo Garcia e acabou. Eu lamentei, como cidadão, mesmo não ter uma força de centro-direita organizada, você só ficar com a truculência, que é hoje o que existe no País: a truculência da extrema direita.
Essa é uma tremenda falsificação da realidade. Havia, sim, muita truculência e a polícia paulista sempre foi famosa por sua letalidade e arrogância.
Toda essa conversa tenta mostrar que os ‘democratas’ do PSDB seriam civilizados, enquanto o bolsonarismo representaria a barbárie.
O próprio Lula, que disse recentemente que nunca foi de esquerda, também deu declarações no sentido de que, antes, os debates com os tucanos eram civilizados, até que chegou o bolsonarismo e deu fim à harmonia social. O que nem de longe pode ser considerado verdade.
Existe uma afinidade natural entre o PSDB e o bolsonarismo. Não foi por menos que João Doria se autobatizou de Bolsodoria no segundo turno das eleições estaduais de São Paulo em 2018. A crise dos tucanos se deve ao fato de perderem seus quadros para o bolsonarismo.
Nem é preciso um teste de DNA para se comprovar que a extrema direita nasceu da intensa campanha de perseguição contra o PT capitaneada pelo PSDB com a conivência e co-participação da grande imprensa.
MyNews – Você coloca na conta do Doria o fim, a decadência, a derrocada do PSDB?
Haddad – Não sei se na conta, mas coincide um pouco com a ascensão dele aqui em São Paulo, e do que aconteceu com Aécio em Minas Gerais, que eram dois estados fortes do tucanato. Mas não só, aconteceu também no Paraná, aconteceu em Goiás, aconteceu em outros estados da Federação. E, na minha opinião, para a democracia brasileira, não ter um partido de centro-direita viável, hoje, na minha opinião, é uma coisa que torna tudo mais complexo.
MyNews – A ida de Ciro Gomes para o PSDB não vai dar uma injeção no partido? Ele, Tasso Jereissat… Tasso Jereissat é um nome importante no partido.
Haddad – Pois é, o Ciro, ele saiu do PSDB no final dos anos 90. Ele não está há 30 anos no PSDB e essa candidatura dele parece que tem muito mais a ver com o desejo de derrotar o PT, inclusive recebendo apoio do bolsonarismo, que propriamente revitalizar o PSDB que realmente não existe mais em termos nacionais.
Até os governadores que foram eleitos pelo PSDB, Raquel Lira e Eduardo Leite, foram dois governadores eleitos pelo PSDB e deixaram o partido. Então, realmente se tornou um partido com muita dificuldade. Uma legenda de muita importância na história do Brasil recente porque sempre disputou – ganhou, perdeu –, mas sempre disputou a presidência e hoje isso não existe.
Ressurreição
Existe algo que se revela aos poucos nessa fala de Fernando Haddad. Tanta lágrima não está sendo derramada sem motivos.
O PT está mudando de base e resgatando do limbo essas figuras do tucanato e caminha para se tornar, de partido de trabalhadores, para uma social-democracia aos moldes da europeia.
O vice de Lula é ninguém menos que Geraldo Alckmin, e o de Haddad é Marcio França, que já foi vice de Alckmin. Além da chapa Marina Silva-Simone Tebet. Uma amostra de que o partido se integra cada vez mais profundamente ao regime, sacrificando até seus interesses eleitorais imediatos. O PT está se posicionando ao lado do PSDB, a terceira via, que é a política do imperialismo contra os trabalhadores no País.



