Existe na maioria da esquerda brasileira um hábito incorrigível, o de subestimar a direita e sua capacidade de interferir no processo eleitoral. Desde a última eleição de Dilma Rousseff, os resultados andam bem apertados: 51,6% contra Aécio Neves; derrota de Fernando Haddad para Bolsonaro com 44,9% dos votos e 50,9% de Lula na última eleição – uma vitória apertadíssima.
O artigo Uma candidatura fracassada, de Jorge Folena, publicado no Brasil247 nesta segunda-feira (20), não leva os dados acima em consideração.
A despeito da crescente polarização da política brasileira, o autor escreve que “depois do fiasco da Carta aos brasileiros, subscrita pelo pai Bolsonaro e lida pelo filho candidato à presidência, lançada para promover a sobrevivência política da família e manter sua influência sobre seus seguidores, é possível afirmar que as coisas vão mal para o fascismo bolsonarista, este segmento político antidemocrático, anti-soberania e anti-nação.”
Em primeiro lugar, é preciso dizer que foi a burguesia, a mesma que preferiu Bolsonaro no lugar de Lula, que desta vez escanteou o bolsonarismo, pelo menos por enquanto, pois ainda não ficou claro que candidato vai ser apoiado. Até o momento, a aposta tem sido para a terceira via, mas esse plano corre contra o relógio.
Em segundo lugar, o bolsonarismo conta com uma base social que praticamente divide o eleitorado com o PT. Lembrando que os “fascistas” foram apoiados por muita gente que se diz democrática.
Para Folena, Flávio Bolsonaro “revela-se, politicamente, o mais fraco de todos para levar adiante o ideal fascista, baseado no lema ‘Deus, pátria e família’, defendido pelos integralistas brasileiros desde a década de trinta do século passado.”
Será que esse lema envelheceu? A sociedade é conservadora de modo geral, e a direita explora o flanco que a esquerda abriu com o identitarismo, como a questão do uso de banheiro feminino por pessoas trans.
A prisão
Outra questão que sempre surge nos debates da maioria da esquerda é a prisão de Jair Bolsonaro, que é visto por seu eleitorado como um perseguido político, o que é verdade. Além disso, seu aprisionamento foi fruto de um processo farsesco ao moldes da Operação Lava Jato, que colocou Lula na cadeia.
Jair Bolsonaro foi preso porque insistia na reeleição e o grande capital não o quer no governo, prefere um candidato mais fácil de controlar.
O texto diz que “podemos considerar que a candidatura de Flávio terminou com a divulgação do áudio (entregue ao The Intercept Brasil sabe-se lá por quem) que tornou pública a conversa dele com Daniel Vorcaro, acusado de fraude bancária e muitos outros delitos. A partir daí, a candidatura lançada em dezembro de 2025, sob as bênçãos do mercado financeiro e a proteção dos meios de comunicação empresarial, entrou num declínio que parece não ter fim.”
Vazamentos não são acasos e obedecem a determinados interesses políticos. No caso do pré-candidato, está claro que é uma ação da própria burguesia. Existem outros elementos que comprovam isso, como a campanha na grande imprensa burguesa contra ele. Para o eleitorado, a suposta fraude bancária ou delitos praticamente não têm importância.
O problema da corrupção, isso sim, pode ter um impacto maior na candidatura de Lula, caso a burguesia queira envolver seu filho na fraude do INSS. E tanto faz se este seja culpado ou não, o que importa é que ganhe as manchetes e desgaste o petista.
Importa pouco a tal da “misoginia” contra Michele Bolsonaro, e as acusações de crescimento patrimonial já existiam contra Jair Bolsonaro antes de se eleger.
Crise
Os fatores de crise na candidatura bolsonarista se manifestam quando a imprensa o ataca, e quando “vários partidos do centrão, que poderiam fazer parte da aliança eleitoral, estão se afastando de Flávio Bolsonaro, como o Republicanos, de Tarcísio e Marcos Pereira, e o Partido Progressista, de Arthur Lira e Ciro Nogueira”
Existe aí uma sinalização clara de que os objetivos do grande capital são outros. Não tem nada a ver com “Flávio tornou-se um candidato politicamente tóxico, com a marca – que já pegou – do Tariflávio, entreguista traidor da pátria.” Isso não faz diferença.
É uma grande ilusão se acreditar que “o momento político é totalmente favorável ao campo democrático para, sob a liderança do presidente Lula (há setenta e sete dias das eleições de 2026), sair em campanha com empolgação, para eleger o máximo de governadores, senadores e deputados, diante de uma perspectiva de ânimo que não se observava desde as eleições de 2010, quando Lula estava no final do seu segundo mandato e com alto índice de aprovação.”
A esquerda anda em um profundo marasmo, não consegue nem fazer um 1º de Maio, tudo o que consegue é apostar no derretimento de seu principal opositor.
As eleições de governadores e senadores não parecem nada favoráveis ao PT, que está apoiando candidatos de outros partidos em estados importantes, como o Rio de Janeiro, por exemplo. As perspectivas apontam para o crescimento da direita e do bolsonarismo, o que pode ser um grande problema, caso Lula se reeleja.
Para Folena, “o importante é que esta onda de otimismo seja efetivamente capturada pelos partidos do campo democrático, popular e progressista, que precisam estabelecer um cordão sanitário na campanha, a fim de impedir que o centrão, sempre oportunista, se beneficie mais uma vez da liderança de Lula para eleger seus representantes.”
Faltou dizer que é o PT quem está procurando o Centrão. Isso é motivado pelo fato de o PT ter abandonado sua base, o que tornou seu governo fraco diante do Congresso, e refém do Supremo Tribunal Federal que, como Flávio Bolsonaro, também tem relação com Daniel Vorcaro.





