Seis países da União Europeia (UE) resistem à aprovação de uma nova rodada de sanções contra a Rússia. Grécia, França, Itália, Alemanha, Áustria e Portugal exigiram exceções ou bloquearam medidas que atingem empresas e setores importantes de suas economias.
Quatro dias de negociações entre representantes dos países europeus terminaram sem acordo. O 21º conjunto de sanções precisa do apoio unânime dos integrantes da UE para entrar em vigor.
As restrições atingem os setores energético, financeiro, comercial e pesqueiro da Rússia, além das transações com criptoativos. Também impedem a entrada na UE de russos que serviram nas Forças Armadas desde fevereiro de 2022.
Cinco diplomatas ouvidos pelo jornal inglês Financial Times afirmaram que os países europeus estão cada vez menos dispostos a arcar com os prejuízos da guerra econômica contra a Rússia.
“O imperativo moral está funcionando cada vez menos”, declarou um deles. “As capitais concordam com a retórica dura e falam em solidariedade, mas depois tudo se desfaz”.
Armadores gregos
A Grécia recusou-se a aprovar as medidas enquanto não receber uma autorização para que suas companhias marítimas continuem transportando gás natural liquefeito (GNL) russo para países de fora da UE.
A restrição atingiria diretamente a Dynagas, empresa do bilionário grego George Prokopiou. Desde 2022, seus navios transportaram mais de 30 milhões de toneladas de gás produzido no projeto russo Yamal GNL. As cargas foram avaliadas em mais de US$24 bilhões pela empresa de análise energética Kpler.
A Dynagas afirmou que pode ser obrigada a vender seus navios especializados em navegar pelo gelo quando entrar em vigor a interdição ao transporte de GNL russo, prevista para janeiro de 2027.
As embarcações foram construídas especificamente para atender ao projeto de Yamal e estão vinculadas a contratos que seguem até 2065. Os acordos foram assinados antes do início da guerra na Ucrânia.
Segundo a companhia, impedir empresas europeias de transportar GNL russo para outros países enfraquecerá o transporte marítimo da própria Europa e transferirá as operações a concorrentes estrangeiros, sem atingir os objetivos anunciados pela Comissão Europeia.
Peixe, vistos e ativos
Alemanha e Portugal exigiram a retirada da restrição às importações de pescado russo. Os dois países procuram proteger suas indústrias de processamento.
França e Itália pediram que fossem reduzidos os impedimentos à concessão de vistos europeus para militares russos.
A Áustria reivindicou a liberação de aproximadamente US$2,3 bilhões em ativos russos congelados. O dinheiro seria entregue ao banco austríaco Raiffeisen como compensação por uma multa aplicada pelas autoridades russas.
“É uma grande crise para toda a política de sanções”, declarou outro diplomata ao Financial Times. “Se todos exigirem exceções e brechas, ao final de cada negociação o pacote de sanções será apenas uma caixa vazia”.
As medidas ainda pretendem manter artificialmente baixo o preço das exportações russas de petróleo, com o objetivo de reduzir as receitas do país.
O fracasso das negociações ocorre enquanto a Ucrânia amplia seus ataques de longo alcance contra a capital russa e refinarias de petróleo. Os países imperialistas esperam que a pressão militar e econômica obrigue a Rússia a encerrar a guerra.
Em junho, os integrantes do G7 anunciaram que empresas norte-americanas e europeias fabricarão mísseis de longo alcance dentro da Ucrânia. A produção será realizada sob licença, diante da redução dos estoques militares dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
A expectativa de que um acordo de paz esteja próximo também reduziu a disposição para aprovar novas restrições. Segundo os diplomatas, vários países não consideram que a Rússia represente uma ameaça militar direta a seus territórios.
Desde 2022, a UE aprovou 20 rodadas de sanções. A oposição às novas medidas, porém, é maior do que em qualquer negociação anterior.
Falta do gás russo
O chanceler alemão, Friedrich Merz, admitiu que a prolongada crise energética da Alemanha foi causada pela interrupção do fornecimento de gás russo.
Em entrevista à emissora ZDF, Merz declarou que seu governo enfrenta uma “crise energética contínua devido à falta do gás russo”. A afirmação foi feita durante uma discussão sobre o descumprimento de promessas eleitorais e a baixa confiança da população no governo.
Antes da ruptura promovida em 2022, a Rússia fornecia 55% do gás natural importado pela Alemanha. O país passou a comprar principalmente da Noruega, responsável por 44% das importações, dos Países Baixos, com 24%, e da Bélgica, com 21%. Grande parte do restante corresponde ao GNL norte-americano.
O governo russo declarou repetidas vezes que está pronto para retomar o fornecimento pela parte ainda disponível do gasoduto Nord Stream. O governo alemão não respondeu à proposta.
A Alemanha abandonou o gás russo barato ao mesmo tempo que encerrou suas usinas nucleares e ampliou o uso de fontes mais caras. Os preços da energia para a indústria alemã são hoje os terceiros mais elevados do mundo, atrás apenas dos cobrados no Reino Unido e no Japão.
A retomada dos bombardeios dos EUA contra o Irã provocou uma nova alta dos combustíveis. O preço do diesel na Alemanha subiu 6,7 centavos de euro em poucas horas no domingo, chegando a 2,30 euros por litro.
O aumento acrescentou 3,35 euros ao custo de abastecer um tanque de 50 litros, segundo o jornal alemão Bild. “Uma ida ao posto de gasolina é novamente um choque”, escreveu a publicação.
Apesar dos prejuízos, a Comissão Europeia mantém a decisão de interromper as importações russas. Em março, sua presidenta, Ursula von der Leyen, afirmou que o plano será mantido mesmo em caso de falta física de gás ou de ameaça de cortes de eletricidade.
Os contratos de longo prazo para GNL russo, responsáveis por aproximadamente 14% das importações europeias, serão proibidos a partir de 1º de janeiro de 2027. As compras realizadas por meio de novos contratos de curto prazo já foram interditadas.
As importações por gasodutos deverão terminar em 30 de setembro de 2027. Os países da UE também serão obrigados a verificar a origem do gás antes de autorizar cada entrega.
Indústria em queda
Merz já havia declarado à revista Der Spiegel que o período de prosperidade alemã terminou. Segundo ele, a manutenção do atual padrão de vida exigirá mudanças dolorosas para a população.
A economia alemã encolheu em 2023 e 2024. Foi a primeira queda em dois anos consecutivos registrada no país em mais de duas décadas. Para este ano, a previsão é de crescimento de apenas 0,5%.
O número de falências empresariais aumentou mais de 22% em cada um desses dois anos. A indústria automobilística e os setores que consomem grandes quantidades de energia foram os mais atingidos.
BASF, Bosch, Volkswagen e mais de uma dezena de grandes fabricantes fecharam unidades desde 2022. Em junho, a Volkswagen anunciou o fechamento de quatro fábricas e a demissão de até 100 mil trabalhadores.




