Na falta de um programa realmente de esquerda e classista, a esquerda pequeno-burguesa, quando não está tratando de inventar um novo crime e punições, se atraca na questão do meio ambiente. Enquanto o imperialismo utiliza o clima para impor sanções ou restrições aos países atrasados, parte da esquerda destes países encontrou aí uma plataforma eleitoral, como se vê no artigo “Mariana Conti e Sâmia Bomfim cobram ação preventiva contra risco de novo El Niño”, publicado no sítio Revista Movimento nesta quinta-feira (16).
O texto diz que “diante das projeções que indicam alta probabilidade de formação do fenômeno El Niño no segundo semestre de 2026, a vereadora de Campinas Mariana Conti (PSOL) e a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) intensificaram a pressão sobre os governos municipal, estadual e federal para que adotem medidas preventivas de enfrentamento à crise climática. As parlamentares encaminharam ofícios às três esferas de governo solicitando a decretação de estado de emergência climática preventivo e a implementação de um plano coordenado para reduzir os impactos de possíveis eventos extremos.”
A ação das parlamentares sobre os governos vai resultar em quê? Em nada. Mesmo que a questão do clima fosse uma reivindicação legítima, teria que ser feita pela base. Mandar um ofício, carimbado, registrado em cartório, para outra burocracia protocolar, é literalmente perda de tempo.
Existe um grande alarde de que é necessário eleger uma bancada de esquerda, mas um cargo, em si, descolado de um trabalho partidário e programático, não faz a classe trabalhadora avançar um único milímetro em sua luta contra a burguesia.
As parlamentares não estão agindo segundo as lutas reais do movimento operário, “o pedido se baseia em projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que apontam elevada probabilidade de desenvolvimento de um El Niño de intensidade moderada ou forte nos próximos meses.”
Quem anda determinando a política da esquerda identitária e “ecossocialista” são agências internacionais e a grande imprensa.
A farsa
Supondo que prefeituras e governos estaduais respondam às reclamações, o que decorre disso? Os estados e municípios estão falidos. Os bancos abocanham mais da metade do orçamento público. Além disso, o golpe de 2016 estabeleceu o teto de gastos, que é uma maneira de forçar o Estado a economizar dinheiro, não investir em serviços públicos e priorizar o pagamento aos parasitas do sistema financeiro.
A esquerda parlamentar, no entanto, não faz absolutamente nada em relação à dívida pública, que deveria ser cancelada e auditada. Também não exige o retorno do Banco Central para as mãos do Estado. O banco está sendo controlado pelos banqueiros, que elevam os juros à vontade e mantêm as contas públicas como uma fonte eterna de riqueza, enquanto o País empobrece e não consegue oferecer o mínimo para a população.
Falar em clima e em prevenção sem combater os bancos não passa de demagogia. E, claro, oportunismo eleitoreiro.
A vereadora do PSOL diz que “a prevenção deve orientar a atuação do poder público diante do agravamento da crise climática.” Sim, e não é por meio de pressão burocrática que se conseguirá algo. Muito menos dizendo que “os governos precisam se antecipar e agir imediatamente diante da possibilidade de fenômenos extremos. A crise climática já é uma realidade. As queimadas, as ondas de calor e as enchentes tendem a se intensificar, e quem mais sofre é a população socialmente vulnerável.”
De olho no voto
Segundo o artigo, “o documento encaminhado aos governos, Mariana e Sâmia alertam que a Região Metropolitana de Campinas apresenta fatores que ampliam sua vulnerabilidade aos eventos climáticos extremos, entre eles a impermeabilização do solo, a ocupação de áreas de risco, o déficit habitacional e as desigualdades na infraestrutura urbana.” Quem pode acreditar que algum governo vai se sensibilizar com a região de uma cidade do interior de São Paulo, por importante que ela seja? É uma reivindicação que tenta apenas convencer o eleitorado de Campinas da “importância” da vereadora do PSOL e que deveriam votar nela.
Sâmia Bomfim diz ainda que “a omissão preventiva não pode ser normalizada. A crise climática afeta toda a sociedade, mas seus impactos recaem de forma mais intensa sobre as populações vulneráveis. É dever do poder público adotar um plano de ação coordenado para proteger vidas.” E o que tem feito o PSOL e a esquerda em geral além de repetir a mesma ladainha do imperialismo e não enfrentar o problema?
A ciência
A única coisa que o artigo faz, além de tentar ganhar votos, é tentar dar um ar científico às suas reclamações. Cita meteorologista, fala das temperaturas, alterações oceânicas, atmosféricas e eventos extremos.
Outro uso muito oportuno dessa abordagem é classificar de “negacionista” quem conteste as previsões alardeadas desde pelo menos 1986 pelo imperialismo, que prometia que os oceanos subiriam de nível e inundariam as cidades costeiras da Terra. Coisa que, é fácil verificar, não aconteceu.
De todos os modos, a esquerda pequeno-burguesa vai continuar insistindo na questão do clima, pois, além de ter de respaldar a propaganda imperialista para o clima, não tem um programa de lutas para a classe trabalhadora.





