Está aumentando na imprensa burguesa a campanha pelo assassinato assistido de pessoas doentes, embora se tente enganar as pessoas com frases do tipo “Mundo avança na garantia à morte digna”, que é o título de editorial da Folha de S. Paulo neste domingo (19).
O texto informa que “na última quarta-feira (15), a Assembleia Nacional da França aprovou um projeto que autoriza tanto o suicídio assistido (o paciente recebe orientações médicas para pôr fim à própria vida) quanto a eutanásia (a morte é conduzida por médico ou outro profissional de saúde) – nesse caso, apenas quando o paciente não tiver capacidade física de realizar o ato.” No mundo real, no entanto, as coisas não são assim.
A própria repetição das palavras “morte digna” vai criando aos poucos nas pessoas a certeza de que é melhor morrer “dignamente” do que ficar preso a uma cama de hospital, etc.
O grande ‘problema’, o que obviamente não é mencionado, é o fato de que as seguradoras/bancos precisam gastar para manter as pessoas vivas nas unidades de terapia intensiva, ou com medicamentos e tratamentos caros. O melhor, para esses vampiros, é que as pessoas morram… com ‘dignidade’.
Quando o paciente está doente, e a doença é grave, começa uma verdadeira campanha de convencimento de que é inútil ficar sofrendo. Os familiares também vão sendo convencidos de que o parente está muito debilitado, que não vai conseguir levar uma vida ‘digna’ e mesmo que saia do hospital não vai durar, etc.
Dessa maneira, com pena do paciente, as famílias em geral acabam aceitando que o melhor será deixar que o levem para a sala de “cuidados paliativos”. Que basicamente consiste em manter o paciente sedado, sedativos são baratos, até morrer ‘naturalmente’. Ou melhor, ‘dignamente’, sem dor.
No livro 1984, George Orwell alertava sobre o uso das palavras, a inversão de sentido para manipular a verdade: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”. O que está acontecendo nos faz lembrar também do romance Admirável Mundo Novo (Brave New World), de Aldous Huxley.
O livro descreve uma ditadura totalitária disfarçada de utopia paradisíaca. Naquela sociedade extremamente utilitarista, os corpos das pessoas falecidas são levados para crematórios especiais onde o fósforo é quimicamente recuperado dos gases da combustão. Esse fósforo é reaproveitado para fertilizar o solo e ajudar na produção de alimentos.
Em um dos trechos mais marcantes do livro, o personagem Henry Foster comenta com orgulho que um cadáver adulto rende cerca de um quilo e meio de fósforo puro, permitindo que o Estado continue produzindo plantas de forma eficiente mesmo após a morte do cidadão. Eles tratam isso como o ápice do dever social: ser útil à comunidade do início ao fim.
Por conta dessa mentalidade de desperdício zero, os cidadãos da “civilização” viam os rituais fúnebres dos “selvagens” — que enterravam seus mortos na reserva — com absoluto horror e desdém, considerando o sepultamento tradicional um desperdício inaceitável de recursos químicos valiosos.
Até onde se sabe, não estão aproveitando o fósforo dos seres humanos, mas estes estão sendo tratados como nada, quando perdem a ‘utilidade’.
Mera formalidade
“O texto”, diz o editorial, “ainda será avaliado pelo Conselho Constitucional, órgão independente análogo ao Supremo Tribunal Federal no Brasil, e, se for considerado que a norma não infringe a Carta do país, seguirá para a sanção do presidente Emmanuel Macron, que apoia o projeto parlamentar.” Não existem órgãos independentes, todos respondem a determinados interesses, e, no caso, os do capital financeiro, e será seguramente aprovado.
“A França está a caminho de se juntar aos 15 países que permitem ao menos uma das modalidades de morte assistida, como Suíça, Espanha, Uruguai e Colômbia — incluindo EUA e Austrália, onde a autorização não é federal.” No Canadá, esse tipo de morte vem crescendo assustadoramente desde sua aprovação, e já corresponde a 5,1% do total de mortes no país. Correspondendo a uma a cada vinte mortes.
A Folha quer as mortes
O jornal burguês, que participou da repressão da assassina ditadura militar brasileira, não está contente com a situação brasileira. Reclama que, “em contraste com o avanço global, o Congresso se recusa a debater o tema. Mas a forte oposição ideológica e religiosa não é justificativa, já que outros países a enfrentaram.”
Mesmo sendo apoiador de ditaduras, o jornal diz que “considerando os princípios das liberdades individuais e da dignidade humana, pacientes que buscam pôr fim a um sofrimento crônico insuportável deveriam ter direito de optar pela morte assistida.”
Essa imprensa, que é podre, sabe que existem pessoas que sofrem, e isso abala a sociedade em geral. Utilizam esses casos para chantagear e esconder a verdadeira motivação: o aumento de lucros.
A Folha é contra a liberdade de expressão, mas vem a público apelar hipocritamente para as liberdades individuais.
É preciso denunciar essas manobras. Ninguém deve acreditar nas ‘boas intenções’ da burguesia, elas simplesmente não existem, são estratagemas, nada além disso. Um jornal que participou da ditadura não respeita a vida, isso tem de ficar muito claro.
Não é o “mundo avança na garantia à morte digna”, mas o capital que avança sobre a vida das pessoas, que configura um enorme retrocesso.





