Henrique Áreas de Araujo

Militante do PCO, é membro do Comitê Central do partido. É coordenador do GARI (Grupo por Uma Arte Revolucionária e Independente) e vocalista da banda Revolução Permanente. Formado em Política pela Unicamp, participou do movimento estudantil. É trabalhador demitido político dos Correios e foi diretor da Fentect (Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios)

Coluna

Por que torcer contra a Argentina? – Parte 2

A resposta deve ser encontrada no próprio futebol; ou melhor, na própria política do futebol

Minha última coluna causou certa confusão. E eu compreendo. Fiz a opção por tentar destacar que o futebol não obedece a coordenadas políticas externas. Fiz essa opção para mostrar aos amantes do futebol, principalmente os da esquerda, que não é necessário encontrar justificativas exteriores para torcer para esse ou aquele time.

Não adianta procurar racionalidade no ato de torcer, em si. Pode haver explicações racionais dos motivos que levaram a torcer para aquele e não para esse time. O meu núcleo familiar materno e paterno sempre torceu para o Comercial Futebol Clube e para o São Paulo Futebol Clube. No interior, principalmente em São Paulo, é comum torcer com igual intensidade para o time da cidade e da capital. Outra pessoa pode ter se apaixonado por um time porque quando era criança viu aquele clube ser campeão. Outros escolhem um time porque é o time de seu bairro ou de sua cidade. Podem ter muitos motivos que levam uma pessoa a se apaixonar por um time.

Uma vez apaixonado, o torcedor é o mais fiel dos amantes. Não se muda de time, leva-o para o túmulo, leva-o para o além-túmulo se tal condição existisse.

Por isso, um brasileiro não torcer para a Seleção é uma coisa anômala e precisaria entender o que leva a esse comportamento, já que o normal é torcer para o time da sua terra, do seu país, da sua família. Torcer contra a Argentina deveria ser natural para um brasileiro, já que, por um motivo ou por outro, os argentinos se colocam como nossos inimigos no futebol.

Quando afirmei que a primeira e principal explicação para o problema deveria estar no próprio futebol, não me referia apenas às paixões, mas à política do próprio futebol que, como tudo, é influenciado pela política geral, mas tem sua própria lógica e suas próprias engrenagens.

Na minha primeira coluna estão lá, rabiscados, ainda que, como disse, não fosse o meu principal objetivo, alguns motivos políticos.

O fio condutor da análise sobre o futebol, tese que é defendida pelo nosso Partido, mas também que foi apontada por vários estudiosos e intelectuais brasileiros, deve levar em conta o seguinte: o futebol tal qual conhecemos hoje é uma criação de um país pobre e oprimido chamado Brasil. Um país pobre, mas que pelo tamanho e riqueza tem muita importância.

Futebol brasileiro é revolucionário

O que conhecemos como futebol brasileiro, que podemos chamar de futebol arte, é o que predomina hoje no esporte. Desde que isso foi criado, os poderosos tentam duas coisas: pará-lo na força ou imitá-lo.

Esse problema não é uma opinião, não é uma questão de gosto. É um produto histórico e um produto da luta de classes. Quando o futebol chegou ao Brasil, ele era praticado pela burguesia e pela classe média alta, um esporte aristocrático, inglês, no sentido literal e metafórico do termo.

O problema é que aos poucos, quase concomitantemente, nas ruas, o negro, o mestiço e o branco pobre começavam a imitar o que viam nos campos. Como uma doença contagiosa, o futebol se alastrou e conquistou o povo.

Os clubes, aristocráticos, resistiam a aceitar que a ralé pudesse se misturar e jogar também. Porém, aos poucos, o negro, o mestiço, o branco pobre foram criando uma forma de jogar que se provava superior. Uma maneira alegre de jogar, com dribles, habilidade e muito mais eficiência para passar dos marcadores violentos, da aristocracia, que tentava a todo o custo provar que ainda era superior.

Mas não teve jeito, superior com a bola nos pés eram os negros, mestiços e brancos pobres. Não consigo aqui narrar todo o processo até chegar nesse ponto, mas Mário Filho resume assim o momento:

“Desaparecera a vantagem de ser de boa família, de ser estudante, de ser branco. O rapaz de boa família, o estudante, o branco, tinha de competir, em igualdade de condições, com o pé-rapado, quase analfabeto, o mulato e o preto, para ver quem jogava melhor.

Era uma verdadeira revolução que se operava no futebol brasileiro.”

Fica claro que o futebol brasileiro, ou o futebol arte, é produto da luta de classes. A sua criação e sua imposição como um novo estilo, um esporte totalmente modificado daquele que havia sido importado, é um produto de uma luta social que se operou. Essa luta deve ser entendida dentro do próprio futebol. O que acontecia na política brasileira quando isso aconteceu? Quais eram as relações sociais quando isso se operou? Certamente há uma influência, mas não explica diretamente o problema.

A resposta deve ser encontrada no próprio futebol. E foi assim que o Brasil desenvolveu um estilo de jogar futebol reconhecidamente superior aos demais. O futebol deixou de ser um mero esporte, ou seja, algo que depende exclusivamente da força física, e passou a ser arte.

Uma vez superada a etapa de se estabelecer nacionalmente, restava ao futebol brasileiro conquistar o mundo. E de fato conquistou. Mas a mesma luta que se operou aqui passou a ocorrer internacionalmente. Era preciso parar o futebol brasileiro. Como aceitar que um país atrasado, mestiço, dominasse o esporte mais popular do mundo?

Vejam bem, a primeira Copa do Mundo foi vencida pelo Brasil “apenas” em 1958. Muito antes disso, porém, o futebol brasileiro já era superior aos demais. Não é a vitória num campeonato que define essa superioridade, que define a importância do futebol para o povo brasileiro. A vitória na Copa é apenas uma confirmação do que já era óbvio.

As cinco copas conquistadas pelo Brasil não provam apenas que o futebol brasileiro é superior, elas mostram que nosso futebol é muito acima dos outros a ponto de ter conseguido superar um boicote sistemático e mesmo assim ter vencido.

Quando o Brasil finalmente consegue ganhar as copas de 58 e 62, o imperialismo decide colocar um freio nisso. Os boicotes contra o futebol brasileiro, que existiam já de antes – basta ler a crônica esportiva antiga – se intensificam. O uso da violência aumenta e o Brasil é eliminado em 1966. O problema é que a superioridade brasileira é tão grande que em 70 novamente o Brasil é campeão.

Como parar o Brasil? Como impedir que o futebol brasileiro tenha uma predominância absoluta no esporte mais popular e mais lucrativo do mundo? Os europeus continuaram a usar da violência e do boicote, mas, a partir dos anos 70, entra um novo elemento nessa história chamado Argentina.

Até então, o rival, se é que podemos chamar assim, do Brasil era o Uruguai, que havia sido bicampeão em 50 em pleno Maracanã. Os argentinos aparecem nessa história toda roubando a Copa de 78. A ditadura argentina, em conluio com a FIFA e muito provavelmente com a própria ditadura militar brasileira, opera um esquema para garantir o campeonato. Não vou descrever o que aconteceu, mas as histórias são bem conhecidas.

Algumas pessoas questionam sobre a rivalidade com os argentinos, se ela existe mesmo. De fato, essa rivalidade é artificial, ela foi plantada para criar um anti-Brasil que fosse convincente, mais do que os europeus que já apareciam como um futebol decadente que não convencia ninguém.

O papel da Argentina, portanto, é o de ser o anti-Brasil, o que significa ser o anti-futebol arte. Em que sentido isso acontece? Acontece exatamente como estamos vendo nessa Copa. Enquanto o futebol brasileiro é apresentado como morto e enterrado, os argentinos são apresentados como gênios. A imprensa “nacional”, que sabemos que age de acordo com as orientações do imperialismo, é a principal via desse ataque ideológico.

Enquanto que as cinco copas vencidas pelo Brasil não valem nada, são “coisas do passado”, as conquistas da Argentina são apresentadas como grandes atos históricos e heróicos. O gol de mão de Maradona na Copa de 86 é apresentado como uma sacada de gênio, a “mão de Deus”, quando no máximo foi uma sacada de vôlei.

Essa Copa e a Copa de 2022 são apresentadas como a maior prova de que os argentinos são melhores do que os brasileiros.

Nenhum desses órgãos de imprensa, no entanto, fala da manipulação atual e do roubo de 78, por exemplo.

E vejam bem, se a Argentina ganha uma final com gol de mão, isso é lindo. Se o Brasil ganha um jogo da fase de grupos porque o juiz errou na hora de marcar um pênalti, nossa Seleção está maculada. É exatamente esse o tratamento que a imprensa “nacional” dá e sempre deu ao nosso futebol.

A Argentina, portanto, foi um dos antídotos encontrados pelo imperialismo para frear o Brasil. Se o Brasil fosse um país imperialista, a superioridade seria indiscutível, mas como somos um país atrasado, dominado pelo imperialismo, temos que enfrentar um boicote de todos os lados. Esse boicote é mais visível no próprio comportamento da imprensa “nacional”, que é uma sucursal da imprensa imperialista. A campanha contra o futebol brasileiro, exatamente como fazem hoje, é um padrão na história do País. O futebol brasileiro já morreu umas cem vezes na história.

A atitude da imprensa “nacional” é muito parecida com a campanha que era feita debochando daqueles que diziam haver petróleo no Brasil. Monteiro Lobato era ridicularizado por defender o petróleo. A imprensa “nacional” desmoraliza o nosso futebol. O mesmo objetivo está em jogo: desmoralizar para controlar. Nos dois casos, para o imperialismo controlar.

Um mercado do futebol num país tão gigantesco como o Brasil precisa ser controlado, não pode ser independente. É preciso convencer o brasileiro de que seu futebol não vale nada.

Há também um componente cultural importante nisso. Desmoralizar o futebol brasileiro é desmoralizar o próprio povo brasileiro, já que o futebol é uma de nossas principais identidades enquanto povo. Um povo desmoralizado é um povo mais fácil de dominar.

Para entender o papel nefasto que cumpre o futebol argentino, aconselho a acompanhar criticamente o que está falando a imprensa nesse momento.

As pessoas podem torcer para quem quiser nesse jogo de hoje. O fato é que o futebol europeu dominou a final e o imperialismo de conjunto conseguiu o que queria com a manipulação.

Torcer para a Argentina, no entanto, não é torcer para um oprimido ou algo do tipo. É torcer para um esquema mafioso, não apenas dessa Copa. É ajudar uma fraude que serve para desmoralizar o nosso futebol, o futebol arte, ou seja, o futebol que deveria encantar e de fato encanta o mundo todo.

Voltando um pouco na história, o que fizeram os europeus para parar o Brasil além de promover a Argentina? A partir dos anos 80, começaram a importar com maior intensidade jogadores, em primeiro lugar do Brasil.

Com isso, os campeonatos europeus passaram a gerar muito dinheiro e a ser comercializados para o mundo todo.

A luta de classes, que aconteceu no Brasil para que o pobre e o negro jogassem nos grandes clubes, operou-se internacionalmente. O futebol arte, criado no Brasil e tendo mostrado sua superioridade, passou a ser também imitado. O boicote continua, mas os europeus notaram que era preciso passar a jogar como um brasileiro para poder ganhar. É o que vemos agora nas próprias seleções europeias, cheias de craques que tentam jogar como brasileiros e não mais como espanhóis ou ingleses.

Esse processo não deixa de ser uma vitória, digamos assim, cultural do Brasil. Hoje, todas as seleções do mundo tentam imitar o futebol brasileiro. O problema é que somos um país pobre e não temos o poder político e econômico para tirar proveito absoluto desse domínio.

Quem é melhor: Maradona, Messi ou Cafu?

A ideia de que Maradona seria melhor que Pelé é resultado desse problema. Uma jogada de marketing do imperialismo italiano, que contratou Maradona para jogar no Napoli. Dizer que o jogador é melhor do que Pelé valoriza esse jogador e valoriza também o futebol onde esse jogador está atuando. Maradona não era sequer melhor que os melhores jogadores brasileiros de sua época, como Zico, por exemplo.

Mas “nossa” imprensa, dedicada a atacar o futebol brasileiro, sustentou essa jogada de marketing por muitos anos que, de quebra, também tinha como objetivo atacar o futebol brasileiro apresentando um anti-Pelé.

O caso de Messi é uma farsa ainda maior. O poder da propaganda hoje é muito maior do que antes. Messi é um jogador de uma época muito decadente. É um jogador que foi programado para ter eficiência, o que não deixa de ser uma virtude. Mas pensar em colocá-lo no mesmo patamar do que o próprio Maradona é absurdo. E se Maradona não está na mesma prateleira de muitos craques brasileiros, Messi menos ainda.

Mas a propaganda é a alma do negócio e o futebol é um grande negócio bilionário. E nossa imprensa “nacional” é parte contratada desse negócio, por isso repercute toda a campanha.

Retomando lá no início do nosso debate: por que, no caso dos times, não precisamos de justificativas para torcer a favor ou secar o rival e, no caso da Seleção Brasileira, alguns levantam todo o tipo de senões? A resposta é simples: porque há uma campanha gigantesca contra o futebol brasileiro que se materializa na Seleção e há uma campanha gigantesca a favor da Argentina. Isso quando nitidamente os argentinos estão roubando a Copa, o que torna tudo muito mais estranho. Estão passando a mão na bunda dos brasileiros e alguns estão achando normal.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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