Projeções e fechamentos para o ciclo fiscal entre 2025 e 2026, que se encerra no final deste mês, situam a conta anual do serviço da dívida norte-americana entre US$ 1,1 trilhão e US$ 1,25 trilhão. Em 2020, o volume destinado ao pagamento desses juros líquidos situava-se em aproximadamente US$ 350 bilhões anuais, o que evidencia uma expansão de cerca de 214% em apenas seis anos. Atualmente, os juros absorvem quase 14% de todo o gasto federal e comprometem cerca de 18,5% da receita tributária federal, configurando o maior comprometimento da arrecadação pública norte-americana desde 1991. Como no Brasil, o pagamento de juros da dívida pública nos EUA não tem contrapartida na construção de infraestrutura ou na melhoria das políticas públicas. A dívida pública no país funciona como um sistema de drenagem de recursos públicos. Esse sistema não é tão grave quanto o existente no Brasil — que não tem paralelo no mundo —, mas também compromete gastos sociais e investimentos.
A tradicional repartição das contas públicas norte-americanas sofreu uma mudança estrutural nos últimos anos. A Previdência Social (Social Security) permanece na liderança dos desembolsos, com aproximadamente US$ 1,7 trilhão, mas a segunda e a terceira posições passaram a ser intensamente disputadas entre os juros da dívida (de US$ 1,1 trilhão a US$ 1,25 trilhão) e o programa Medicare (cerca de US$ 1 trilhão), seguidos pelo orçamento militar do Departamento de Defesa (US$ 0,9 trilhão) e pelo Medicaid (US$ 0,7 trilhão).
A origem do superendividamento norte-americano remonta à relação umbilical entre expansão beligerante e engenharia de crédito soberano. Os EUA promovem guerras o tempo todo, invariavelmente financiadas por meio da emissão desregulada de dívida pública. Ao término de cada confronto armado, a massa de títulos emitidos cristaliza-se em encargos permanentes de juros, reduzindo o espaço fiscal para investimentos produtivos civis e gerando a necessidade de novos déficits operacionais. É uma política que não pode dar certo: o país gasta trilhões para financiar guerras — em detrimento dos investimentos internos — nas quais acaba derrotado, como tem acontecido em todas as frentes.
Historicamente, o pico da relação dívida/PIB dos Estados Unidos havia sido estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, quando atingiu 106% do PIB, em 1946. Atualmente, a dívida corresponde a 122% do PIB, com um montante total de US$ 40,1 trilhões. A perpetuação do discurso de segurança nacional opera como pretexto para alimentar novos tetos de gastos, transformando o aparato militar-financeiro em uma máquina de conversão da dívida passada em renda passiva perpétua. Obviamente, esse ciclo de gastos de guerra — emissão de títulos públicos — juros infinitos interessa diretamente aos credores da dívida, que ganham bilhões de dólares no processo.
Esse trilhão de dólares gasto com juros não beneficia em nada a população dos EUA. O segundo maior gasto do Tesouro norte-americano não se traduz na compra de bens, não financia melhorias na infraestrutura, não expande a rede de creches nem recompõe o sistema de transporte coletivo. Trata-se de uma transferência patrimonial líquida direcionada exclusivamente aos detentores de títulos públicos, os chamados Treasury bonds. A estrutura de titularidade da dívida norte-americana distribui-se em duas esferas principais:
1. Credores domésticos (cerca de 76%): concentrados no Federal Reserve, em bancos comerciais, fundos de investimento, companhias seguradoras, fundos de pensão corporativos e carteiras privadas de famílias de altíssima renda.
2. Credores externos (cerca de 24%): volume correspondente a aproximadamente US$ 9,2 trilhões a US$ 9,35 trilhões, custodiado primordialmente por governos centrais, bancos soberanos e investidores institucionais de nações como Japão, China e Reino Unido.
Outra semelhança com o Brasil é que, embora o cidadão de classe média participe marginalmente dessa remuneração por meio de contas de aposentadoria e fundos mútuos, a distribuição desse fluxo financeiro é profundamente assimétrica. O 1% mais rico da pirâmide patrimonial concentra o grosso das carteiras privadas e dos títulos negociados no mercado aberto, capturando a esmagadora maioria dos rendimentos dos títulos do Tesouro. O tributo arrecadado de forma generalizada sobre a produção e o consumo da classe trabalhadora é drenado pelo Estado para remunerar frações detentoras de elevado patrimônio líquido, consolidando uma transferência regressiva e institucionalizada de renda.
A mecânica que assombra Washington guarda identidade conceitual direta com o modelo de gestão da dívida pública brasileira. Em ambos os contextos nacionais, a dinâmica “déficit nominal gerado por juros — rolagem com novas emissões — expansão do estoque — corte de investimentos sociais” opera como eixo central da política fiscal. As proporções dos orçamentos executados revelam, todavia, que a realidade brasileira apresenta um nível de asfixia proporcionalmente muito mais agressivo. No Brasil, os encargos com juros e amortizações da dívida pública federal alcançam cerca de R$ 2 trilhões ao ano, o que representa entre 42% e 46% do Orçamento Geral da União executado. O serviço financeiro é, indiscutivelmente, o principal item orçamentário, superando com folga os orçamentos somados da Previdência, da Saúde e da Educação. O quadro abaixo, que apresenta os valores anuais dos juros e das amortizações da dívida pública e sua participação no orçamento federal executado, conforme a metodologia da Auditoria Cidadã da Dívida, revela que o problema é estrutural:
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Fonte: Painel do Orçamento Federal.
Elaboração: Auditoria Cidadã da Dívida.
O caso norte-americano projeta sobre a maior economia do mundo, em termos nominais, a mesma servidão orçamentária que economias emergentes como o Brasil experimentam, de forma agravada, há décadas: a captura do orçamento soberano pela remuneração passiva de haveres financeiros. A consolidação dos juros da dívida pública acima de US$ 1 trilhão por ano nos Estados Unidos não decorre de forças naturais incontroláveis, mas de escolhas deliberadas de política econômica: desonerações fiscais regressivas, guerras financiadas a crédito e acomodação institucional diante da pressão dos agentes do mercado de capitais. Ao relegar áreas cruciais, como saúde preventiva, infraestrutura e modernização educacional, à disputa por migalhas fiscais, a maior economia do globo reproduz a armadilha rentista tradicionalmente imposta à periferia do capitalismo.
Enquanto a narrativa hegemônica exigir cortes nos pisos de amparo social sob o pretexto da responsabilidade com as contas públicas, o moinho da dívida continuará a transformar esforço produtivo e arrecadação coletiva em dividendos garantidos para a elite proprietária de títulos. Desarmar a engrenagem dos juros perpétuos — seja nos gabinetes de Washington, seja em Brasília — não é apenas uma exigência de sustentabilidade contábil, mas o pressuposto elementar para a soberania democrática sobre os destinos da riqueza gerada pelo trabalho social.





