Victor Assis da Silva

Colunista do Diário Causa Operária. Membro da Direção Nacional do PCO.

Coluna

Produção e concentração da riqueza, e a crise do império

A produção mundial fornece mais de 2.700 quilocalorias por pessoa por dia — acima da necessidade média de 2.330 quilocalorias usada como referência pela FAO

O PIB global hoje está na casa dos US$ 219,2 trilhões (em Paridade de Poder de Compra – PPP), cuja magnitude a mente humana não consegue avaliar. Dividido o PIB mundial PPP — US$ 219,2 trilhões na projeção do FMI para 2026 — pelos 8,3 bilhões de habitantes do planeta, cada família de quatro pessoas teria, em tese, cerca de R$ 45,9 mil por mês (câmbio de R$ 5,22, em 29/09/2026). O número é uma aproximação ilustrativa: o dólar PPP já ajusta preços locais, e a conversão em reais não é estatisticamente rigorosa.

Detalhe importante: os US$ 219,2 trilhões, como registrado, correspondem ao PIB mundial por paridade de poder de compra (PPP). O cálculo do PIB nominal, que é outra medida, converte a produção de cada país em dólares pelo câmbio; o PPP ajusta pelos preços locais: um corte de cabelo em Mumbai custa muito menos que em Nova York, então a mesma produção real “vale” mais em dólares internacionais. Por isso a China aparece com US$ 44,3 tri em PPP contra US$ 20,9 tri nominal. Aliás, em PPP, a China já superou os EUA em 2014: segundo os dados do FMI, ao fim daquele ano a China atingiu US$ 17,6 trilhões (16,48% do PIB mundial em PPP) contra US$ 17,4 trilhões dos EUA (16,28%).

Vale mencionar que para medir o bem-estar e poder aquisitivo da população, o critério adequado é o PPP. O PIB nominal converte tudo pelo câmbio — que reflete preços de bens negociados internacionalmente (commodities, dólares, fluxos de capital) — e ignora completamente os preços locais. O resultado é que o câmbio subestima sistematicamente o poder de compra real das populações de países mais pobres, onde os serviços são baratos. Por isso, quando o assunto é desenvolvimento, bem-estar, pobreza, renda média da população, os indicadores usados por Banco Mundial, PNUD (Índice de Desenvolvimento Humano) e acadêmicos são sempre em PPP. O PIB per capita nominal é um mau indicador do padrão de vida das populações.

O PIB nominal do Brasil está em R$ 12,7 trilhões (valores de 2025). Se dividirmos esse número pela população (213,4 milhões de habitantes), para uma família de 4 pessoas, chega a cerca de R$ 238 mil por ano, ou R$ 19,8 mil por mês. Convenhamos que uma renda familiar mensal (quatro pessoas), de quase R$ 20 mil por mês, seria espetacular. Não seria preciso dizer que a renda das famílias brasileiras fica muito abaixo dessa média teórica: segundo a PNAD, no seu dado mais recente, a renda domiciliar per capita média real é de R$ 2.264. Ou seja, a renda média para uma família de quatro pessoas está em pouco mais de R$ 9.000,00 no Brasil atualmente. Como referência, o salário mínimo necessário calculado pelo DIEESE, para agosto de 2026 (o último divulgado) estava em R$ 7.565,86. Esse é o valor estimado para sustentar uma família de quatro pessoas, cobrindo as despesas previstas na Constituição (alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência).

Como costuma lembrar o economista Ladislau Dowbor, em função dos muitos avanços científicos e tecnológicos, pela primeira vez na história, há recursos suficientes para assegurar a toda a população mundial uma vida digna e confortável. Não é que falte recursos, o problema não é econômico, e sim de distribuição da riqueza produzida. A humanidade nunca foi tão rica, mas ao mesmo tempo nunca foi tão desigual. Segundo a estimativa da UNICEF/OMS morrem a cada ano cerca de 5 milhões de menores de 5 anos. Em torno de 45% dessas mortes estão ligadas à desnutrição, isto é, diretamente pela fome, ou por doenças agravadas pela fome, como diarreia, sarampo ou pneumonia.

Ao mesmo tempo, a produção atual de alimentos é suficiente para alimentar cerca de 10 bilhões de pessoas — mais do que os 8,3 bilhões de habitantes da Terra, hoje. E isso é consenso entre FAO, ONU e estudos acadêmicos há mais de uma década. Há vários números que sustentam essa afirmação. Por exemplo, a produção mundial fornece mais de 2.700 quilocalorias por pessoa por dia — acima da necessidade média de 2.330 quilocalorias usada como referência pela FAO. A oferta calórica atual, dividida igualmente, já cobriria a população projetada para 2050.

O problema não é oferta, é acesso: hoje, 645 milhões de pessoas (7,8% da população mundial) passam fome, e 2,6 bilhões não têm renda para uma dieta saudável — enquanto a produção é mais que suficiente. Mais: entre um quarto e um terço de todos os alimentos produzidos se perde ou é desperdiçado (14% perdidos entre colheita e varejo + 17% desperdiçados no varejo e nas casas, segundo a FAO). Só o que vai para o lixo alimentaria cerca de 2 bilhões de pessoas — mais do que a diferença entre a produção atual e a população de 2050. Ao mesmo tempo, no outro lado, o 1% mais rico no mundo tem patrimônio da ordem de 230 trilhões de dólares. A metade mais pobre da população, os 50% mais pobres, 4,2 bilhões de pessoas, têm patrimônio de 5 trilhões.

Essa concentração absurda da riqueza mundial, que necessita de muita dissimulação para se manter, fornece um poder econômico aos grandes grupos, inusitado na história. Por exemplo, no caso brasileiro, praticamente só se fala no caso do Banco Master que, na versão mais onerosa, significou um prejuízo de R$ 57 bilhões para a sociedade. Este valor, que é uma cifra impensável para um trabalhador comum sequer imaginar, equivale a cerca de meros 2,67% dos gastos com os serviços da dívida pública do Brasil em 2025. No ano passado o Brasil despendeu R$ 2,135 trilhões com os serviços da dívida pública, comprometendo 42,24% do Orçamento Federal Executado. Esse não foi um ponto fora da curva. A primazia dos gastos com a dívida, em detrimento de todos os gastos primários fundamentais para o país, vem de décadas. Mas ninguém discute isso, porque o debate que importa está encoberto por uma grande cortina de fumaça.

Um exemplo ainda mais impressionante de concentração de poder econômico é o dos gestores de ativos, empresas que investem dinheiro em nome de clientes. Estes são fundos de pensão e aposentadorias (a poupança previdenciária de centenas de milhões de pessoas), seguradoras, fundos soberanos, bancos centrais, tesourarias de empresas — e milhões de pessoas comuns, via fundos de investimento e ouros. O modelo de negócio desses gestores é cobrar taxa de administração sobre esse patrimônio — tipicamente de 0,03% a 0,5% ao ano em fundos de índice.

Os 10 maiores gestores do mundo somam cerca de US$ 62 trilhões em ativos sob gestão, enquanto o PIB nominal mundial projetado para 2026 pelo FMI é de aproximadamente US$ 123,6 trilhões. A divisão por grupo e ativos administrados é a seguinte:

  • BlackRock: US$ 15,3 tri

  • Vanguard: ~US$ 12,0 tri

  • Fidelity: US$ 7,8 tri

  • State Street Global Advisors: US$ 6,28 tri

  • J. P. Morgan Asset & Wealth Management: US$ 5,1 tri

  • Goldman Sachs AM: US$ 4,04 tri

  • Capital Group: US$ 3,6 tri

  • Amundi: ~US$ 3,0 tri

  • PIMCO (Allianz): ~US$ 2,5 tri

  • Invesco: US$ 2,45 tri

O total acima chega a US$ 62,1 trilhões, equivalente a praticamente 50% do PIB mundial de 2026. Lembrando, claro, que o PIB é fluxo, ou seja, tudo que o mundo produz em um ano. Esses ativos, por sua vez, são estoque, ou seja, riqueza acumulada ao longo de décadas. A administração de ativos dessa magnitude não significa que essas empresas “produzem” metade da economia mundial, elas apenas administram patrimônio equivalente.

Esses ativos que estão sob gestão dessas companhias são administrados em nome dos seus clientes. Não é dinheiro da gestora — é o patrimônio dos clientes, aplicado em vários tipos de investimento: ações, títulos de renda fixa, fundos de investimentos, imóveis e infraestrutura etc. Como administram muito dinheiro de terceiros, esses grupos tornaram-se os maiores acionistas de empresas como Apple, Microsoft e Petrobras, e votam nas assembleias dessas companhias. A BlackRock, que está no topo do ranking acima, administra US$ 15,3 trilhões, mais que o dobro do orçamento federal dos EUA, de US$ 7 trilhões.

O ranking acima, ao mesmo tempo em que dá uma noção do poderio financeiro dos EUA – 90% das gestoras de patrimônio têm sede nos EUA, com exceção apenas da Amundi – indica também algumas das razões da decadência do império. Mesmo sediando a esmagadora maioria das empresas que gerem o equivalente a metade do PIB nominal mundial, os EUA estão perdendo a guerra para o Irã, dentre outras razões, por incapacidade industrial de reposição de armas e munições. Isso com orçamento de defesa para 2026 de US$ 1,05 trilhão, montante sem precedentes e equivalente a 36,37% do total de gastos militares globais. É um orçamento surreal, considerando que os EUA estão perdendo em todas as frentes de guerra em que estão metidos, direta ou indiretamente.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a deste Diário

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