A Copa do Mundo de 1934 foi uma das roubalheiras mais escandalosas da história do futebol. Além de sediar o torneio, a Itália fascista controlou sua organização, recrutou jogadores estrangeiros à margem das regras, submeteu os adversários à violência e contou com arbitragens decisivas para abrir o caminho até o título. Benito Mussolini, apoiado pelos principais países imperialistas, transformou a competição em uma operação do Estado e fez da vitória italiana uma peça de propaganda do fascismo.
A prova da roubalheira está nos fatos. Giovanni Mauro, aliado de Mussolini, comandava a Federação Italiana de Futebol. Giorgio Vaccaro, general da milícia fascista, fazia a ligação entre a federação, a FIFA e o partido. Nos três jogos decisivos, contra Espanha, Áustria e Tchecoslováquia, os árbitros tomaram decisões fundamentais em favor dos italianos. Um deles jantou com Mussolini antes da semifinal e foi mantido na final. Demonstração de que se tratou de um campeonato montado para que a seleção do regime conquistasse a taça.
Uma Copa organizada pelo fascismo
Mussolini pretendia apresentar a Itália fascista como uma potência diante do restante do mundo. O governo financiou reformas de estádios em oito cidades e produziu mais de 300 mil cartazes para divulgar a competição.
O torneio também apareceu em selos, cerimônias oficiais e até em uma marca de cigarros chamada Campionato del Mondo. Antes dos jogos, os jogadores italianos faziam a saudação fascista com o braço estendido.
O fascismo também dominava a direção do futebol italiano. Giovanni Mauro, partidário de Mussolini, ocupava uma posição de comando na Federação Italiana de Futebol. O general da milícia fascista Giorgio Vaccaro fazia a ligação entre a federação, o partido e a FIFA.
Vaccaro presidia ainda o Comitê Olímpico Italiano. Os principais organismos esportivos do país estavam nas mãos de homens ligados diretamente ao governo.
A vitória da seleção serviria para exaltar Mussolini e o fascismo. Uma derrota dentro do país arruinaria o espetáculo preparado pelo governo. O Estado financiou, organizou e dirigiu a competição para garantir o resultado pretendido.
Argentinos com a camisa italiana
A seleção de Mussolini recebeu o reforço de jogadores nascidos na Argentina, conhecidos como oriundi. Luis Monti, Enrique Guaita e Attilio Demaria estavam entre os atletas levados para a equipe italiana.
Monti havia disputado a final da Copa de 1930 pela Argentina. Quatro anos depois, entrou em campo pela Itália. A naturalização passou por cima das regras da FIFA relativas ao tempo de residência e à participação anterior por outra seleção.
O governo justificava a manobra afirmando que os descendentes de italianos nascidos no exterior continuavam pertencendo à Itália. O argumento permitiu ao fascismo buscar alguns dos melhores jogadores do futebol argentino.
A FIFA aceitou a escalação. A seleção italiana recebeu atletas que já haviam representado outro país e entrou fortalecida em um torneio disputado desde a primeira rodada pelo sistema eliminatório.
Dois jogos para destruir a Espanha
O roubo apareceu de maneira aberta pela primeira vez nas quartas de final contra a Espanha. O primeiro jogo, disputado em Florença, terminou empatado em 1 a 1 e foi marcado pela violência dos italianos.
O goleiro espanhol Ricardo Zamora sofreu seguidas agressões e saiu machucado. Outros jogadores da Espanha também terminaram a partida sem condições de disputar o desempate, realizado no dia seguinte.
Sem Zamora, os espanhóis voltaram a campo contra uma equipe que continuou batendo com a proteção do árbitro suíço René Mercet. O gol da Itália foi validado mesmo depois de o goleiro reserva espanhol ter sido empurrado no lance.
Mercet também anulou dois gols legítimos da Espanha. A Itália venceu por 1 a 0 e avançou à semifinal.
A atuação foi tão escandalosa que a Federação Suíça suspendeu Mercet depois da Copa. A punição confirmou o que havia ocorrido em campo: o árbitro decidiu a classificação italiana.
No primeiro jogo, a violência tirou de campo Zamora e outros espanhóis. No segundo, Mercet anulou os gols da Espanha e confirmou o gol italiano.
O árbitro janta com Mussolini
Na semifinal, a Itália enfrentou a Áustria, uma das equipes mais fortes daquele período. O chamado Wunderteam austríaco se destacava pelo futebol técnico e pela circulação rápida da bola.
A arbitragem ficou a cargo do sueco Ivan Eklind. Na noite anterior ao jogo, Eklind jantou com Mussolini.
O chefe do governo fascista recebeu pessoalmente o homem que apitaria a semifinal da seleção italiana. No dia seguinte, Eklind ignorou faltas dos jogadores da casa e tomou decisões que prejudicaram os austríacos.
A Itália venceu por 1 a 0 e eliminou a Áustria. A seleção fascista estava na final, e o árbitro que havia jantado com Mussolini continuou no torneio.
Há relatos de que Eklind chegou a tocar na bola para interromper um ataque austríaco. Esse episódio ganhou versões diferentes ao longo dos anos. O jantar com Mussolini, a atuação favorável aos italianos e sua escolha para a final estão registrados.
O mesmo juiz decide a final
Um árbitro belga havia sido designado para a final entre Itália e Tchecoslováquia. Ivan Eklind, porém, recebeu a partida.
Os tchecoslovacos reclamaram de faltas violentas ignoradas e de dois pênaltis não marcados. Os italianos puderam parar as jogadas adversárias com a mesma violência empregada contra a Espanha.
Apesar da arbitragem, a Tchecoslováquia abriu o placar no segundo tempo. A Itália empatou e levou o jogo para a prorrogação.
Angelo Schiavio marcou o segundo gol italiano. A equipe de Mussolini venceu por 2 a 1 e recebeu a taça.
O tabuleiro de Mussolini
O historiador italiano Marco Impiglia investigou o torneio e identificou uma aliança entre dirigentes esportivos italianos e suecos. Em 2014, concluiu que as provas apontavam para uma Copa distorcida em favor da Itália.
A ligação ajuda a explicar a presença de Eklind nos dois últimos jogos da seleção italiana. O sueco continuou no torneio mesmo depois das denúncias da Áustria e recebeu a final no lugar do árbitro belga anteriormente indicado.
O roubo não dependia de um telegrama de Mussolini ordenando aos jogadores “vencer ou morrer”. A história dessa mensagem nunca foi comprovada e é dispensável para entender o que aconteceu.
Os fatos bastam. O fascismo controlava a federação, ocupava os organismos esportivos, recrutou argentinos contra as regras, recebeu árbitros antes dos jogos e foi beneficiado nas três partidas decisivas.
A FIFA manteve o resultado e nunca puniu a Itália. Mercet, responsável pelo escândalo contra a Espanha, foi suspenso apenas por sua federação nacional.
Depois da final, os jogadores italianos receberam a taça oficial da Copa. Mussolini mandou entregar também a Coppa del Duce, muito maior que o troféu da FIFA. O ditador queria deixar claro a quem pertencia aquela vitória.





