A classificação da Noruega para a Copa do Mundo acabou mexendo com a imaginação de setores da esquerda que acabam enxergando no país um modelo; como se constata no artigo O que a ‘remada viking’ da Noruega revela sobre a cultura sindical do país, publicado no sítio Jacobin em 7 de julho.
O texto inicia dizendo que “o destaque da seleção da Noruega na Copa do Mundo 2026, que chamou a atenção do mundo com uma performance de ‘remada viking’ realizada pelo time em campo em sincronia com os torcedores do país no estádio, oferece uma oportunidade para observar o país dentro e fora do campo. Uma equipe de futebol depende de coordenação, divisão de responsabilidades, preparação e confiança entre seus integrantes, valores também presentes nas entidades sindicais norueguesas.”
Na verdade, querer estabelecer como é um país a partir de um time de futebol é, além de simplificação, um erro grosseiro.
Para se classificar para a Copa do Mundo de 2026, a seleção da Noruega enfrentou as seleções da Itália, Israel, Estônia e Moldávia no Grupo I das Eliminatórias Europeias. Ou seja, o mais difícil era não se classificar. A Itália, por exemplo, não se classificou para a terceira Copa consecutiva. Os noruegueses, por sua vez, estavam há 28 anos sem jogar a competição. “Israel”, nem dá para dizer que tem um time de futebol, muito menos a Moldávia.
Chama a atenção que o artigo seja quase uma peça de propaganda e que busque utilizar uma metáfora esportiva (e logo com o futebol norueguês, historicamente modesto) para justificar a suposta perfeição de um modelo socioeconômico.
Vale lembrar que, mesmo na Europa, o futebol norueguês de clubes é periférico e deve sua classificação e desempenho a dois ou três talentos individuais: Martin Ødegaard e Erling Haaland, que necessita que uma bola chegue limpa para ele poder marcar.
No mundo cor-de-rosa do artigo, “a força de um time depende da capacidade de transformar diferentes funções em um projeto comum. Da mesma forma, uma sociedade consegue enfrentar desigualdades quando trabalhadores, empresas e poder público possuem canais para negociar responsabilidades e objetivos”.
Qualquer pessoa de esquerda sabe que os interesses entre trabalhadores e burguesia são irreconciliáveis. Logo, nesse trinômio trabalho, capital e Estado, o trabalhador já sai perdendo, pois a máquina estatal serve para garantir os interesses burgueses.
Mais adiante, o texto afirma que “o Trabalhismo norueguês teve papel central na formação de uma identidade nacional baseada na cooperação, na igualdade e na participação coletiva. Ao longo do século XX, partidos trabalhistas e movimentos sindicais contribuíram para consolidar a ideia de que o desenvolvimento do país deveria ser construído de forma compartilhada, com forte presença do Estado e diálogo constante entre trabalhadores e empregadores”.
A estrutura sindical norueguesa é altamente integrada ao Estado, operando dentro de um sistema conhecido como corporativismo societal. Isso significa que, em vez de serem grupos de pressão externos agindo em função dos interesses da classe trabalhadora, os sindicatos (e as associações patronais) são parceiros institucionais do governo na gestão da economia.
O governo favorece a maior e mais antiga confederação, a LO (Landsorganisasjonen i Norge), em detrimento das demais, o que só pode redundar em um clientelismo da pior espécie.
A central YS (Yrkesorganisasjonenes Sentralforbund) já denunciou que o governo frequentemente nomeia apenas representantes da LO para comitês e conselhos públicos importantes, como a Comissão Tributária, enquanto outras confederações que representam trabalhadores com ensino superior (como Unio e Akademikerne) são excluídas.
Essa proximidade sindical com o Estado fez com que fosse criada uma estrutura burocrática que visa manter esse arranjo entre o governo e LO, dificultando o funcionamento de sindicatos e centrais menores.
A legislação norueguesa confere direitos e prerrogativas exclusivas a sindicatos com mais de 10.000 membros. Isso coloca sindicatos menores em desvantagem e restringe a liberdade dos trabalhadores de escolherem a organização que melhor os representa.
O sindicato YS critica a burocracia da agência NAV, que gerencia a seguridade social, afirmando que o sistema se tornou muito complicado e que seus funcionários não têm tempo para oferecer o atendimento adequado aos usuários.
Embora a matéria exalte os 50-58% de sindicalização como uma vantagem absoluta, o texto omite o preço disso: não há flexibilidade. Para trabalhadores jovens, altamente qualificados ou de setores tecnológicos, as amarras dos acordos podem limitar o crescimento salarial, o que só pode favorecer os empregadores.
E, como já foi dito acima, a gestão tripartite favorece as grandes corporações e os super-sindicatos, criando barreiras de entrada para pequenas empresas e startups que não conseguem arcar com os custos e a burocracia.
O trecho que diz que “os sindicatos participam ativamente do planejamento social e articulam trabalhadores, a equipe norueguesa depende da cooperação entre atletas, comissão técnica e demais profissionais para alcançar um resultado compartilhado”, é uma fraude e um completo desvio das funções dos sindicatos.
Alegar que “a prioridade dada ao interesse coletivo, à divisão de responsabilidades e à construção conjunta de soluções favorece uma atuação mais organizada e assertiva, na qual o desempenho individual é colocado a serviço do grupo”, está mais para discurso corporativo
Para ficarmos em dois exemplos, o desempenho dos estudantes noruegueses em avaliações internacionais (PISA) tem caído há uma década, estando agora abaixo da média da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (um fórum internacional com sede em Paris e conhecido como o “clube dos países ricos”), apesar do país investir quase o dobro do valor médio por aluno.
Os noruegueses têm, em média, 27,5 dias de baixas médicas por ano, o número mais alto da OCDE e quatro vezes a média do grupo.
Uma coisa a Noruega tem de bom, seu desenvolvimento é baseado na exploração de petróleo e gás natural no Mar do Norte. O país não faz como a esquerda aloprada brasileira que é contra a exploração desse recurso imprescindível.




