Polêmica

Os fiscais da alegria dos jogadores de futebol

O futebol-arte não será recuperado exigindo que jogadores usem roupas sóbrias, evitem viagens ou permaneçam trancados depois de uma derrota

Paulo Vinicius Coelho publicou, neste domingo (12), na Folha de S.Paulo, o artigo O dia do futebol arte. O colunista critica a instabilidade da CBF, a ausência de uma identidade de jogo e a campanha publicitária divulgada depois da eliminação para a Noruega.

Esses problemas existem. O Brasil trocou cinco vezes de treinador em quatro anos e meio, convocou 95 jogadores desde a Copa de 2022 e entregou a Seleção a Carlo Ancelotti depois de uma longa campanha para desacreditar os técnicos brasileiros.

PVC, porém, abandona rapidamente essa discussão. Em vez de explicar a derrota, passa a fiscalizar o destino dos jogadores depois da Copa:

“Vinicius Junior alugou uma mansão em Ibiza.”

Logo depois, escreve:

“Neymar foi para Las Vegas, para jogar pôquer e mostrar ao mundo seu compromisso com uma casa de apostas do baralho.”

Ibiza não explica os dois gols da Noruega. Uma mesa de pôquer não explica a falta de controle do meio-campo brasileiro. O local escolhido por Ancelotti para passar os dias seguintes à eliminação também não explica por que o Brasil entregou a bola ao adversário.

O artigo identifica um problema esportivo e oferece uma condenação moral.

Vinícius Júnior trabalha na Europa. Neymar tem compromissos comerciais. Ancelotti mora no Canadá. Depois da Copa, cada um seguiu para um destino diferente.

Nada disso demonstra falta de compromisso com a Seleção.

PVC escreve que Ancelotti deveria ter voltado ao Rio de Janeiro para conceder uma entrevista coletiva. A cobrança por explicações é normal. O treinador deveria responder por suas escolhas, pela escalação e pela estratégia adotada. Mas a explicação poderia ser dada nos Estados Unidos, no Canadá ou por videoconferência.

A fiscalização da viagem substitui a análise da partida.

A imprensa exige que o atleta demonstre sofrimento da maneira considerada adequada. Não pode viajar, divertir-se ou retomar compromissos profissionais. Deve permanecer recolhido para satisfazer comentaristas que transformam o autoflagelamento em obrigação pública.

PVC chama Neymar de “ex-craque brasileiro” e de “embaixador da nossa tristeza”.

Neymar quase não jogou a Copa porque estava machucado. Quando entrou contra a Noruega, assumiu a cobrança do pênalti, marcou o gol do Brasil e procurou levantar o time. Não foi responsável pela escalação, nem pela desorganização da CBF. Também não perdeu o pênalti do primeiro tempo.

Neymar continua sendo o maior jogador brasileiro de sua época. Lesões e posições políticas reacionárias não apagam sua técnica, seus gols, suas assistências e sua influência sobre os grandes jogadores da nova geração.

A expressão “embaixador da nossa tristeza” procura produzir uma condenação pessoal. O jogador passa a representar a eliminação inteira, embora tenha participado apenas do último jogo e marcado o único gol brasileiro.

A campanha não explica o futebol. Procura um culpado que possa ser atacado com facilidade. PVC critica Neymar por ser “embaixador cultural” de uma empresa ligada ao pôquer. A FIFA, a CBF, as emissoras e os principais clubes convivem diariamente com essas empresas. O futebol foi cercado por capitalistas que lucram com apostas.

Por que a indignação se concentra em Neymar? O jogador não criou essa situação. É contratado por uma empresa dentro de um sistema comercial aceito pelas entidades e pelos próprios grupos de comunicação.

O moralismo escolhe o indivíduo e absolve o sistema.

PVC afirma:

“A campanha do novo ciclo, o da recuperação do futebol brasileiro, precisa começar pelo respeito ao nosso sentimento.”

Respeitar o torcedor significa defender a Seleção, combater a cartolagem e exigir uma orientação que valorize o futebol brasileiro. Não significa controlar a vida particular dos jogadores.

No fim, PVC escreve que a Seleção atuou como “um time qualquer, que poderia vestir qualquer camisa”.

A contratação de Ancelotti foi o ponto mais alto de uma campanha antiga. Durante anos, a imprensa afirmou que os técnicos brasileiros eram atrasados e que somente um estrangeiro poderia organizar a Seleção.

Depois da eliminação, muitos dos promotores dessa política passaram a defender o futebol-arte.

O futebol-arte não será recuperado exigindo que jogadores usem roupas sóbrias, evitem viagens ou permaneçam trancados depois de uma derrota. Depende do combate à FIFA e aos grandes clubes europeus, que retiram nossos jogadores e depois apresentam seu futebol como produto da Europa.

A campanha moralista desvia desse problema.

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