Ana Cristina Rosa publicou, neste domingo (12), na Folha de S.Paulo, o artigo Antirracismo é jogo de ganha-ganha. O texto divulga o livro Guia da Gestão Pública Antirracista, escrito por cinco pesquisadores depois de uma “imersão na Universidade de Oxford”, em 2024.
A autora reconhece um fato evidente: a população negra é atingida de maneira desproporcional pela pobreza, pelo desemprego, pelos baixos salários e pela violência estatal. O problema começa quando ela procura explicar essa situação e indicar uma saída.
Rosa escreve:
“A origem das nossas desigualdades é de cunho étnico-racial.”
A desigualdade brasileira não nasce da divisão entre brancos e negros. Nasce da propriedade privada dos grandes meios de produção, da concentração de terras, do domínio dos bancos e da exploração do trabalho.
A maioria da população negra está entre os trabalhadores mais explorados porque a escravidão foi sucedida por uma sociedade capitalista que nunca incorporou os ex-escravos, assim como nunca incorporou a população pobre.
A coluna apresenta o livro como um instrumento para modificar práticas do setor público. Segundo Rosa, seria preciso questionar decisões que “resultam em exclusão de um segmento específico da população brasileira”.
A formulação é genérica.
Quais decisões? Quais órgãos? Quais empresas são beneficiadas? Que medidas econômicas devem ser adotadas? Quanto deve aumentar o salário? Quantas casas devem ser construídas? Quantos empregos públicos precisam ser criados?
O artigo não responde.
Em seu lugar, oferece esta frase:
“Ao erguer aqueles marginalizados, não apenas corrigimos injustiças, mas levantamos uma nação inteira.”
A população negra não precisa ser “erguida”. Precisa de emprego, salário, terra, moradia, saúde e educação. Precisa de organização política para conquistar essas reivindicações contra os patrões e o Estado.
Rosa afirma:
“O Estado nada mais é do que um conjunto de pessoas investidas em cargos públicos.”
Não é verdade.
O Estado não se resume a senadores, deputados, prefeitos e servidores. É formado por instituições permanentes que defendem uma determinada ordem social: Judiciário, polícia, Forças Armadas, ministérios, bancos públicos e órgãos de controle.
Essas instituições não pairam acima das classes.
Elas protegem a propriedade dos grandes capitalistas, garantem o pagamento da dívida pública aos bancos, reprimem greves e mantêm a concentração de terras.
Trocar algumas pessoas ou publicar um manual não altera essa função.
Pode haver medidas que reduzam discriminações dentro do serviço público. Mas não transformam um Estado submetido aos bancos num instrumento de libertação da população negra.
A autora apresenta o problema como se decisões injustas fossem resultado da falta de consciência de gestores.
O centro da questão é outro. O Estado atende aos interesses da burguesia porque foi organizado para isso.
O título afirma que o antirracismo seria um “jogo de ganha-ganha”. Procura mostrar que ninguém precisa perder para que a população negra melhore de vida.
Mas a luta contra a desigualdade produz perdas concretas para uma classe. Aumento de salários reduz o lucro dos patrões. Reforma agrária retira terra dos latifundiários. Mais recursos para saúde e educação exigem menos dinheiro para banqueiros. Direitos trabalhistas limitam a exploração.
Não existe “ganha-ganha” entre trabalhador e capitalista.
Apresentar a luta contra o racismo como política benéfica a todos permite esconder esse conflito.
Os bancos podem apoiar campanhas institucionais contra a discriminação sem aumentar salários. Grandes empresas podem contratar consultorias, financiar seminários e divulgar compromissos públicos enquanto exploram trabalhadores negros.
A fórmula é útil justamente porque não ameaça ninguém com poder econômico. A única forma de combater o racismo é a luta contra o capitalismo.



