Lançamento de livro

O Brasil sempre será o País do futebol

Obra percorre a formação do futebol nacional, as cinco conquistas mundiais e a campanha permanente contra a Seleção Brasileira

A Editora Democritos lançou, neste sábado (11), no Centro Cultural Benjamin Péret (CCBP), em São Paulo, o livro A evolução do futebol brasileiro através das Copas: uma história política, de Juca Simonard. O lançamento ocorreu após a Análise Política da Semana e reuniu, além do autor, o dirigente nacional Henrique Simonard e Rui Costa Pimenta, presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO) e pré-candidato à Presidência, em um debate transmitido ao vivo pela Causa Operária TV (COTV).

Com cerca de 380 páginas, o livro apresenta a formação do futebol brasileiro desde sua chegada ao País, acompanha a transformação do esporte em uma paixão nacional e analisa a trajetória da Seleção nas Copas do Mundo. O centro da obra é a relação entre futebol e política: o desenvolvimento do futebol-arte, a participação decisiva dos trabalhadores negros e mestiços, a pressão dos grandes capitalistas sobre o esporte e a campanha da imprensa burguesa contra a Seleção.

Juca Simonard explicou que a primeira parte do livro surgiu durante a Copa de 2022. Naquele momento, uma série de artigos foi escrita para mostrar como o futebol chegou ao Brasil e como o País se tornou a maior potência da história do esporte. Quando a Editora Democritos decidiu transformar o trabalho em livro, o autor acrescentou uma segunda parte, dedicada às Copas disputadas desde 2006 e à situação atual do futebol brasileiro.

“A questão política é a questão fundamental para entender também o futebol. Não é essa politicagem besta da esquerda que vai atacar um determinado jogador porque ele vota em fulano ou sicrano, ou como aconteceu na Copa de 1970, quando tinha gente de esquerda que torcia contra a Seleção Brasileira por causa da ditadura militar, sendo que os jogadores não têm nada a ver com isso. O futebol é nosso”, afirmou.

Ao apresentar os primeiros capítulos, Simonard destacou que o futebol se popularizou rapidamente no Brasil. A versão segundo a qual o esporte permaneceu durante muito tempo restrito às elites não corresponde à evolução concreta dos clubes. No início do século XX, o Bangu já era uma equipe formada em uma fábrica, com operários e jogadores negros.

Segundo o autor, o futebol brasileiro se desenvolveu junto com a classe operária. A Revolução de 1930 e a expansão do rádio deram ao esporte um alcance nacional. O que já despertava interesse em várias cidades transformou-se em uma paixão de milhões de trabalhadores.

“O futebol brasileiro se desenvolve junto com a classe operária brasileira e, a partir da Revolução de 1930 e da chegada do rádio, torna-se extremamente popular. A classe operária passa a ter no futebol brasileiro um dos seus maiores patrimônios culturais de todos os tempos”, disse Simonard.

Essa origem explica, segundo ele, a enorme simpatia despertada pela Seleção nos países oprimidos. O autor citou as torcidas pelo Brasil na África, no México, em Bangladexe, na Índia e no mundo árabe. Também leu um trecho de entrevista de Nael Barguti, prisioneiro político palestino que passou mais tempo nas cadeias israelenses.

“Nós, palestinos, crescemos jogando futebol. Quando pensamos em futebol, lembramos de Pelé e de como ele enfrentava qualquer time europeu. Torcíamos automaticamente para o Brasil, mesmo que não fossem campeões, porque o nome do jogador Pelé era um símbolo de resistência contra o racismo no futebol”, declarou Barguti à revista Estado da Palestina.

O livro sustenta que o Brasil não apenas se tornou o melhor país no esporte. O País reinventou o futebol. O jogo inglês, estático e burocrático, ganhou movimento, drible, improvisação e beleza por meio dos jogadores brasileiros. Friedenreich, Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Zizinho, Garrincha, Didi e Pelé aparecem como marcos dessa transformação.

Simonard lembrou que Domingos da Guia foi o primeiro grande zagueiro que saía jogando, em oposição ao defensor limitado ao chutão. Leônidas tornou-se o principal craque brasileiro dos anos 1930. Em 1938, a Seleção alcançou a semifinal e foi prejudicada contra a Itália de Mussolini. Na década seguinte, antes mesmo do primeiro título mundial, o Brasil já tinha jogadores e equipes que demonstravam a superioridade do futebol nacional.

A consagração veio em 1958. Para Simonard, aquela foi a melhor seleção já reunida: Pelé, Garrincha, Vavá, Didi, Nílton Santos, Bellini e Gilmar, entre outros. O Brasil conquistou três das quatro Copas disputadas entre 1958 e 1970 e transformou definitivamente a maneira de jogar.

“No futebol, você poderia separar entre antes e depois de Pelé. O futebol dessa Seleção tricampeã do mundo revolucionou completamente o esporte. Fala-se muito que os europeus inventaram o futebol moderno, que Pepe Guardiola inventou o falso nove. Mentira: a gente tinha isso com Tostão já em 1970. Todo o esquema de jogar futebol foi inventado pelo Brasil tricampeão do mundo”, afirmou o autor.

A exposição também contestou a tentativa de apresentar o título de 1970 como uma conquista da ditadura militar. Simonard lembrou que João Saldanha montou a equipe e foi demitido poucos meses antes da Copa. A intervenção do regime poderia ter destruído o trabalho. A qualidade de Pelé, Tostão, Gerson, Jairzinho, Rivelino, Clodoaldo e dos demais jogadores impediu que isso acontecesse.

O livro dedica parte importante à campanha contra o futebol brasileiro. Segundo Simonard, ela aparece desde as primeiras Copas, quando brigas entre dirigentes do Rio de Janeiro e de São Paulo impediram a Seleção de reunir seus melhores jogadores. Em 1950, a ofensiva contra o nacionalismo varguista atingiu a equipe que disputaria a Copa no Brasil. Em 2014, a campanha contra a realização do torneio e contra o governo de Dilma Rousseff criou um ambiente de pressão permanente sobre os jogadores.

Henrique Simonard, responsável pela edição da obra, afirmou que a derrota do Brasil na Copa de 2026 tornou o lançamento ainda mais necessário. Se a Seleção tivesse conquistado o título, o livro encontraria um público animado pela vitória. Com a eliminação, porém, a obra oferece elementos para enfrentar a desmoralização do futebol nacional.

“Eu queria que todos os jogadores da Seleção Brasileira, todos os jogadores do futebol brasileiro, técnicos e jornalistas que verdadeiramente defendem o nosso futebol lessem o livro e chegassem às conclusões a que chegamos: as dificuldades e os ataques contra o futebol brasileiro sempre existiram, sempre vão existir e talvez sejam o nosso maior obstáculo para ganharmos o hexa, o hepta, o octa e todos os títulos que poderíamos ganhar”, declarou.

Henrique citou a Copa de 2006 como exemplo. A imprensa atribuiu a eliminação ao chamado quadrado mágico e à suposta falta de seriedade do elenco. O livro mostra, porém, que Ronaldo, Ronaldinho, Kaká e Adriano jamais perderam uma partida quando começaram juntos. A explicação repetida durante anos não resiste ao exame dos jogos.

Ele também lembrou a campanha contra a construção do Maracanã antes da Copa de 1950. Carlos Lacerda, principal porta-voz da direita contra Getúlio Vargas, tentou impedir a obra e depois defendeu que o estádio fosse erguido em Jacarepaguá, longe da região central do Rio de Janeiro. Foi nesse período que Nelson Rodrigues formulou a expressão “complexo de vira-lata” para atacar os brasileiros que se colocavam voluntariamente abaixo dos europeus.

“Por complexo de vira-lata, entendo a inferioridade em que o brasileiro se coloca voluntariamente em face do resto do mundo. O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem”, escreveu Nelson Rodrigues, em passagem reproduzida durante o lançamento.

Outro tema do livro é a retirada cada vez mais precoce dos jogadores brasileiros. Na década de 1980, o endividamento dos clubes, agravado pela política da ditadura para o Campeonato Brasileiro, abriu caminho para a saída de craques como Zico e Sócrates. Nas décadas seguintes, o processo se aprofundou.

Ronaldo deixou o País aos 17 anos. Hoje, clubes europeus mantêm observadores em todas as regiões do Brasil e levam jogadores antes mesmo da estreia profissional. Gabriel Martinelli saiu da base do Ituano sem disputar uma partida pela equipe principal. Rafael e Fábio deixaram as categorias de base do Fluminense para o Manchester United. O resultado é o enfraquecimento dos clubes nacionais e a separação entre a Seleção e o futebol praticado no Brasil.

Juca Simonard afirmou que os grandes clubes europeus formam seleções internacionais com jogadores retirados dos países oprimidos. O melhor ataque do Barcelona neste século reuniu um brasileiro, um argentino e um uruguaio. O Liverpool campeão europeu em 2019 tinha um egípcio, um senegalês e um brasileiro no ataque. O Real Madrid já entrou em campo sem um espanhol entre os titulares.

“Que futebol europeu é esse? Isso não é futebol europeu. É o futebol colonial europeu. Eles vão lá, a preço de banana, roubam os jogadores do mundo inteiro e montam grandes equipes. Enquanto isso, nós temos de ouvir a imprensa falando que o nosso futebol é uma porcaria, sendo que nós somos exemplo para todos esses jogadores”, afirmou.

O autor destacou que a repatriação de jogadores e o desempenho dos clubes brasileiros no Mundial de Clubes mostraram outra tendência. Mesmo com recursos muito inferiores, equipes brasileiras competiram contra os clubes mais ricos. O Fluminense chegou à semifinal, apesar de ter o menor investimento entre os representantes nacionais.

Rui Costa Pimenta encerrou as intervenções principais afirmando que a Copa de 2026 deixou evidente o caráter político do futebol. Para o presidente do PCO, os resultados, a ação das federações, os interesses das empresas, a arbitragem e a propaganda em torno de determinados jogadores não podem ser separados da disputa pelo controle do esporte mais popular do planeta.

“Essa Copa foi reveladora e mostrou que futebol é política. A discussão sobre o futebol é uma discussão política. Diz respeito à situação do Brasil, à luta contra o imperialismo e à luta de classes de um modo geral”, declarou Pimenta.

Ele defendeu o estudo da história como ponto de partida para combater os mitos repetidos pela imprensa. A cada eliminação, decreta-se o fim do futebol brasileiro. O mesmo aconteceu depois de 1950, 1966, 1982, 1998, 2006 e 2014. Até a Seleção de 1970, hoje considerada uma das maiores de todos os tempos, foi duramente questionada antes da Copa.

Pimenta afirmou que o Brasil é o único pentacampeão e poderia ter conquistado outros títulos. Citou a Copa de 1978, na Argentina, quando um gol de Zico contra a Suécia foi anulado após o árbitro encerrar a partida com a bola no ar. Depois, a Argentina venceu o Peru por 6 a 0 e superou o Brasil no saldo de gols.

O dirigente também destacou que o futebol atual é uma criação brasileira. Para ele, as seleções africanas que praticam um jogo habilidoso pertencem à escola brasileira. O ataque contra Neymar é uma das maiores demonstrações de que o brasileiro perdeu, sob a pressão da imprensa, a noção da superioridade de seu próprio futebol.

“Neymar não é um bom jogador. Ele é um jogador espetacular. Quando começou a se firmar, apareceu um jogador de altíssima qualidade, no estilo de Pelé e Garrincha. O que ele foi atacado durante a carreira, dentro do Brasil, é uma coisa inacreditável”, disse.

Pimenta rejeitou a afirmação de que o Brasil deixou de ser o país do futebol. Nenhum outro povo, afirmou, exige de sua seleção a vitória em todas as Copas. Essa cobrança é explorada contra os jogadores, mas nasce da consciência de que o futebol brasileiro é superior.

“O Brasil sempre será o país do futebol. Não existe país no mundo, nem a Itália, nem a Alemanha, onde o povo goste tanto de futebol como o Brasil. Foi no Brasil que o esporte se transformou em uma verdadeira paixão nacional. O brasileiro olha para a Copa e diz que tem de ganhar. Isso não existe no restante do mundo”, afirmou.

Para o presidente do PCO, a campanha contra a Seleção faz parte da ofensiva contra o próprio País. O futebol brasileiro projeta entre os povos oprimidos uma nação capaz de superar as potências imperialistas no esporte mais popular do mundo. Por isso, sua defesa está ligada à luta contra a dominação estrangeira.

“As pessoas que atacam o futebol brasileiro desse jeito são inimigas do Brasil. Não estão atacando apenas o futebol. A defesa do futebol brasileiro é uma defesa do Brasil, porque a defesa do Brasil é uma luta contra o imperialismo”, afirmou.

Pimenta concluiu que o lançamento abre uma série de iniciativas necessárias para estabelecer uma base histórica e política para o debate. Diante da campanha contra a Seleção, o livro procura recuperar a história de um futebol criado pelos trabalhadores, transformado em arte pelo povo brasileiro e convertido em patrimônio de todos os povos oprimidos.

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