Editorial

6×1: mais uma derrota à vista?

Governo Lula apostou no fim da escala como trunfo eleitoral, mas esqueceu de combinar com Davi Alcolumbre

O governo Lula está prestes a sofrer nova derrota no Senado. A PEC do fim da escala 6×1, aprovada pela Câmara em maio, segue parada na mesa de Davi Alcolumbre, sem previsão de votação e com o recesso parlamentar marcado para começar em 18 de julho.

Lula se reuniu nesta quinta-feira (9) com Teresa Leitão, nova líder do governo no Senado, para discutir o tema. O encontro mostra a preocupação do governo. A proposta que o Planalto queria transformar em seu grande troféu eleitoral está emperrada.

O fim da escala 6×1 era a principal medida social que o governo pretendia apresentar antes da eleição. Lula não entregou nada de impactante para os trabalhadores durante seu terceiro mandato. A economia continua dominada pelos bancos. A direita controla o Congresso. Diante disso, o governo passou a apostar na redução da jornada como prova de que ainda seria capaz de arrancar alguma conquista popular.

Alcolumbre, no entanto, não deu sinal de que colocará a matéria para andar. A proposta sequer avançou para a Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Governistas já admitem que a chance de aprovação antes do recesso é muito baixa.

O governo, uma vez mais, confiou nos acordos com a burguesia. O resultado está à vista. Quando o governo precisa de uma vitória, seus aliados somem. Quando a burguesia quer impor uma derrota, o Congresso funciona.

Foi assim na indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). Lula escolheu seu nome para a vaga, mas foi derrotado. A articulação do governo não conseguiu segurar o Senado. A derrota abriu uma crise direta entre Lula e Alcolumbre, que desde então não se falam.

Depois vieram as contas bilionárias impostas pelo próprio Senado. Os senadores aprovaram medidas com impacto enorme sobre as finanças públicas, contrariando o governo.

Agora, a 6×1 caminha para o mesmo destino. A diferença é que, neste caso, a derrota atinge o coração da campanha eleitoral de Lula. O governo queria apresentar a proposta como uma mudança histórica, capaz de beneficiar dezenas de milhões de trabalhadores. O Senado pode deixar tudo para depois.

Alcolumbre rebateu o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai, e afirmou que não aceita “ultimatos” nem “pressões político-eleitorais”. A direita também se moveu. O senador Jaime Bagattoli, do PL de Rondônia, disse esperar que Alcolumbre não paute a PEC. Afirmou que o fim da escala 6×1 poderia “quebrar o país” e defendeu uma proposta de flexibilização da jornada.

O governo, por sua vez, já começa a preparar concessões. O Ministério do Trabalho fez um estudo com 17 atividades que poderiam ter tratamento específico caso a PEC avance no Senado. A lista inclui categorias centrais para o problema da 6×1, como comerciários, telemarketing, motoristas, trabalhadores rurais e outros setores submetidos a jornadas duras.

Ou seja: o governo já sinaliza recuo. A proposta pode ser mutilada no Senado, cheia de exceções, regras especiais e brechas para negociação coletiva.

A proposta do fim da escala 6×1 revela o impasse do governo. Lula quer aprovar a proposta por acordo com os mesmos setores que defendem a exploração dos trabalhadores.

Não vai funcionar. A derrota de Messias já mostrou isso. As medidas bilionárias aprovadas no Senado mostraram de novo. A paralisia da 6×1 mostra pela terceira vez.

A redução da jornada só sairá se houver pressão dos trabalhadores. Se depender dos acordos do Planalto com Alcolumbre e com a burguesia, a proposta será enterrada, adiada ou deformada até perder grande parte de seu sentido.

O governo Lula precisa escolher. Ou enfrenta a direita e chama os trabalhadores à luta, ou continuará acumulando derrotas às vésperas da eleição.

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