Como vimos anteriormente (leia aqui), a esquerda pequeno-burguesa avançou demais na propaganda imperialista da crise climática, que não consegue se desvencilhar completamente e só agora começa a entender que a crise não é um problema do clima, mas do próprio capitalismo, que visa tão somente o lucro, além de fazer com que os governos invistam apenas em setores de interesse do grande capital.
O Révolution Permanente diz que “a esquerda institucional com um programa limitado e uma estratégia moderada”, o que não deixa de ser verdade. Mas, o que esses grupos identitários têm a oferecer? Em nenhuma de suas reivindicações, por exemplo, pedem o “Fora, Macron!”
Segundo o texto, “em resposta a essa crise, a esquerda institucional ensaiou saídas que, ainda que redirecionem o debate para questões do terreno dos trabalhadores, mostram-se insuficientes diante da dimensão do desastre. O partido Les Écologistes propõe uma ‘licença climática’ de apenas cinco dias, enquanto o La France Insoumise (LFI) defende um ‘direito de recusa ao trabalho por condições climáticas’ como parte de um plano de emergência. Embora tais iniciativas tenham provocado de imediato a ira da patronal da Medef, seu alcance real é limitado, para dizer o mínimo: comparada aos 33 dias de calor extremo registrados em 2022 ou aos 27 dias em 2025, uma licença de cinco dias parece mais um remendo do que uma solução de fundo — especialmente diante da tendência climática preocupante que indica que esses períodos tendem a se prolongar ainda mais.”
Como se vê, esses setores estão todos de mãos atadas e nada têm a oferecer. Frente a isso, o RP faz propostas que também são insuficientes, apesar de dizer que “a única solução possível é a classe trabalhadora assumir o controle da situação em suas próprias mãos”, como veremos abaixo:
“O RP exige a suspensão imediata de todas as atividades não essenciais — começando pelas realizadas ao ar livre — sem qualquer perda salarial. Para os setores essenciais (saúde, energia, coleta de lixo), propõem contratações em massa e a redução da jornada de trabalho nos dias de calor extremo, cabendo aos próprios trabalhadores definir os protocolos e o ritmo de trabalho. A medida visa tanto proteger fisicamente os trabalhadores quanto liberar tempo para sua recuperação e para o cuidado com as pessoas mais vulneráveis a seus entornos.”
A primeira pergunta a ser feita é se está sendo feita uma campanha massiva com panfletagem, trabalhos nas redes sociais e locais de trabalho para que os trabalhadores se engajem nessa luta. Pois, até onde se sabe, não existe uma mobilização de fato, nem um trabalho de conscientização. Sem isso, qualquer palavra de ordem se tornará vazia.
Em seguida, o texto diz que “o RP exige acesso gratuito a cinemas, museus, teatros e outros espaços públicos climatizados, e propõe a abertura de jardins, piscinas, hipódromos e campos de golfe de propriedades de luxo como espaços de convivência comunitária, equipados com tendas e bebedouros. Defendem também a abertura ao público de escritórios climatizados de setores não essenciais — começando por La Défense, o distrito financeiro de Paris — para atividades culturais e recreativas. Expropriação de hotéis e casas de veraneio pertencentes aos ultrarricos para abrigar pessoas sem moradia digna, bem como o avanço de um plano de renovação ecológica e reorganização urbana sob controle da população.”
Essa proposta está claramente fora da realidade. Ninguém vai levar isso a sério, pois não existe base material, e muito menos a esquerda francesa está organizada a ponto de conseguir algo remotamente parecido com isso.
Seria preciso muita imaginação para se visualizar a classe trabalhadora se mobilizando para levar adiante “um plano de renovação ecológica e reorganização urbana”.
Quem vai expropriar “hotéis e casas de veraneio pertencentes aos ultrarricos para abrigar pessoas sem moradia digna”, Macron? Vai ser preciso uma nova revolução para isso, uma realidade que não se apresenta de maneira nenhuma, ainda mais em um cenário político mundial de avanço da direita e refluxo da esquerda.
Uma questão que precisa ser esclarecida. Para os trabalhadores, não adiantaria nada expropriar este ou aquele ultrarrico, é a burguesia na totalidade que precisa ser derrotada.
O RP, adiante, “propõe a organização de comitês de bairro autoconvocados, articulados com os sindicatos, para avaliar as necessidades dos trabalhadores e da população diante das políticas impostas pelas patronais e pelo governo”, mas não dá mostras de que isso esteja sendo preparado.
É preciso reunir os comitês, debater, extrair propostas, ou nada se estará fazendo além de uma fileira de palavras de ordem.
Reação
O problema desse tipo de proposta é que parte de uma reação. Como os grupos que ficaram gritando “fique em casa” durante a pandemia de Covid-19 e exigindo atitudes do governo. No Brasil, apenas o PCO – Partido da Causa Operária teve coragem e determinação de sair às ruas e exigir testes gratuitos e vacinação para toda a população.
A esmagadora maioria da esquerda ficou em casa e só saiu às ruas para fazer campanha eleitoral, pois não há nada que a esquerda pequeno-burguesa não faça por um voto. Acabada a disputa, como já era de se esperar, voltaram todos para casa.
Não adianta fazer campanhas meramente reativas, é preciso um trabalho constante junto às massas para que se consiga alguma organização, pois é disso que se trata.
O RP está fazendo propostas fora da realidade para se mostrar muito radical, e o que está faltando é o básico, a organização da classe trabalhadora, pois, sem ela, nada sairá do papel.
Existe ainda uma questão fundamental: nenhuma esquerda poderá progredir se ficar presa a ideologias como o identitarismo e questões climáticas, que são políticas propostas pelo próprio imperialismo.




