A confusão na esquerda apenas se aprofundou conforme houve a infiltração do identitarismo e o aumento da campanha imperialista sobre o clima, que influencia completamente a esquerda pequeno-burguesa.
No artigo “Mais de 2.000 mortos. O calor mata, e o capitalismo também: onda de calor e crise na França”, publicado no sítio Esquerda Diário, ligado ao MRT – Movimento Revolucionário de Trabalhadores, nesta terça-feira (7), essa gente não consegue decidir se o problema é o calor, o capitalismo. Então, preferem dizer que é uma mistura das duas coisas.
Na verdade, é evidente que a culpa não é do clima, mas essa esquerda gastou tanto tempo e energia nessa falácia de crise climática que não pode simplesmente abandonar o barco.
Sendo assim, o texto começa dizendo que “com mais de 2.000 mortes causadas pela onda de calor, o governo Macron escolheu priorizar os lucros das empresas em detrimento das vidas dos setores populares. Enquanto isso, os grandes meios de comunicação estigmatizam os jovens de bairros populares, ao mesmo tempo em que silenciam sobre a responsabilidade do Estado e das patronais por essas mortes.”
É óbvio que Macron dá prioridade para os lucros das empresas, é para isso que foi eleito. A grande imprensa, como sempre, segue cumprindo seu papel como porta-voz da burguesia.
Uma prova de que essa política do clima serve para qualquer coisa aparece no trecho que diz que “a crise climática atinge a classe trabalhadora com particular dureza, escancarando um sistema social profundamente desigual. À medida que se aproxima a eleição presidencial de 2027, essa crise tornou-se um novo campo de batalha política: a extrema direita passou do negacionismo do aquecimento global para a demagogia de uma ‘ecologização’ do país — uma tentativa de pautar a agenda eleitoral enquanto medidas de austeridade continuam a ceifar vidas. Simultaneamente, a esquerda institucional, presa a uma estratégia puramente parlamentar, vê-se em um beco sem saída diante dessa verdadeira ‘luta de classes climática’.”
“Luta de classes climática” é uma verdadeira aberração política, chega a ser cômico. A extrema direita está se apossando da questão ecológica porque essa é uma luta pequeno-burguesa que pode ser levada adiante por qualquer um.
No mesmo sentido se dá a questão da “misoginia”. No Brasil, é a sionista Tabata Amaral que está tentando equipará-la ao racismo. A direita em peso apoia e essa esquerda não tem do que reclamar, pois adora uma punição e aumento de penas.
Tentado se diferenciar nessa salada de frutas política, “a Révolution Permanente (RP) — organização francesa integrante da Rede Internacional Esquerda Diário e da Corrente Revolução Permanente (CRP-QI) — propõe um programa de emergência operário e popular, como um primeiro passo rumo a uma saída de fundo.”
Números
O trecho seguinte se dedica a falar do calor, e de que “a Europa atravessa uma onda de calor sem precedentes, com consequências catastróficas”, mas existem registros históricos de ondas de calor mais intensas.
Fala-se sobre o número de mortos, quem são os mais afetados, afogados, incêndios florestais e que “o governo ainda não cumpriu a promessa de renovar a frota de aeronaves de combate a incêndios. Veículos de imprensa comparam o colapso dos hospitais e funerárias à época da pandemia de COVID-19.”
Após fazer referência à revista médica The Lancet, que associa o clima a 540 mil mortes anuais no mundo, o artigo diz que as mortes ocorrem quando o “desastre extraordinário” colide com o “desastre ordinário” do capitalismo “salários de miséria, hospitais sucateados, crise estrutural nos serviços públicos, condições de trabalho desumanas e medidas de austeridade”. A pergunta é muito simples: haveria essas mortes pelo clima se as condições de vida da população fossem boas? Não, porque o problema não está no clima.
A questão do ar-condicionado
No texto está escrito que “os principais meios de comunicação — transmitindo de estúdios com ar-condicionado — classificam as vítimas como “frágeis”, a realidade nos serviços públicos é de colapso total. Metade dos hospitais franceses não possui ar-condicionado, e os profissionais de saúde enfrentam essa nova crise exaustos após anos de cortes orçamentários, vendo as alas de emergência ficarem sobrecarregadas justamente quando novas medidas de austeridade são anunciadas.”
Há ainda a denúncia de que “uma campanha promocional da rede de supermercados Lidl, denunciada pelo ferroviário Anasse Kazib — referente do Révolution Permanente — como a ‘organização metódica de uma humilhação de classe’. A empresa anunciou aparelhos de ar-condicionado por apenas 170 euros, mas disponibilizou um estoque irrisório de apenas três ou quatro unidades por loja.”
Também se denuncia que uma família pobre não pode pagar a instalação profissional de ar-condicionado, por volta de 1.200 euros.
Diante dessa situação, e com as eleições se aproximando, o partido de extrema direita, RN, “defende a instalação em massa de 20 milhões de aparelhos de ar-condicionado em âmbito nacional — inclusive em escolas, hospitais e casas de repouso — e criou artificialmente, na grande mídia, uma “falsa divisão” entre o chamado campo “pró-ar-condicionado” e seus opositores.”
Começa aí uma bela discussão sobre a demagogia da extrema direita, da necessidade de ar-condicionado em hospitais e escolas, no acesso desigual a esse tipo de aparelho, etc., para então se chegar à brilhante conclusão de que “seu uso generalizado expele calor para o ambiente externo, exacerbando as “ilhas de calor” urbanas e agravando localmente o próprio fenômeno que deveria mitigar.”
O grupo fica em cima do muro na questão do ventilador, pois é absurdo defender esse tipo de tecnologia apenas se for para os pobres.




