A decisão dos Estados Unidos de retirar a Síria da lista de países patrocinadores do terrorismo marca a hipocrisia na política externa norte-americana e reacende um debate antigo: até que ponto essas classificações refletem critérios objetivos ou acompanham verdadeiras transformações?
Durante anos, a inclusão da Síria nessa relação serviu de base para sanções econômicas, restrições diplomáticas e isolamento internacional. A permanência do país na lista era apresentada por Washington como consequência de seu histórico de apoio a organizações consideradas terroristas e de sua atuação regional.
A alteração desse enquadramento ocorre em um cenário internacional bastante diferente daquele que motivou a adoção das sanções. Mudanças no equilíbrio de forças no Oriente Médio, especialmente com a atuação do Irã, novos interesses estratégicos e rearranjos diplomáticos levaram diferentes governos a reconsiderar suas relações com Damasco. Lembrando que foram os EUA que principalmente violaram direitos humanos no país e ainda assim acusavam o governo.
Esse tipo de mudança alimenta questionamentos sobre a natureza das listas elaboradas pelas grandes potências. Para a grande imprensa, elas representam instrumentos legítimos de política internacional voltados ao combate ao terrorismo. Mas é sabido que funcionam como mecanismos de pressão diplomática, sujeitos a alterações conforme interesses estratégicos e mudanças nas alianças internacionais.
A história recente oferece diversos exemplos de países que passaram décadas sob sanções e, posteriormente, voltaram a estabelecer relações diplomáticas mais amplas quando determinados interesses estavam em jogo.
Embora se alegue que a decisão envolvendo a Síria também poderá produzir efeitos econômicos e diplomáticos importantes. E que a flexibilização de determinadas restrições pode facilitar negociações comerciais, ampliar investimentos e incentivar a retomada de relações com outros países que aguardavam uma mudança de posição por parte dos Estados Unidos. O que está acontecendo na realidade é que o imperialismo quer aumentar sua presença no país para pressionar o Líbano e a Palestina. Dessa maneira, consegue suprir parte da ineficiência “israelense” como braço armado do grande capital na região.
Organizações de direitos humanos alertam que qualquer processo de reaproximação internacional deve ser acompanhado por mecanismos de responsabilização relacionados às violações ocorridas durante o conflito sírio. Segundo essa perspectiva, a normalização diplomática não elimina a necessidade de investigação e prestação de contas sobre abusos cometidos ao longo da guerra. Mas nada disso tem importância quando estão sendo defendidos, de fato, os interesses do imperialismo.
O episódio demonstra, em última análise, que conceitos como terrorismo, sanções e reconhecimento internacional não são influenciados de verdade por aspectos jurídicos, mas por disputas de poder, interesses estratégicos e controle do sistema internacional. A política externa das grandes potências continua sendo moldada por uma combinação de princípios declarados e considerações pragmáticas. Em outras palavras, exigem princípios que elas mesmas nunca cumprem.
Enquanto finge combater o terrorismo, o imperialismo coloca um terrorista na presidência da Síria e retira o país de uma classificação que só serve como instrumento conveniente de pressão política.



