América Latina

Crise na Colômbia: Petro não reconhece eleição e chama mobilização

Presidente afirma que não reconhece a legitimidade da eleição e chama mobilizações em defesa das reformas sociais

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, convocou uma mobilização nacional para o dia 20 de julho, Dia da Independência do país, em defesa das reformas sociais aprovadas durante seu governo e contra as ameaças do presidente eleito, o dirietista Abelardo de la Espriella.

A convocação ocorre em meio ao agravamento da situação política colombiana após o segundo turno da eleição presidencial, realizado em 21 de junho. De la Espriella, apoiado pelo imperialismo norte-americano, recebeu as credenciais de presidente eleito no fim de junho, mas sua vitória vem sendo contestada por Petro e pelo senador Iván Cepeda, candidato derrotado pelo Pacto Histórico.

“O presidente da Colômbia não reconhece a legitimidade do governo entrante. Abelardo não venceu as eleições”, afirmou Petro em publicação no X, na segunda-feira (6). O presidente também declarou que aceita, “de acordo com a decisão do povo colombiano”, Iván Cepeda como representante da vontade popular.

No domingo (5), Petro já havia chamado a população às ruas para o dia 20 de julho. “20 de julho, dia de mobilização geral para gritar independência e a permanência das reformas sociais”, escreveu. O presidente afirmou que o ato terá como centro a defesa das conquistas de seu governo e sua despedida pública como chefe de Estado.

“Convido vocês a se juntarem à força pública e, depois do desfile, a ouvirem minha despedida como chefe de Estado da Colômbia”, declarou Petro. “Não faremos isso nos dias 6 nem 7 de agosto, são datas trágicas. Faremos no dia 20 de julho, em todas as praças públicas da Colômbia”.

No sábado (4), durante ato público em Cali, o senador Iván Cepeda afirmou que não reconhece De la Espriella como presidente legítimo da República. “Tal como estão as coisas hoje, devo dizer com total clareza: hoje não reconhecemos como presidente da República Abelardo de la Espriella”, declarou.

Cepeda reiterou sua disposição de organizar uma campanha de “desobediência civil pacífica” caso De la Espriella leve adiante suas ameaças contra a oposição, as reformas sociais e a soberania nacional. Segundo o senador, o novo governo ameaça entregar a Colômbia aos Estados Unidos e a Donald Trump, desmontar as reformas sociais, violar a Constituição e perseguir seus adversários políticos.

“Que não siga por esse caminho”, afirmou Cepeda. O senador disse que seu campo político poderá desobedecer medidas que ataquem direitos fundamentais dos colombianos, sempre por meio de ações pacíficas de resistência, protesto e oposição.

Cepeda também afirmou que o Pacto Histórico e os mais de 12,7 milhões de eleitores que votaram em sua candidatura continuarão organizando ações pacíficas. “Continuaremos promovendo ações de caráter pacífico e rejeito qualquer forma de violência”, declarou.

Um dos principais pontos levantados por Petro e por aliados do Pacto Histórico é a ligação de De la Espriella com os Estados Unidos. O direitista possui nacionalidade norte-americana e, para obtê-la, jurou fidelidade à Constituição dos Estados Unidos. Para Petro e para setores próximos ao governo colombiano, esse vínculo coloca em questão a soberania nacional.

O advogado e ex-magistrado do Conselho Nacional Eleitoral, Luis Guillermo Pérez, próximo a Petro, afirmou à rádio colombiana Blu Radio que pretende entrar com uma ação judicial para anular a eleição de De la Espriella. Entre os argumentos estão a nacionalidade norte-americana do presidente eleito, o apoio de Donald Trump, a retórica agressiva da campanha e denúncias de irregularidades na apuração.

Petro também denunciou que a fraude teria sido organizada em Los Angeles, nos Estados Unidos, por meio de uma empresa israelense e com financiamento de um advogado do estado da Flórida. Desde antes da votação, o presidente colombiano já denunciava problemas no processo de apuração.

A Folha de S.Paulo, em matéria publicada na segunda-feira, procurou reforçar a versão das missões internacionais de observação, segundo as quais o segundo turno teria sido “transparente e bem organizado”. O próprio crescimento das denúncias, no entanto, mostra que a eleição abriu uma crise política no país, especialmente porque a diferença entre os candidatos foi pequena.

A transição para o novo governo tem sido marcada por ataques de De la Espriella contra Petro, Cepeda e a esquerda colombiana. O direitista chamou o governo Petro de “o governo mais corrupto da história”, sem apresentar provas, e passou a usar as redes sociais para atacar as reformas sociais e preparar o terreno para uma ofensiva contra a oposição.

De la Espriella ameaçou Cepeda com prisão por causa da defesa da desobediência civil pacífica. “Alguns louquinhos falam de desobediência civil, que não é outra coisa senão primeiras linhas, bloqueios e terrorismo urbano”, afirmou o presidente eleito. “Tudo aquilo que estiver fora da lei, venha de onde vier, ou seja promovido por quem for, será enfrentado com toda a força do Estado de direito. Que fique claro”.

O direitista também anunciou a criação do Bloco de Defesa para a Segurança Urbana, apresentado por ele como um instrumento para combater extorsões, furtos e roubos. Organizações e observadores colombianos, porém, veem na medida a volta de métodos ligados ao paramilitarismo, responsável por milhares de assassinatos e pelas chamadas execuções extrajudiciais, conhecidas como “falsos positivos”.

De la Espriella também anunciou cortes de 60 trilhões de pesos colombianos, cerca de US$20 bilhões, no orçamento nacional. A medida significaria um ataque direto ao investimento social e aos salários dos trabalhadores, em sentido oposto às reformas defendidas por Petro e pelo Pacto Histórico.

A posse de De la Espriella está marcada para 7 de agosto. Antes disso, Petro pretende realizar no dia 20 de julho uma mobilização nacional em defesa das reformas sociais e contra o avanço da direita colombiana dirigida pelo imperialismo norte-americano.

A crise política na Colômbia expõe uma nova etapa da ofensiva do imperialismo contra a América Latina. Depois da vitória de Javier Milei na Argentina, de Daniel Noboa no Equador e de Rodrigo Paz na Bolívia, os Estados Unidos procuram impor também na Colômbia um governo neoliberal e golpista, usando a candidatura do ultradireitista Abelardo de la Espriella.

Não há por que reconhecer passivamente uma operação política que entrega o país à direita mais ligada aos Estados Unidos. Mas, se a denúncia não for acompanhada de medidas reais, torna-se apenas uma declaração. Não reconhecer De la Espriella significa, na prática, recusar a normalidade institucional do golpe: não entregar a faixa presidencial, não colaborar com a transição, chamar o povo às ruas e organizar uma resistência nacional contra o governo que o imperialismo procura impor.

De la Espriella representa a tentativa de colocar a Colômbia no mesmo rumo de outros países latino-americanos submetidos a governos de ataque aberto aos trabalhadores, privatizações, repressão e alinhamento completo aos EUA. É esse o sentido político da campanha da direita.

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