O Sistema Eletroenergético Nacional de Cuba sofreu uma queda total nesta segunda-feira (6), por volta do meio-dia, deixando cerca de 10 milhões de pessoas sem energia elétrica. A Unión Eléctrica de Cuba (UNE), empresa estatal responsável pela rede, informou que investiga as causas do desligamento e que iniciou os trabalhos de recuperação do sistema.
O Ministério de Energia e Minas de Cuba confirmou a interrupção geral do sistema. Pouco depois, a UNE anunciou a ativação dos protocolos de restabelecimento e a entrada em operação de uma unidade geradora da usina de Energás Boca de Jaruco, uma das primeiras medidas para recompor a rede nacional.
O apagão ocorre em meio a uma crise energética prolongada. Nos últimos meses, a ilha tem enfrentado cortes diários de energia, em alguns casos superiores a 20 horas. Hospitais, escolas, transporte, abastecimento de água, coleta de lixo e atividades produtivas têm sido atingidos pela falta de combustível e pela deterioração de uma rede elétrica submetida há décadas ao bloqueio imposto pelos EUA.
Segundo informações divulgadas pela operadora cubana, quase dois terços do país já estavam sem eletricidade antes da queda geral desta segunda-feira. Na sexta-feira (3), uma avaria na subestação Victoria de Girón, em Havana, provocou forte oscilação no sistema e retirou de operação unidades importantes, como Renté 3 e Felton 1.
A crise cubana foi agravada pelas novas medidas de pressão do governo de Donald Trump. Em 29 de janeiro, o presidente norte-americano assinou uma ordem executiva que ameaça punir países e empresas que forneçam petróleo a Cuba. A medida atingiu diretamente o abastecimento da ilha e reduziu de forma drástica a chegada de navios petroleiros.
O chanceler cubano, Bruno Rodríguez Parrilla, denunciou que o cerco energético impede a compra de combustível, peças e componentes necessários para o funcionamento das usinas termoelétricas. Segundo ele, fornecedores estrangeiros são intimidados pelo governo norte-americano, que utiliza sanções e ameaças comerciais para impedir qualquer forma de cooperação com Cuba.
Rodríguez afirmou que apenas um navio petroleiro conseguiu atracar em portos cubanos em um intervalo de quatro meses. O dado mostra o alcance da política dos EUA, que não se limita a restringir relações bilaterais, mas busca impedir que terceiros países vendam combustível à ilha.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, negou que os EUA imponham um bloqueio energético contra Cuba. O chanceler cubano respondeu que Rubio “simplesmente opta por mentir” para esconder os efeitos das sanções sobre a população cubana.
A queda total do sistema elétrico ocorreu na véspera de uma sessão especial da Assembleia Geral da ONU convocada por Cuba para denunciar o bloqueio econômico, comercial, financeiro e energético imposto pelos EUA. O debate está marcado para esta terça-feira (7), em Nova Iorque, com a presença de Bruno Rodríguez.
“O governo dos EUA tenta impedir que a Assembleia Geral da ONU se pronuncie. Pressiona governos e busca coagir a vontade soberana dos Estados-membros”, declarou o chanceler cubano.
Rodríguez afirmou que Cuba irá à ONU para defender “o direito soberano de viver sem cerco energético, sem asfixia externa, sem coerção, sem ameaças de um banho de sangue, sem punição coletiva”. Ele também afirmou: “Cuba não é uma ameaça. O bloqueio, sim”.
Segundo o governo cubano, os EUA distribuem documentos diplomáticos para tentar influenciar a votação na Assembleia Geral. Esses materiais procuram associar Cuba ao terrorismo internacional e enfraquecer a condenação ao bloqueio, aprovada de forma reiterada pela ONU há 33 anos.
A China também condenou a ofensiva norte-americana. Em Pequim, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, afirmou que o “bloqueio total” e as “sanções ilícitas” impostas pelos EUA causam “profundo sofrimento” ao povo cubano. Ela defendeu que os norte-americanos ponham fim imediatamente ao bloqueio, à coerção e à pressão contra Cuba.
No Brasil, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) voltou a cobrar uma resposta da Petrobrás ao pedido de envio emergencial de petróleo e derivados a Cuba. A solicitação foi encaminhada em fevereiro deste ano como parte da campanha Petróleo para Cuba, organizada por sindicatos, movimentos populares e entidades de solidariedade.
“O agravamento da situação é resultado do endurecimento do bloqueio econômico imposto pelos EUA, que tem provocado dificuldades no abastecimento de combustíveis, apagões frequentes e impactos sobre serviços essenciais, como saúde, transporte, educação e coleta de lixo”, afirmou Cibele Vieira, coordenadora-geral da FUP.
A federação enviou ofício à Diretoria Executiva de Logística, Comercialização e Mercados da Petrobrás solicitando uma reunião sobre o tema. Também foi entregue uma carta aberta ao presidente Lula e à presidente da Petrobrás, Magda Chambriard, defendendo que o Brasil avalie mecanismos legais e institucionais para prestar assistência energética à ilha.
Além da FUP, participam da campanha a Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), o Movimento Brasileiro de Solidariedade com Cuba e às Causas Justas, a Associação Cultural José Martí, centrais sindicais, movimentos populares e partidos políticos.
As entidades defendem que a Petrobrás, por seu papel estratégico para a soberania energética brasileira, pode contribuir com uma ação humanitária para reduzir os efeitos do bloqueio sobre a população cubana. Até o momento, a FUP afirma não ter recebido resposta da estatal.
Diante da falta de combustível, Cuba também busca reduzir sua vulnerabilidade com projetos de energia renovável. O país trabalha, com apoio da China, na instalação de 92 parques solares. A meta anunciada é suprir cerca de metade da demanda diurna de eletricidade até 2028.
O governo cubano também anunciou medidas para recuperar a geração térmica, reabilitar unidades geradoras e ampliar a produção interna de petróleo e gás. Essas iniciativas, no entanto, seguem limitadas pelo bloqueio norte-americano, que dificulta a compra de equipamentos, peças e combustível.





