África

Mercenários voltam a atacar Máli 2 meses após tentativa de golpe

Exército maliano afirma ter eliminado 26 atacantes em ofensiva contra cinco localidades; FLA assumiu ataque a cidade no norte do país

Mercenários atacaram, neste sábado (4), cinco localidades do Máli, pouco mais de dois meses depois da tentativa de golpe de abril contra o governo de transição. Segundo as Forças Armadas malianas, os ataques atingiram Aguelhok, Anefis e Gao, no norte do país; Sévaré, no centro; e Kenieroba, no sul, a cerca de 74 quilômetros da capital Bamaco.

O Exército informou que 20 atacantes foram mortos em Sévaré e outros seis em Gao. Um combatente pró-governo morreu em Gao e quatro ficaram feridos. Em comunicado divulgado mais tarde, as Forças Armadas afirmaram que a situação estava “totalmente sob controle”.

Os combates começaram por volta das 5 horas, de acordo com relatos de moradores e fontes de segurança citadas pelas agências AFP e Reuters. Em Kenieroba, um complexo prisional foi atacado. Fontes de segurança afirmaram que as forças do governo repeliram os invasores.

FLA assume ataque em Anefis

A Frente de Libertação do Azawad (FLA), organização separatista tuaregue que atua no norte do Máli, assumiu o ataque a Anefis, na região de Kidal. O porta-voz da organização, Mohamed Elmaouloud Ramadane, afirmou à Reuters que combatentes da FLA atacaram a cidade nas primeiras horas do sábado.

Anefis é uma das localidades onde o Exército maliano e forças russas mantêm presença após os ataques de abril. Na ocasião, a FLA e o Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos, conhecido como JNIM ou GSIM, organização ligada à Al-Qaeda, tomaram Kidal, cidade do norte do país.

Antes da resposta do Exército, Ramadane declarou à AFP que “várias posições caíram, mas os combates continuam dentro da cidade”. Um morador de Anefis, também ouvido pela agência, afirmou: “grupos armados estão na cidade, mas o Exército ainda resiste”.

Anefis e Aguelhok são apontadas como duas das últimas posições mantidas pelo Exército maliano na região de Kidal depois dos ataques de abril. Kidal havia sido recuperada pelo governo de transição em novembro de 2023 com apoio de forças russas, então ligadas ao grupo Wagner, posteriormente reorganizadas como África Corps.

Em Gao, um funcionário local afirmou que tiros e foguetes foram disparados contra um acampamento militar antes do amanhecer. O Exército declarou ter matado seis atacantes na cidade.

Em Sévaré, no centro do país, uma fonte afirmou à AFP que explosões foram ouvidas por volta das 5 horas. Pouco depois, aeronaves sobrevoaram a área. Moradores relataram disparos pela manhã, seguidos por quatro grandes explosões no oeste da cidade por volta das 8 horas e novas detonações por volta das 10 horas.

Presídio atacado perto de Bamaco

No sul, o alvo foi o presídio de Kenieroba. Um preso afirmou à AFP que a instalação estava sob ataque. Fontes diplomáticas e de segurança disseram à Reuters que os invasores foram repelidos.

A ação em Kenieroba é um dado importante. A cidade fica relativamente próxima de Bamaco, enquanto os demais ataques ocorreram no centro e no norte do país. A operação, portanto, combinou pontos distantes entre si, como já havia ocorrido em abril, quando os grupos armados atacaram simultaneamente a capital, Kati, instalações militares e cidades do norte.

A ofensiva deste sábado ocorre depois de uma série de ações contra o governo de transição. Além dos ataques militares, grupos armados realizaram recentemente bloqueios de combustível, atingindo o fornecimento de energia e de produtos para a capital.

Tentativa de golpe em abril

Em 25 de abril, o ministro da Defesa do Máli, general Sadio Camara, foi assassinado em Kati, cidade situada a cerca de 15 quilômetros de Bamaco. Camara morreu depois que sua residência foi atingida por um veículo carregado de explosivos. Sua esposa, parentes e pessoas que estavam em uma mesquita próxima também morreram.

Camara era uma das principais figuras do governo de transição. Participou da reorganização militar do país depois da ruptura com a França e da aproximação com a Rússia. Sua morte ocorreu durante uma agressão mais ampla, que atingiu Bamaco, Kati, o norte e o centro do Máli.

A operação foi reivindicada pelo JNIM, ligado à Al-Qaeda, em coordenação com a FLA. A Al-Qaeda declarou ter atacado o sítio do presidente da transição, Assimi Goïta, o aeroporto e instalações militares em Kati. A FLA anunciou a retomada de Kidal.

A cidade de Kati abriga o campo militar Soundiata Keïta, um dos principais centros militares do país. Foi desse campo que partiu o golpe de Estado que derrubou o antigo regime ligado ao imperialismo francês.

Depois de dois dias de combates, Bamaco e Kati voltaram a ficar mais calmas. Em Kati, veículos queimados, marcas de bala e áreas destruídas mostravam a intensidade dos combates. Em Sévaré e Gao, os confrontos ainda continuavam de maneira mais dispersa.

As forças de segurança do Máli afirmaram ter matado mais de 200 mercenários em todo o país e apreendido grande quantidade de equipamentos. O África Corps, ligado ao Ministério da Defesa da Rússia, informou que auxiliou as forças malianas e que a tentativa de golpe foi frustrada.

Rússia apoiou a reação maliana

O África Corps divulgou vídeos de ataques aéreos e de artilharia contra posições dos grupos armados. Em comunicado, a organização afirmou que ajudou a impedir a derrubada do governo, mantendo posições ao longo de uma linha de frente de aproximadamente 2.000 quilômetros.

Segundo o África Corps, o apoio aéreo impediu a tomada de instalações decisivas, incluindo o palácio presidencial em Bamaco. A organização também afirmou que mercenários ucranianos participaram da operação de abril e que as baixas dos grupos armados passaram de 1.000 mortos.

A tentativa de golpe fracassada reforçou a cooperação entre Máli, Burquina Fasso e Níger. Os três países romperam com a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), organização submetida aos interesses do imperialismo francês, e formaram a Aliança dos Estados do Sael, depois convertida em Confederação AES.

O presidente interino de Burquina Fasso, Ibrahim Traoré, condenou os ataques de abril e afirmou que eles não abalariam a determinação dos países do Sael de viver “livres, em paz e com dignidade”. A Turquia e a China também condenaram a tentativa de golpe. A embaixada chinesa no Máli expressou “profundo pesar” pela morte de Sadio Camara e condenou os ataques contra o país africano.

A guerra contra a presença francesa

Durante quase uma década, a França manteve tropas no Máli sob o pretexto de combater o “terrorismo”. Nesse período, os grupos armados se espalharam pelo país, o Estado maliano perdeu o controle de grandes áreas e a presença francesa passou a ser denunciada pela população como uma ocupação colonial.

Os militares que chegaram ao poder romperam com a França e expulsaram suas tropas. O mesmo processo ocorreu em Burquina Fasso e Níger. Em seguida, os três países aproximaram-se da Rússia e passaram a organizar uma política comum de defesa.

Os ataques deste sábado fazem parte dessa guerra. De um lado, estão os governos do Sael que romperam com Paris e buscam apoio russo para defender seus territórios. De outro, grupos armados que atuam contra esses governos, atacam bases militares, cidades, presídios e instalações estratégicas.

Segundo o Exército maliano, a operação deste sábado foi contida em Sévaré e Gao. Em Kenieroba, o ataque ao presídio foi repelido. Em Anefis, os combates foram relatados ao longo do dia.

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