Banco Master

Esposa de Moraes mandou contrato de R$131 milhões a Vorcaro

Conversa mostra envio de minuta pelo escritório de Viviane Barci de Moraes em janeiro de 2024

A advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), enviou a Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, a minuta de um contrato de honorários advocatícios que chegaria a R$131.275.071,72 caso fosse cumprido integralmente. A informação foi publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo nesta quarta-feira (1º).

A conversa foi encontrada no telefone celular de Vorcaro. Segundo a reportagem, Viviane mandou o documento pelo WhatsApp em 17 de janeiro de 2024, às 10h09. Na mensagem, escreveu: “Bom dia! Segue a minuta do contrato. Abraço”. Cinco dias depois, em 22 de janeiro, às 11h09, Vorcaro respondeu: “Oi, tudo bem? Como podemos proceder na assinatura? Prefere eletronicamente ou mando as vias físicas assinadas?”.

O contrato previa o pagamento de R$3,6 milhões mensais ao escritório Barci de Moraes Associados durante três anos. A soma total, até o começo de 2027, chegaria a R$131,2 milhões. A Receita Federal registrou pagamentos de R$80,2 milhões do Banco Master ao escritório de Viviane durante 2024 e 2025.

O valor já tinha sido divulgado em março pelo Poder360, que publicou detalhes sobre a relação contratual entre o Banco Master e o escritório da mulher do ministro do STF. O contrato, no entanto, nunca foi divulgado integralmente. Dados parciais haviam sido publicados em dezembro pela jornalista Malu Gaspar.

De acordo com as informações publicadas, a assinatura do contrato ocorreu antes da representação dos interesses do Banco Master junto ao Banco Central, à Receita Federal e ao Congresso Nacional. O caso passou a chamar atenção por envolver um banco que posteriormente seria alvo de uma das maiores investigações recentes do sistema financeiro brasileiro e a família de um ministro do Supremo.

Em nota divulgada anteriormente, Viviane afirmou ter realizado 94 reuniões de trabalho com o Master. Segundo a advogada, foram 79 reuniões presenciais na sede do banco, com duração de três horas cada uma; 13 reuniões com a presidência da instituição, duas presenciais na sede do escritório e 11 por videoconferência, com cerca de duas horas cada; além de duas reuniões por videoconferência com o setor jurídico do Master, também com duração aproximada de duas horas.

O escritório também afirmou ter elaborado 36 pareceres e opiniões legais sobre temas previdenciários, contratuais, regulatórios, trabalhistas, de compliance, proteção de dados e crédito. Segundo a manifestação, o contrato foi encerrado em novembro de 2025, quando o Banco Master entrou em liquidação extrajudicial.

Em março de 2026, Viviane disse que a consultoria prestada ao Master se concentrou na implementação de mecanismos de compliance e na revisão do código de ética e conduta da instituição. O Código de Ética do Banco Master, segundo a reportagem, foi elaborado pela advogada Ana Claudia Consani de Moraes, cunhada de Alexandre de Moraes e consultora no escritório de Viviane.

O documento, de 34 páginas, foi publicado pelo próprio banco. A reportagem apontou erro na página 17 do texto. No trecho citado, aparece a orientação “você não deve – impedir que sejam utilizadas informações inverídicas e atividades de negociação fraudulentas pelo colaborador”. A formulação correta seria a oposta: impedir o uso de informações falsas e de negociações fraudulentas. O documento tem data de março de 2025, quando o escritório já prestava serviços ao Banco Master.

O escritório Barci de Moraes Associados informou ao Estado de S. Paulo que não comenta tratativas envolvendo clientes. O Poder360 afirmou ter procurado Viviane Barci de Moraes sobre o caso, mas disse não ter recebido resposta até a publicação da matéria.

Em dezembro de 2025, o gabinete de Alexandre de Moraes declarou que o escritório de Viviane não atuou na operação de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB).

Daniel Vorcaro voltou a ser preso no início de março de 2026 e está detido na Papudinha, ala do Complexo Prisional da Papuda, em Brasília. Ele havia sido preso pela primeira vez em novembro de 2025, quando tentava deixar o País, um dia antes da primeira fase da Operação Compliance Zero.

A operação foi autorizada inicialmente pela 10ª Vara Federal de Brasília, em novembro de 2025. Na primeira etapa, foram presos provisoriamente os principais executivos ligados ao Banco Master. Ainda em novembro, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região autorizou o uso de tornozeleira eletrônica e o retorno dos investigados para casa.

Em dezembro de 2025, o caso passou ao STF, sob relatoria do ministro Dias Toffoli. Toffoli autorizou a segunda fase da operação em janeiro de 2026, mas deixou a relatoria em 12 de fevereiro. O ministro André Mendonça assumiu o caso.

A primeira fase, em 18 de novembro de 2025, cumpriu sete mandados de prisão e 25 de busca e apreensão em quatro estados e no Distrito Federal. Vorcaro foi solto em 29 de novembro.

Na segunda fase, em 14 de janeiro de 2026, a Polícia Federal fez buscas em endereços ligados ao fundador do Master. Foram apreendidos carros, relógios e dinheiro. Os valores bloqueados ou sequestrados superaram R$5,7 bilhões. A investigação apura o uso de fundos fraudulentos para maquiar os caixas do banco.

Na terceira fase, em 4 de março de 2026, Vorcaro voltou a ser preso. Segundo a Polícia Federal, o ex-banqueiro mantinha um grupo destinado a intimidar adversários e pagava propina a dois funcionários do Banco Central. No mesmo dia, um homem que trabalhava para Vorcaro tentou se matar sob custódia da PF e morreu em 6 de março.

A quarta fase, em 16 de abril, levou à prisão de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. Ele é investigado por suspeita de permitir operações sem lastro com o Banco Master. A PF afirma que Costa recebeu propina de Vorcaro em imóveis de luxo.

A quinta fase, em 7 de maio, teve como alvo o senador Ciro Nogueira (PP-PI). A PF citou pagamento de propina de Vorcaro ao parlamentar, que negou. André Mendonça, relator do caso no STF, afirmou que a relação entre o político e o ex-banqueiro “extrapola a amizade”. Houve bloqueio de R$18,85 milhões.

Na sexta fase, em 14 de maio, foram cumpridos sete mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. O pai de Vorcaro foi preso. Segundo a Polícia Federal, era ele quem articulava o grupo de intimidação e espionagem ligado ao ex-banqueiro.

A sétima fase, em 19 de maio, apurou o vazamento de informações sigilosas ligadas ao Master. Mendonça determinou o afastamento de um perito da PF.

Na oitava fase, em 26 de maio, o ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) foi alvo de mandados de busca e apreensão. A investigação apura suspeita de crimes envolvendo o Banco Master e o Rioprevidência. Segundo a PF, o total movimentado é de R$3 bilhões.

A nona fase, em 18 de junho, atingiu o senador Jaques Wagner (PT-BA), alvo de medidas cautelares autorizadas por André Mendonça. O ministro proibiu o parlamentar de atuar junto a empresas ligadas ao caso Master e de falar com investigados, com exceções familiares.

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