O médico obstetra Ricardo Herbet Jones, conhecido como Ric Jones, realizou uma palestra na 55ª Universidade de Férias do Partido da Causa Operária (PCO), em Sorocaba (SP), durante a programação do curso A história do Irã e da República Islâmica, ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO e pré-candidato à Presidência da República.
Ric Jones iniciou sua fala agradecendo o convite do PCO e destacou o caráter incomum de sua presença em uma atividade dedicada à história do Irã. “Quero reconhecer e agradecer a coragem do PCO de convidar uma pessoa como eu para falar num seminário como esse”, afirmou. O médico se definiu como “um comunista da décima primeira hora”, explicando que sua trajetória foi construída principalmente na luta pela transformação da assistência ao parto.
Gaúcho, gremista, formado em ginecologia e obstetrícia, Jones relatou que passou quase 40 anos combatendo o modelo dominante da obstetrícia brasileira. Sua palestra teve como eixo a denúncia de que a medicina, sob o capitalismo, transformou o nascimento em uma operação submetida aos interesses da corporação médica, dos hospitais e do dinheiro.
“A medicina aparentemente é gerida por ciência; na verdade, é gerida fundamentalmente por ideologia e mitologias”, afirmou.
Jones contou que sua ruptura com a obstetrícia tradicional começou ainda nos anos 1980, quando era residente no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Em um plantão, foi chamado para atender uma mulher que estava parindo acocorada no canto de uma sala. Sua reação, segundo ele, foi típica da formação médica: tentou ordenar que ela se levantasse, pediu instrumentos para realizar uma episiotomia e tratou a mulher como alguém incapaz de decidir sobre o próprio parto.
O bebê nasceu antes da intervenção. Tudo correu bem, mas a experiência mostrou ao médico que ele havia agido de forma violenta e desnecessária.
“Eu me dei conta que, se eu não tivesse chegado a tempo, aquele teria sido um maravilhoso parto. E todas as atitudes que eu tomei na atenção ao parto dessa menina, todas sem exceção, foram grosseiras, estúpidas, inadequadas, desrespeitosas e sem nenhum tipo de vinculação com ciência”, afirmou.
A conclusão de Jones foi que a obstetrícia hospitalar reduzia a mulher a objeto da ação médica. O nascimento, em vez de ser tratado como um acontecimento da vida da mulher e da família, passava a ser tratado como propriedade do hospital.
Segundo ele, isso aparece até nas palavras usadas no hospital. Jones criticou o hábito de chamar a mulher de “mãezinha”, retirando dela o nome e, portanto, sua individualidade. Para o obstetra, trata-se de um mecanismo de submissão.
“Primeiro, porque você retira do sujeito o seu nome, a sua nominação, e dá para essa mulher a sua função. A função dela é mãe. Então tu chama ela pela função, não por aquilo que diferencia ela de todas as outras mulheres”, explicou.
A mesma política aparece em procedimentos como trocar a roupa da mulher, depilar seus pelos, colocá-la deitada de costas, afastar acompanhantes, aplicar soro sem necessidade, cortar a vagina, cortar rapidamente o cordão umbilical e retirar o bebê da mãe logo após o nascimento.
“Tudo que a gente vê aí está errado. Nada disso tem evidência científica, nada disso tem suporte na ciência. Nada disso ajuda mães, nada disso ajuda bebês, mas ajuda as instituições, ajuda médicos, hospitais”, afirmou.
Para ele, a medicina não existe fora da sociedade de classes. A prática médica dominante expressa os interesses materiais e sociais da burguesia, isto é, do sistema de hospitais, planos de saúde e indústria farmacêutica.
“A medicina que a gente tem hoje é a medicina da burguesia, a medicina do capitalismo”, declarou. “Se a gente pudesse fazer uma medicina afastada das pressões do sistema capitalista, a expressão dessa prática médica seria irreconhecível pelas pessoas.”
Jones afirmou que a obstetrícia brasileira é uma das expressões mais claras dessa situação. O País tem taxas altíssimas de cesariana, sobretudo na rede privada, não porque as mulheres precisem majoritariamente dessa cirurgia, mas porque o procedimento atende melhor aos interesses do sistema: organiza a escala dos médicos, reduz a incerteza do parto, aumenta o controle hospitalar e amplia o faturamento.
Em hospitais onde trabalhou, afirmou Jones, a taxa de cesarianas chegava a 90%. “Ou seja, 90% das mulheres que iam naquele hospital eram condenadas a ter seus filhos extraídos por uma grande cirurgia que aumenta muitos riscos para ela e para o bebê dela”, disse.
O médico explicou que o medo também orienta a conduta dos obstetras. No parto normal, se tudo dá certo, a mulher e o bebê são vistos como responsáveis pelo sucesso. Se algo dá errado, o médico é atacado. Na cesariana, ao contrário, o médico aparece como aquele que “resolveu” a situação.
“Se eu atender esse parto e der tudo certo, ninguém se lembra de mim. Eu vou ser uma pessoa invisível aqui. Mas se der alguma coisa errada, eu vou ser a pessoa mais importante desse processo e vou ser atacado. Se eu atender uma cesariana, eu posso agradar a mãe, agradar o pai, agradar a avó, o avô, todo mundo presente”, afirmou.
Para Jones, esse sistema produz uma medicina cara, intervencionista e hostil à população. Não por acaso, destacou, a chegada dos médicos cubanos ao Brasil provocou uma reação violenta da corporação médica brasileira. Segundo ele, os cubanos mostravam outra possibilidade de atendimento: uma medicina próxima da população, menos dependente de remédios caros e cirurgias e mais voltada às necessidades reais dos pacientes.
“O grande problema que a corporação médica teve com a chegada dos médicos cubanos aqui é que os médicos cubanos mostravam uma alternativa para a visão da medicina brasileira contemporânea”, disse.
Jones também falou sobre sua prisão. O médico foi condenado em um caso envolvendo um parto domiciliar no qual, segundo ele, o bebê nasceu bem, mas morreu depois no hospital em razão de uma pneumonia congênita. Para Jones, a responsabilidade foi deslocada para o atendimento em casa, preservando o hospital e a corporação médica.
“Quando você não tem capacidade para lutar contra uma ideia, atira no mensageiro”, afirmou.
O obstetra disse que já esperava uma reação desse tipo. Segundo ele, sua atuação colocava em questão não apenas práticas isoladas, mas o poder social de uma categoria inteira. Ao defender que médicos não deveriam ser os principais responsáveis pelo parto normal, mas sim profissionais como enfermeiras obstétricas e parteiras, Jones atingiu um dos pontos mais sensíveis da corporação médica: o controle sobre um campo de grande prestígio e grande rendimento.
“Eu sabia que aquele que fosse colocar o guiso no pescoço do gato ia sair, no mínimo, muito arranhado”, afirmou. “Eu sabia que a corporação médica jamais me perdoaria pela ousadia de fazer o que eu fiz, mais do que pela ousadia de dizer o que eu disse.”
Jones explicou que passou a atender partos de acordo com a decisão da mulher. Quando uma gestante perguntava o que era parto humanizado, ele respondia que era o parto que ela própria julgasse correto.
“O parto humanizado é como tu achares que ele deve ser. Eu quero que tu fique com essa responsabilidade de decidir o parto que tu queres”, afirmou.





