Teve início, nesta segunda-feira (29), o curso A história do Irã e da República Islâmica, ministrado por Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO e pré-candidato à Presidência da República. A atividade integra a 55ª Universidade de Férias do Partido da Causa Operária (PCO) e da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR), realizada em Sorocaba (SP).
O curso, promovido pela Universidade Marxista, pode ser acompanhado presencialmente ou pela Internet. Os interessados podem se inscrever pelo sítio unimarxista.org.br.
Na abertura da aula, Pimenta destacou que a Universidade de Férias é a atividade mais tradicional de formação política da esquerda brasileira. Ele também ressaltou que o curso sobre o Irã tem importância imediata diante da guerra dos Estados Unidos contra a República Islâmica e da campanha internacional contra o país.
Ao iniciar a exposição, o dirigente afirmou que a importância do curso é evidente diante da situação internacional. O Irã está no centro da política mundial, particularmente após a agressão dos Estados Unidos e de “Israel” contra o país.
“O tema está em uma atualidade muito grande, porque nós temos ali a guerra dos Estados Unidos contra o Irã. Então, a princípio, do ponto de vista da atualidade, o curso já seria autoexplicativo. Mas não é bem assim”, explicou.
Segundo Pimenta, o caso iraniano é um dos temas sobre os quais existe maior falsificação política organizada pelo imperialismo. Para ele, a campanha contra o Irã só encontra paralelo na propaganda feita em torno do chamado Estado de “Israel”.
“O problema político do Irã é um dos temas em torno do qual nós temos a maior operação planejada de desinformação no planeta. Talvez o caso iraniano só seja superado pela desinformação no que diz respeito ao chamado Estado de Israel”, afirmou.
Pimenta comparou a situação à propaganda em torno da Palestina. Segundo ele, os acontecimentos em Gaza têm permitido que setores cada vez mais amplos compreendam melhor a história da opressão contra o povo palestino.
“No caso do sionismo, as pessoas estão aprendendo, a partir do que está acontecendo em Gaza, a entender o que está acontecendo naquela região. Durante muitas décadas, a imprensa e os meios acadêmicos fizeram tudo possível para obscurecer a história”, disse.
Ele afirmou que a história da Palestina mostra como o imperialismo britânico organizou a ocupação do território palestino por colonos europeus, sob a proteção das grandes potências.
“É uma história em que o imperialismo, principalmente o imperialismo britânico, organizou a tomada de todo o país, a Palestina, por imigrantes europeus. Criaram colônias naquela região, protegidas pelo imperialismo, e, quando as pessoas se deram conta, a situação do povo palestino já era bastante desesperada”, explicou.
Pimenta afirmou que a campanha contra o Irã apresenta a Revolução de 1979 como um desastre e a República Islâmica como uma ditadura pior do que o regime do xá Reza Pahlavi, derrubado pela mobilização popular.
“Sobre o Irã, a desinformação é muito grande. Se você pegar qualquer livro sobre a história da República Islâmica, você vai acabar se convencendo de que a Revolução de 1979 foi um desastre e que o que existe no Irã hoje é um regime político e uma sociedade monstruosos”, disse.
Segundo ele, a literatura burguesa acusa os iranianos de “fanatismo religioso”, de viver sob uma “ditadura burocrática” e de promover assassinatos em massa, sem apresentar a história real do país e de sua revolução.
“Normalmente, eu preparo esse curso com vários livros sobre a história do Irã. Se você não conhecesse nada do assunto, no final da leitura ficaria com a impressão de que a República Islâmica fundada pela Revolução de 1979 era uma ditadura pior do que a ditadura do xá Reza Pahlavi, que foi derrubada pela Revolução. Tal é o nível de desinformação que existe sobre o tema”, afirmou.
Por esse motivo, Pimenta explicou que o curso não começará diretamente pela história recente, mas pela formação histórica do Irã. Segundo ele, é necessário compreender que país é esse, de onde surgiu, como se desenvolveu e por que se transformou em uma das principais forças da luta anti-imperialista.
“Nós achamos importante não pegar simplesmente a história recente do Irã, que é um tema essencial para o nosso curso, mas dar uma visão panorâmica, ainda que resumida, da história pregressa do Irã. Para a gente ter uma ideia do que nós estamos tratando aqui. Que país é esse? De onde ele veio? Como se formou? Como se transformou num país cuja religião é o islamismo?”, disse.
Na primeira aula, Pimenta destacou que a história iraniana não pode ser compreendida a partir dos esquemas superficiais utilizados contra o país. O Irã é uma civilização milenar, com pelo menos cinco mil anos de desenvolvimento histórico.
“Nós temos que levar em consideração que, na região que hoje é o Irã, nós temos pelo menos cinco mil anos de civilização. É uma coisa que, para nós, que somos um país de poucos séculos, é fora do normal. Uma coisa difícil até de imaginar”, afirmou.
Pimenta ressaltou a complexidade do país, que atravessou diferentes dinastias, capitais, povos e formas políticas. Segundo ele, a história do Irã é marcada por uma enorme variedade de experiências.
“Para vocês terem ideia, o Irã é um país que teve 32 capitais. Imaginem só isso. Até hoje é um país multinacional, com várias minorias étnicas convivendo dentro do país. Portanto, é um país muito complexo”, explicou.
O pré-candidato à Presidência também destacou que o Irã possui uma longa tradição de revoltas populares. Segundo ele, dezenas de monarcas iranianos foram derrubados por mobilizações internas.
“Dos monarcas, dos xás iranianos, 40 deles foram derrubados por revoltas populares. Quer dizer, o país tem uma larga tradição de mobilização, de insurgência, de luta. Alguém já disse que, em algum momento, o Irã seria o país mais revolucionário do mundo, pelo número de revoltas que o país já teve que enfrentar até hoje”, afirmou.
Além das revoltas internas, Pimenta lembrou que o país também foi invadido inúmeras vezes, o que torna sua história ainda mais complexa. Para ele, o curso precisará destacar os principais momentos desse processo, sem a pretensão de esgotar todos os acontecimentos.
“O país foi invadido inúmeras vezes. Então, é uma história bastante complexa. Nós vamos destacar algumas coisas, discutir um pouco essa cronologia, para que a gente tenha ideia da variedade da história iraniana. Obviamente, não dá para entrar no detalhe de tudo, porque daí sairia um curso muito mais longo”, disse.
Pimenta apresentou o mapa da região onde se desenvolveu a história iraniana, abrangendo a Ásia Ocidental, o Golfo Pérsico, o Iraque, a Turquia, o Afeganistão, o Paquistão e demais países próximos. Ele também criticou as divisões artificiais impostas pelo imperialismo britânico na região.
Segundo Pimenta, várias monarquias do Golfo foram criadas de maneira artificial para facilitar o controle político, militar e econômico do petróleo. Ele afirmou que países minúsculos e ricos em petróleo foram separados para impedir a formação de uma grande nação árabe ou de Estados mais fortes na região.
“Os ingleses desenharam esse mapa. Todos esses países são muito ricos em petróleo. Então, ao invés de deixar o petróleo na mão, por exemplo, da Arábia Saudita ou de um país árabe unificado, que pegasse a Síria, o Iraque, a Jordânia etc., dividiu-se em vários países com o objetivo de controlar política, militar e economicamente”, afirmou.
Pimenta também citou o caso do Paquistão, apresentado por ele como uma criação artificial do imperialismo britânico a partir da divisão da Índia.
“O Paquistão deveria ser parte da Índia e foi criado também artificialmente pelos britânicos”, disse.
Ao tratar da região do Irã e do Iraque, Pimenta afirmou que ela é considerada, do ponto de vista histórico, um dos berços da civilização. Ele ressaltou, no entanto, que a fórmula exige precisão, pois também existiram civilizações antigas na Índia, na China, na Coreia e no Japão.
“Essa região, principalmente a região do Irã e do Iraque, é considerada na história como sendo o berço da civilização. É um pouco exagerada essa ideia, porque, se a gente descer no mapa, vamos ter a Índia, que é outra civilização, e, mais para o Oriente, vamos encontrar a China, a Coreia e o Japão, que também são civilizações antigas”, afirmou.
Apesar disso, Pimenta destacou que a região pode ser compreendida como uma das origens da civilização ocidental. Segundo ele, os gregos, normalmente apresentados como ponto de partida da civilização ocidental, foram profundamente influenciados pelas civilizações do Oriente Médio.
“Podemos dizer que isso aqui é o berço da civilização ocidental. Uma boa parte da historiografia fala que a civilização ocidental começa com os gregos. Isso não é exatamente correto, porque, embora os gregos tenham uma importância muito grande, eles foram influenciados por essas civilizações, em particular pelo Egito”, disse.
O presidente nacional do PCO explicou que parte importante da mitologia grega, dos deuses e das formas culturais da Grécia antiga, veio dessa região. Por isso, a ligação entre o Oriente Médio, os gregos e a civilização greco-romana é concreta.
“Há uma ligação concreta e importante entre as civilizações do Oriente Médio, os gregos e a civilização ocidental. É uma civilização, como se costuma dizer, greco-romana. Quando se diz que o Ocidente começou aí, isso é verdadeiro em mais de um sentido”, afirmou.
Ainda na aula introdutória, Pimenta destacou a importância religiosa e cultural do antigo Irã. Segundo ele, o primeiro império iraniano desenvolveu, pelo que se conhece, uma das primeiras religiões monoteístas do planeta.
“O primeiro império iraniano teve, pelo que se conhece, pelo que foi estudado, a primeira religião monoteísta do planeta”, afirmou.
Pimenta explicou que, tratando-se de um período de milhares de anos atrás, as informações são fragmentadas e muitas questões seguem em debate. Ainda assim, a religião dos antigos iranianos provavelmente exerceu influência decisiva sobre o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.
“A religião dos antigos iranianos provavelmente teria sido a origem de todas essas religiões monoteístas. Ela teria se espalhado pela região, chegado ao Egito, influenciado os judeus, um povo pequenininho ali da Palestina. A religião dos judeus teria passado para o cristianismo e os muçulmanos teriam erguido sua religião sobre a base tanto do judaísmo como do cristianismo. Então, a influência cultural é muito grande”, explicou.
A primeira aula do curso, portanto, situou o Irã como uma das grandes civilizações da história, marcada por cinco mil anos de desenvolvimento, sucessivas dinastias, revoltas populares, invasões estrangeiras e enorme influência cultural, política e religiosa. A partir dessa base, as próximas aulas tratarão da formação histórica do país até a Revolução de 1979 e a constituição da República Islâmica.
O curso A história do Irã e da República Islâmica integra a programação da 55ª Universidade de Férias do PCO e da AJR. As inscrições podem ser feitas pelo sítio unimarxista.org.br.





