Vale tudo na investida da burguesia contra o uso de celulares, até a comparação esdrúxula com o cigarro, como faz Felipe Azevedo Moretti no artigo Restringir celulares como restringimos o cigarro, publicado no sítio Outras Palavras na quarta-feira (24).
Antes de mais nada, nem o cigarro nem o celular deveriam ser restringidos ou proibidos, o Estado não deve interferir na vida das pessoas. Quem quiser fumar, que fume. Caberia ao Estado, no máximo, fazer campanhas educativas. Além de, obviamente, oferecer bons serviços de saúde.
Todas as leis repressivas surgem com a “nobre missão” de salvar as pessoas, o resultado, no entanto, é o regime ficar cada vez mais fechado e punir as pessoas por quaisquer motivos.
A abertura do texto diz que “uso excessivo de tecnologia é um dos fatores que explicam a explosão de casos de ansiedade e depressão.” Mas não se pode dizer isso com toda a certeza, pois inúmeros fatores podem concorrer para um quadro depressivo, tais como a pandemia, piora de condições econômicas, falta de perspectiva no futuro, etc.
Ainda na abertura, há um elogio para a censura, diz que “lei que proibiu smartphones nas escolas foi primeiro passo.” E ainda pergunta: “Não seria possível ampliá-la e criar ‘ilhas de presença’, em nome da vida em comum?” Nada mais simples, isso poderia ser feito nas escolas. O problema é que as escolas estão todas deterioradas.
Segundo Moretti, “a rápida disseminação de smartphones, especialmente a partir de 2010, transformou profundamente a nossa forma de viver e se relacionar – com evidências crescentes de que a presença constante destes dispositivos em nosso dia a dia traz repercussões sérias na atenção, no aprendizado e na saúde mental, especialmente entre os mais jovens.”
É preciso ter muita cautela com esse tipo de afirmação, pois o romance impresso, no século XVIII, foi acusado de tornar os jovens alienados e moralmente desviados; o rádio foi acusado de destruir a leitura; a televisão foi acusada de acabar com a conversa em família e incentivar a violência; os videogames foram responsabilizados por comportamentos agressivos; a internet, desde os anos 1990, foi vista por muitos como uma ameaça às relações presenciais, etc.
O texto traz uma profusão de dados, de que o Brasil é um dos países mais conectados do mundo, que a OMS faz esta e aquela recomendação, mas nada disso está na raiz do problema: a necessidade de se manter os jovens despolitizados.
A juventude é um dos setores mais dinâmicos da sociedade e com forte tendência à radicalização, basta citar o “Fora, Collor”, uma campanha iniciada por estudantes secundaristas, em 1992; e as manifestações pelo passe livre em 2013, levando milhares de manifestantes às ruas na capital paulista.
Correlação x causalidade
O autor alega que “parece que estamos nadando contra a corrente. Nos últimos 10 anos, em diversos países do mundo, foram registrados crescimentos alarmantes de sintomas de ansiedade, depressão e taxas de suicídio – principalmente entre os mais jovens. Só no Brasil, entre 2013 e 2023, houve crescimento de cerca de 1.000% nos casos de ansiedade e depressão entre jovens e adolescentes, conforme dados da Rede de Atenção Psicossocial do SUS.”
Esse índice de crescimento de 1000% nos casos de ansiedade é enganoso, pois houve aumento no número de diagnósticos.
Quando se diz que “pela primeira vez na história, inclusive, os índices de ansiedade entre jovens superaram os de adultos” e que “recorrentemente … um fator associado a esses aumentos [seria] o uso excessivo da tecnologia”, é preciso dizer que uma associação não estabelece automaticamente uma causa.
Uma pessoa com depressão tende a ficar mais tempo no quarto e isolada, portanto, ficará mais tempo no celular. A causa do tempo de tela é a depressão, não o contrário.
Censura
Importa dizer que a campanha contra os celulares não é desinteressada. Os mesmos setores que dizem que os celulares prejudicam o aprendizado são os que não investem na educação.
Nas escolas brasileiras, onde os professores estão sobrecarregados e com salários baixos, o celular é o menor dos problemas.
Não se vê na grande imprensa nenhuma campanha para que se coloquem laboratórios nas escolas, aparelhagem para esporte, ou que se remunere adequadamente os professores.
Tudo fica restrito a uma questão lateral: o uso de celulares.
Vale lembrar que esses aparelhos têm inúmeros usos positivos, como aumentar acesso à educação; facilitar comunicação; salvar vidas em emergências; melhorar a produtividade em inúmeras profissões; reduzir o isolamento de idosos; é possível utilizar serviços públicos, etc.
A restrição mundial dos celulares tem a ver com a crise que o imperialismo vem passando, daí a necessidade de se restringir o acesso à informação. Um caso típico é a divulgação dos crimes que “Israel” vem cometendo na Faixa de Gaza.
Não se pode aceitar a afirmação que diz que “se o cigarro precisou ser restringido em ambientes coletivos para proteger a saúde física, é razoável reconhecer que o uso irrestrito de celulares também exige limites claros para resguardar a nossa saúde mental.”
Primeiro que, como já foi dito, o Estado não tem que se intrometer na vida das pessoas. Segundo, a restrição dos cigarros foi uma imposição dos seguros de saúde que querem economizar, não tem nada a ver com a preocupação com a saúde física das pessoas. Por último, não há evidências de que os celulares estão piorando a saúde mental das pessoas. O que piora a vida das pessoas é o capitalismo.




