O identitarismo não se cansa de passar vergonha. Segundo o artigo publicado na Folha de S. Paulo nesta terça-feira (30), a Lei Áurea foi a primeira grande fake news do Brasil, diz Helio Santos. De fato, ainda continuam chegando africanos em tumbeiros ao Brasil, são vendidos e seus senhores têm sobre eles o poder total.
Diz o primeiro parágrafo que, “‘A Lei Áurea tem dois artigos’, começa a explicação de Helio Santos. ‘No primeiro, ‘declara-se extinta a escravidão no Brasil’. O verbo declarar denota muito: não é um legislador que quer realmente abolir três séculos e meio da saga da escravidão. E, no segundo, ‘revogam-se as disposições em contrário’. Essa foi a primeira grande fake news desse país, porque as disposições em contrário estão aqui até hoje.”
Qual é o problema com o verbo declarar? Os identitários adoram encrencar com palavras, como se isso fizesse diferença. E, aliás, por que uma pessoa da classe dominante, especificamente a regente, quereria abolir a escravidão? Só o fez porque foi forçada pelas circunstâncias e, principalmente, pelas lutas dos abolicionistas.
A Lei Áurea não foi uma notícia falsa, e é claro que as coisas não mudaram da noite para o dia, e isso não é peculiaridade brasileira, em qualquer sociedade as mudanças são um processo que leva tempo. Existe desigualdade, sim, mas não é idêntica à da época da escravidão.
O texto informa que Helio Santos lançou seu livro 14 de Maio: Lições de Resistência ao Racismo, na terça-feira (23), e que “mais de 200 pessoas esgotaram os ingressos para o lançamento da obra, entre elas personalidades como os escritores Sueli Carneiro e Tom Farias, colunista da Folha, e os cantores Netinho de Paula e Emicida.”
Se pinçarmos um nome dessa pequena lista como exemplo, Sueli Carneiro, vemos que se trata da coordenadora do Geledés, uma ONG que recebe financiamento do Itaú Educação e Trabalho e do Itaú Social. Um banco quer mudar a estrutura social no País? Os bancos sugam mais da metade do orçamento público e, se o pobre (a maioria negra) carece de serviços de saúde e educação, os principais responsáveis são justamente os bancos. O fato de algumas ONGs receberem dinheiro desses vampiros é um desserviço, serve para limpar a imagem desses inimigos da população.
Currículo
Ao apresentar o escritor, o artigo diz que este “em 1986, ao lado de 49 brancos, foi a única pessoa negra na Comissão dos Notáveis que tinha como objetivo redigir o esboço da Constituição de 1988.” Em seguida, que “foi coordenador do Grupo de Trabalho Interministerial de Valorização da População Negra, chamado de GTI, colegiado que exigia políticas públicas no governo FHC para incrementar o reconhecimento e a participação da comunidade negra. Foi o GTI que colocou o tema das ações afirmativas na agenda nacional.”
FHC foi o governo que completou o trabalho iniciado por Fernando Collor de Mello e destruiu a indústria brasileira, jogou milhões de pessoas no desemprego, na fome e na miséria, a maioria negras. Em que foram efetivas as tais “ações afirmativas”?
Em seu livro, segundo o artigo, Santos, após a abolição, “houve um mero abandono da população negra.” Talvez o autor não tenha se dado conta, mas houve apenas a abolição da escravidão, e não uma revolução socialista no Brasil. As classes não foram abolidas, as condições materiais se mantiveram basicamente as mesmas; logo, não se pode pretender que a situação da população negra se alterasse.
Santos também aponta que “houve um tratamento diferenciado em relação a outros grupos, como os europeus, que tiveram sua imigração financiada, enquanto à população negra foi destinada a criminalização de seus membros e de sua cultura.”
A perseguição se deu porque a população negra continuou desempenhando as mesmas atividades subalternas.
Embora o governo tenha financiado a viagem com a promessa de uma vida próspera, a realidade no campo foi marcada por uma intensa exploração. O principal mecanismo de controle foi o sistema de parceria, que rapidamente colapsou em razão do endividamento forçado dos trabalhadores.
Não resta dúvida de que no Brasil houve discriminação e de que ela ainda existe. No entanto, não adianta ficar remoendo o passado como se o País tivesse cometido um pecado capital e, portanto, tivesse que pagar.
De nada adianta ficar remoendo o passado escravagista quando, hoje, a classe trabalhadora vive sob a escravidão assalariada.
A emancipação do negro só é possível com a emancipação do trabalhador. Enquanto perdurar a divisão de classes, é inútil dizer que “devemos adotar no Brasil algum tipo de política de ação afirmativa – cujo fim é criar uma sociedade democrática substantiva e não teórica.” As “ações afirmativas” não mudam nada de substancial na sociedade, o máximo que a população negra vai conseguir com isso é alguma migalha, e, ainda assim, para uma parcela ínfima.
Outra discussão inútil é ficar remoendo “a origem violenta da mistura étnico-racial brasileira, decorrente de estupros reiterados realizados contra mulheres indígenas e negras escravizadas.” O mundo era, e ainda é, violento. A história humana está repleta de povos que se escravizaram. O Brasil, finalmente, é um país miscigenado, e ninguém deve nada ao passado.
O identitarismo jogou o movimento negro em uma ladainha moralista que não tem para onde ir porque se prende a pequenas reformas e se dissociou do movimento operário, a única força capaz de derrotar a burguesia, extinguir as classes sociais e a opressão que daí decorre.





