A reunião realizada pelo governo federal com representantes da chamada “comunidade judaica”, no dia 28 de janeiro, no Palácio do Planalto, é um fato político da maior gravidade. Apresentado como um encontro para combater o “antissemitismo”, o ato serviu, na realidade, para abrir as portas do governo brasileiro ao sionismo no momento em que o Estado de “Israel” leva adiante o massacre do povo palestino em Gaza.
A própria página oficial do Palácio do Planalto deixa claro o caráter do encontro. Participaram da reunião representantes da Confederação Israelita do Brasil (Conib), rabinos, instituições ligadas à memória do Holocausto, organizações vinculadas a setores da comunidade judaica e ministros do governo Lula. Pelo governo, estiveram presentes Geraldo Alckmin, então presidente em exercício, Gleisi Hoffmann, Macaé Evaristo, Esther Dweck, Maria Laura da Rocha e Clara Ant.
Fica claro que não se tratou de uma reunião ampla com os judeus brasileiros, mas de um encontro com setores ligados, direta ou indiretamente, ao sionismo. A existência de judeus antissionistas, que denunciam o genocídio palestino e se opõem ao Estado colonial de “Israel”, foi praticamente apagada.
Geraldo Alckmin, representante tradicional da direita, afirmou que o encontro traria “bons frutos” e serviria para combater “toda forma de discriminação e de ódio”. O cinismo é evidente. O mesmo discurso de “combate ao ódio” é usado internacionalmente para perseguir militantes, jornalistas, estudantes e organizações que denunciam os crimes de “Israel”. Em todo o mundo, a acusação de antissemitismo virou instrumento para calar a denúncia do genocídio palestino.
O presidente da Conib, Claudio Lottenberg, elogiou a iniciativa do governo e declarou que a comunidade judaica passa por um “período sensível” por causa do crescimento do antissemitismo. A declaração inverte completamente a realidade. O fato mais importante da situação internacional não é uma suposta onda antissemita, mas o massacre sistemático da população palestina por “Israel”, com o apoio dos Estados Unidos e de seus aliados.
A professora Lilia Schwarcz, também presente no encontro, defendeu que a denúncia e a judicialização são importantes e que o tema do antissemitismo deve ser ampliado na educação.
A participação da ministra Macaé Evaristo também é reveladora. Segundo o próprio governo, dois dias antes da reunião em Brasília, a ministra havia cumprido compromissos em São Paulo com organizações da “comunidade judaica”, no marco do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Enquanto isso, o governo brasileiro não organiza uma campanha nacional contra o genocídio em Gaza, não rompe relações diplomáticas com “Israel”, não expulsa o embaixador sionista e não suspende os acordos militares, comerciais e políticos com o regime assassino.
O Holocausto é usado pelo sionismo como escudo para justificar outro crime histórico. Quem utiliza a perseguição sofrida pelos judeus para defender um Estado que bombardeia hospitais, escolas, campos de refugiados e bairros inteiros está profanando essa memória.
A parte mais reveladora da nota do Planalto é a tentativa de apresentar como mérito a aproximação dos governos Lula com “Israel”. O texto oficial recorda que Lula foi o primeiro chefe de Estado brasileiro, no exercício do mandato, a visitar “Israel”, em 2010. Informa ainda que, em 2010, “Israel” se tornou o primeiro país de fora das Américas a ter um acordo comercial com o Mercosul. A nota acrescenta que, entre 2003 e 2008, o intercâmbio comercial entre Brasil e “Israel” mais que triplicou, saltando de US$506 milhões para US$1,6 bilhão, fazendo do Brasil o principal parceiro comercial de “Israel” na América Latina.
O próprio governo brasileiro apresenta como realização política a ampliação das relações com o Estado sionista. Isso mostra que a política externa brasileira, apesar de declarações ocasionais em defesa dos palestinos, manteve laços profundos com “Israel”. E manter relações normais com um Estado genocida é, na prática, dar sustentação a esse Estado.
A reunião de janeiro mostra também a força do sionismo dentro da esquerda brasileira. Figuras próximas ao governo e setores do PT atuam para bloquear uma política consequente contra “Israel”. A presença de Geraldo Alckmin no encontro não surpreende; ele representa a direita tradicional. O problema é que ministros e dirigentes ligados ao PT também se colocaram a serviço dessa operação política.
O resultado é que, em meio ao genocídio, o governo não convocou uma reunião nacional com organizações palestinas e movimentos de solidariedade ao povo palestino. Não reuniu centrais sindicais, partidos, entidades estudantis e movimentos populares para organizar uma campanha pelo rompimento com “Israel”. Ao contrário, organizou uma reunião com setores que pressionam o Estado brasileiro a perseguir a luta antissionista.
Isso explica, em parte, a fraqueza do movimento de defesa da Palestina no Brasil. A maioria da esquerda nacional está paralisada diante do sionismo. Em vez de organizar a mobilização popular, procura conciliar com os amigos brasileiros de “Israel”. Em vez de denunciar os criminosos, aceita discutir os termos da perseguição aos que denunciam o crime.
A luta contra o antissemitismo não tem nada a ver com defender “Israel”. Pelo contrário. O sionismo é o maior responsável por colocar os judeus do mundo inteiro como reféns da política criminosa de um Estado colonial. Ao identificar todos os judeus com “Israel”, o sionismo presta um serviço aos antissemitas.





