Editorial

Guerra civil no bolsonarismo?

Crise aparece em um momento em que a burguesia procura enfraquecer, ao mesmo tempo, as duas candidaturas que concentram a disputa eleitoral

Michelle Bolsonaro divulgou, nesta semana, um vídeo em que critica Flávio Bolsonaro, atual candidato presidencial do bolsonarismo. A gravação, relativamente extensa, é uma intervenção pública em meio à campanha eleitoral. O episódio abriu uma crise dentro do campo bolsonarista e passou a ser explorado pela imprensa burguesa como sinal de uma disputa pela candidatura da direita.

A ex-primeira-dama do governo Jair Bolsonaro não atacou um adversário externo. Sua crítica foi dirigida ao próprio candidato escolhido pelo bolsonarismo. A partir daí, começaram as especulações: parte da imprensa burguesa passou a dizer que Michelle quer substituir Flávio Bolsonaro; outra parte procurou interpretar a crise como uma demonstração de que o bolsonarismo seria hostil às mulheres.

Esse tipo de explicação não toca no centro do problema. A crise no bolsonarismo aparece em um momento em que a burguesia procura enfraquecer, ao mesmo tempo, as duas candidaturas que concentram a disputa eleitoral: Lula, pelo lado da esquerda, e Flávio Bolsonaro, pelo lado da direita bolsonarista. O ataque de Michelle, qualquer que seja sua motivação pessoal, serve a esse movimento.

A revista Veja deu uma demonstração clara dessa política. Primeiro, colocou em sua capa Jaques Wagner, com o título A vez do PT, indicando uma ofensiva contra a candidatura de Lula. Em seguida, deu destaque a Michelle Bolsonaro, explorando a crise no bolsonarismo. A burguesia bate nos dois lados para tentar abrir espaço a uma candidatura de centro, a chamada terceira via.

No caso do PT, a manobra procura criar uma alternativa “pela esquerda”, isto é, um nome mais aceitável aos grandes capitalistas do que Lula. No caso do bolsonarismo, a manobra procura criar uma alternativa “pela direita”, um candidato que possa herdar parte do eleitorado bolsonarista sem carregar o peso político de Jair Bolsonaro e de sua família.

A política da terceira via não depende apenas de lançar imediatamente um nome forte. Ela também consiste em desgastar os candidatos principais. Se a burguesia não consegue impor sua candidatura diretamente, procura enfraquecer Lula e Flávio Bolsonaro. Dessa forma, mesmo que um deles vença, chega ao governo sob pressão, cercado por chantagens e incapaz de enfrentar os interesses do grande capital.

É nesse sentido que a crise interna no bolsonarismo tem importância nacional. Um ataque público de Michelle Bolsonaro contra Flávio Bolsonaro, no meio da campanha, desorganiza o campo bolsonarista, alimenta a imprensa burguesa e favorece os setores da direita que procuram substituir o candidato ligado diretamente a Jair Bolsonaro.

Esses setores já se movimentam. Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos atacam Flávio Bolsonaro ou tentam se apresentar como alternativas. Renan Santos, embora tenha peso eleitoral pequeno, procura aparecer como o verdadeiro candidato da direita. Rodrigo Constantino, que voltou a intervir no debate político, afirmou que Flávio Bolsonaro não é o único candidato capaz de derrotar Lula, mas o único incapaz de fazê-lo.

A frase resume a posição desse setor da direita. O objetivo é convencer o eleitorado bolsonarista de que Flávio Bolsonaro não tem condições de vencer e de que a direita deve buscar outro nome. Na prática, trata-se da política da terceira via dentro do próprio campo bolsonarista.

O núcleo ligado a Jair Bolsonaro percebe essa operação. Influenciadores bolsonaristas passaram a atacar Zema, Caiado, Renan Santos, Constantino e outros nomes da direita, acusando-os de favorecer a terceira via. A disputa dtornou-se uma guerra aberta entre o bolsonarismo ligado à família Bolsonaro e a direita que tenta ocupar seu lugar.

O caso da Colômbia mostra que esse tipo de operação não deve ser subestimado. Quando viu que seu candidato tradicional não tinha força para vencer, a burguesia colombiana mudou de posição e apoiou uma candidatura de extrema direita, conseguindo derrotar a esquerda. No Brasil, o quadro eleitoral é mais consolidado, mas a burguesia trabalha para produzir uma saída semelhante: uma candidatura alternativa que se apresente como solução contra Lula e contra o bolsonarismo.

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