Editorial

Burguesia abre o jogo

Estadão pede substituição de Flávio Bolsonaro e escancara articulação da burguesia para chegar às eleições com candidato próprio

O jornal dos banqueiros paulistas resolveu falar às claras. Sob o título Uma chance de ouro para a direita, o editorial do Estadão de 20 de julho afirma que a candidatura de Flávio Bolsonaro vive seu pior momento, cita a pesquisa Genial/Quaest que mostra o senador em queda e Lula em alta e conclui que já passou da hora de discutir se o candidato do PL é mesmo o nome adequado para tirar o PT do governo.

A articulação vem sendo montada há meses. Primeiro tentaram uma chapa com Tarcísio de Freitas e Michel Temer. Como não emplacou, passaram a empurrar Ronaldo Caiado com o mesmo Temer. A cada rodada de pesquisas desfavorável ao senador, aparecem novas colunas e novas insinuações sobre investigações, sobre a relação de Flávio com milicianos e sobre o banqueiro Daniel Vorcaro. Tudo isso serve para forçar uma desistência, e a burguesia não vai parar de tentar até que o prazo de registro se esgote.

O problema dessa terceira via é que ela não tem votos. Caiado não tem popularidade para derrotar Lula, e o Estadão sabe disso, tanto que não escreve o nome de quem deveria substituir Flávio. O editorial pede que a direita se articule para oferecer uma candidatura capaz de vencer, sem apontar uma única. Nem Flávio nem o grupo em torno dele vão abandonar a disputa por causa de coluna de jornal e de pesquisa de intenção de voto. Jair Bolsonaro já mandou divulgar carta reafirmando o apoio ao filho, e por razões que o próprio Estadão explicita: manter um Bolsonaro na disputa impede que outro setor da direita fique com o espólio.

Nas condições atuais, portanto, a direita vai acabar tendo de apoiar Flávio contra Lula, o que não significa que a burguesia tenha desistido de emplacar o seu candidato. Ela trabalha com prazos mais longos que os do calendário eleitoral e continuará operando antes de agosto e também depois da eleição.

A pressão, além disso, não se dirige a um lado só. Enquanto Michelle Bolsonaro sabota a pré-campanha do enteado em praça pública, a fraude no INSS reaparece com citações a aliados do governo, entre eles Jaques Wagner. Os dois candidatos apanham ao mesmo tempo, a poucas semanas do prazo de registro, e sem que nenhum substituto seja apresentado, o que não se explica pelo simples cálculo de quem vence a eleição.

Merval Pereira dá a chave na coluna Ciranda política, publicada no dia anterior n’O Globo, ao escrever que, vença quem vencer, “seremos reféns do passado até 2030”. Nesse sentido, o que a burguesia prepara para este ano é uma eleição da qual o vencedor saia desmoralizado antes mesmo de tomar posse, sem autoridade para governar e permanentemente exposto à chantagem do imperialismo.

* A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião deste Diário

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