O Irã foi eliminado da Copa do Mundo de 2026 neste sábado (27), depois do empate em 3 a 3 entre Argélia e Áustria, no Kansas City Stadium, pelo Grupo J. O resultado classificou as duas seleções e tirou os iranianos da disputa por uma vaga entre os melhores terceiros colocados.
A eliminação não ocorreu apenas dentro de campo. Desde antes do início do torneio, a seleção iraniana enfrentou uma série de obstáculos criados pelo governo dos Estados Unidos, país que sedia parte da Copa. Foram vistos negados a dirigentes e integrantes da comissão técnica, atraso na liberação dos documentos dos jogadores, mudança forçada da base de treinamento para o México, restrições de deslocamento antes e depois das partidas, impedimento de entrada de jornalistas e até de um árbitro escalado para o Mundial.
Dentro de campo, o Irã também foi prejudicado. No empate em 1 a 1 contra o Egito, pelo Grupo G, a seleção teve um gol de Khalilzadeh anulado nos acréscimos por impedimento. Nos segundos finais, Ezatolahi ainda acertou o travessão. O resultado deixou o Egito em segundo lugar e obrigou o Irã a aguardar a definição dos outros grupos.
Para o Irã avançar, bastava que Argélia ou Áustria vencesse. O empate entre as duas seleções, no entanto, deu quatro pontos à Argélia, que ultrapassou os iranianos na classificação geral dos terceiros colocados.
O lance decisivo ocorreu nos acréscimos. O árbitro indicou quatro minutos, mas deixou a partida seguir além do tempo assinalado. A Argélia fez 3 a 2 aos 90+3, placar que eliminava a Áustria e classificava o Irã. Mesmo assim, o jogo continuou. Aos 90+5, Kalajdžić marcou de cabeça para a Áustria, fez 3 a 3 e tirou a vaga iraniana.
Segundo o jornal norte-americano New York Times, mais de 12 membros da comissão técnica e dirigentes da federação iraniana tiveram seus vistos negados. Entre os barrados estavam o presidente da federação, Mehdi Taj, e o vice-presidente Mehdi Mohammed Nabi. Todos os jogadores receberam autorização para entrar nos Estados Unidos, mas parte importante da estrutura da seleção ficou impedida de viajar.
O técnico Amir Ghalenoei e o capitão Mehdi Taremi reclamaram mais de uma vez que a seleção viajou sem funcionários de logística, roupeiros e assessores de imprensa. Todos tiveram os vistos recusados. A federação iraniana classificou as negativas como “comportamento vingativo”, voltado a impedir a entrada de funcionários administrativos e de gestão da equipe.
Os jogadores também sofreram com a demora. Os vistos do elenco só foram liberados uma semana antes da primeira partida da fase de grupos. Ghalenoei afirmou que os Estados Unidos negaram o pedido para que a delegação chegasse ao país e permanecesse por duas semanas antes do início do torneio. O treinador declarou que a seleção foi tratada de forma muito injusta e lembrou que essa foi a terceira vez que a equipe sofreu com esse tipo de barreira.
Base transferida para o México
O Irã pretendia fazer sua preparação em Tucson, no estado do Arizona. A seleção, no entanto, foi levada a transferir sua base para a fronteira mexicana, por sugestão da FIFA. Antes disso, a entidade já tinha negado um pedido para que todos os jogos do Irã fossem transferidos para o México.
A presidente mexicana Claudia Sheinbaum afirmou que os Estados Unidos “não querem que a seleção iraniana pernoite” em território norte-americano. Com isso, os iranianos passaram a cumprir um regime especial de deslocamentos, entrando nos Estados Unidos apenas para as partidas e deixando o país logo depois.
O regulamento da Copa prevê, em seu artigo 18.3, que as seleções viajem da base ao local do jogo no dia anterior à partida e, em casos excepcionais, dois dias antes. Na prática, essa regra foi aplicada de forma rígida contra o Irã. Para o jogo contra o Egito, o Departamento de Segurança Interna disse que estava “flexibilizando” as restrições, ao permitir a entrada dois dias antes. Mesmo assim, a delegação foi obrigada a deixar os Estados Unidos logo após a partida.
Taremi reclamou de ter de retornar a Tijuana imediatamente antes e depois de cada jogo, sem tempo adequado de recuperação. Ghalenoei afirmou que o deslocamento até o aeroporto levava cerca de três horas, agravando o desgaste físico dos jogadores durante a fase de grupos.
A perseguição atingiu até casos individuais. O jogador Mehdi Torabi teve de ir ao consulado norte-americano em Tijuana para conseguir um novo visto depois da primeira partida.
Jornalistas e árbitro também foram barrados
As restrições não se limitaram à delegação iraniana. Jornalistas também enfrentaram recusas de visto ou autorizações de entrada única. O prefeito de Nova Iorque, Zohran Mamdani, criticou a negação de vistos a jornalistas e integrantes das comissões técnicas, além da concessão de autorizações de apenas um dia para seleções específicas. Segundo ele, a prática contraria o espírito do torneio.
O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan também foi impedido de entrar nos Estados Unidos. Com isso, não pôde treinar nem apitar na Copa. A FIFA afirmou que não se envolve na concessão de vistos pelo país-sede.
Os problemas já apareciam antes do torneio. Dirigentes iranianos quase ficaram fora do sorteio de dezembro por dificuldades com vistos. Em abril, o presidente da federação, Mehdi Taj, foi barrado na fronteira quando viajava ao Congresso da FIFA em Vancouver, no Canadá. O ministro das Relações Exteriores canadense classificou o episódio como “não intencional”.
A hostilidade também apareceu nas declarações oficiais. Um funcionário do Departamento de Estado afirmou que os vistos necessários tinham sido emitidos, mas acrescentou que os Estados Unidos não permitiriam que a seleção iraniana “abusasse do sistema para infiltrar terroristas” no país.
Provocação em Seattle
O jogo entre Egito e Irã, em Seattle, também foi marcado por uma provocação política. A cidade designou a partida como Pride Match, coincidindo com o fim de semana do orgulho LGBT. A federação iraniana pediu à FIFA que impedisse cerimônias, atividades e símbolos de apoio ao movimento LGBT dentro e ao redor do estádio.
A FIFA rejeitou o pedido e autorizou bandeiras do arco-íris em todas as partidas. Ao mesmo tempo, manteve o veto à bandeira pré-revolucionária do Irã, com o leão e o sol, classificada como símbolo político. A decisão foi confirmada depois de uma audiência em Los Angeles.
O quadro geral foi de intimidação. Mais de 120 organizações de defesa dos imigrantes emitiram um alerta de viagem afirmando que torcedores, jogadores e jornalistas corriam risco de violações durante a Copa, em meio ao endurecimento das políticas contra imigrantes. O governo norte-americano confirmou que agentes do ICE estariam presentes nos estádios.
O jogo que tirou o Irã
A partida entre Argélia e Áustria foi uma das mais movimentadas da Copa. A Áustria abriu o placar aos 28 minutos, quando Alaba lançou Arnautović em profundidade. O atacante ganhou da defesa argelina e bateu fora do alcance do goleiro Benbot.
A Argélia respondeu no fim do primeiro tempo. Chaibi acertou a trave direita e, pouco depois, Belghali aproveitou jogada pela direita, avançou pela linha de fundo, cortou para dentro e bateu no canto curto de Schlager, empatando aos 41.
No segundo tempo, a Áustria voltou a ficar na frente aos 55 minutos. Laimer avançou pela direita e tocou para a entrada da área. Sabitzer apareceu livre e finalizou de primeira para fazer 2 a 1. Cinco minutos depois, Mahrez empatou para a Argélia.
O jogo seguiu empatado até os acréscimos. Aos 90+3, Mahrez marcou seu segundo gol na partida e virou para a Argélia. Naquele momento, o Irã avançava. Mas, com a partida já além dos quatro minutos indicados, Sabitzer cruzou da esquerda, Gregoritsch ajeitou de cabeça e Kalajdžić completou para o gol, fazendo 3 a 3.
O empate classificou as duas seleções. A Áustria ficou em segundo lugar no grupo por saldo de gols e enfrentará a Espanha na segunda fase. A Argélia avançou como terceira colocada e jogará contra a Suíça. A Áustria voltou a uma fase eliminatória de Copa pela primeira vez desde 1982.
Mesma campanha, destinos diferentes
Argélia, Áustria e Irã terminaram a fase de grupos com a mesma campanha: uma vitória, um empate e uma derrota. A diferença veio nos critérios de desempate e na classificação geral dos terceiros colocados.
No jogo de Kansas City, a Argélia teve 60% de posse de bola contra 40% da Áustria. As duas seleções finalizaram 11 vezes. A Argélia acertou cinco chutes no gol, enquanto a Áustria acertou quatro. Os gols foram marcados por Arnautović, Belghali, Sabitzer, Mahrez, duas vezes, e Kalajdžić.
O Irã caiu apesar de ter pontuado nos três jogos. Primeiro, teve um gol anulado nos acréscimos contra o Egito e acertou o travessão nos segundos finais. Depois, perdeu a vaga em um empate definido no minuto além do acréscimo indicado pela arbitragem. Fora de campo, chegou ao torneio desfalcado em sua comissão e sob restrições impostas pelo país-sede.
Centenas de pessoas que acompanhavam ao jogo pela CazéTV classificaram o jogo como uma “armação”, indicando que os dois times fizeram um pacto para que passassem de fase e desclassificasse o Irã.
Demais jogos do dia
Também pelo Grupo J, a Argentina venceu a Jordânia por 3 a 1 e fechou a fase de grupos com 100% de aproveitamento. Lo Celso abriu o placar aos 19 minutos, Lautaro Martínez ampliou de pênalti aos 32, Al-Tamari descontou para a Jordânia, e Messi, que entrou no segundo tempo, marcou aos 80.
No Grupo G, a Bélgica goleou a Nova Zelândia por 5 a 1. Trossard marcou duas vezes, De Bruyne, Lukaku e Saelemaekers completaram. Just fez o gol dos neozelandeses. A Bélgica terminou em primeiro lugar. Lukaku chegou a seis gols em Copas e se tornou o maior artilheiro belga na competição.
No mesmo grupo, Egito e Irã empataram em 1 a 1. Saber marcou para os egípcios logo aos cinco minutos, e Rezaeian empatou aos 14. O Egito ficou com a segunda posição.
Pelo Grupo K, Colômbia e Portugal empataram em 0 a 0, resultado que definiu as posições das duas seleções, já classificadas. No outro jogo, a República Democrática do Congo venceu o Uzbequistão por 3 a 1. Shomurodov abriu o placar para os uzbeques, mas Wissa, duas vezes, e Mayele viraram a partida. A seleção congolesa avançou pela primeira vez à fase eliminatória de uma Copa.
No Grupo L, a Inglaterra venceu o Panamá por 2 a 0, com gols de Bellingham e Kane. O centroavante chegou a 11 gols em Copas, superando Gary Lineker como maior artilheiro inglês no torneio. A Inglaterra terminou em primeiro lugar.
A Croácia venceu Gana por 2 a 1. Sučić abriu o placar, Luckassen empatou para os ganeses, e Vlašić marcou de cabeça aos 83 minutos. A Croácia ficou em segundo lugar, atrás da Inglaterra, e Gana também avançou como terceira colocada.





