Governo Lula

Um balanço fantasioso de uma política que fracassou

Artigo transforma a eleição em salvação nacional e faz balanço triunfalista de um governo que capitulou diante da direita

A jornalista Hildegard Angel publicou, no Brasil 247, na sexta-feira (20), o artigo Explode nas urnas o coração do Brasil, no qual defende o voto em Lula e em candidatos ligados ao governo como um momento decisivo para “salvar” o País. O texto apresenta as eleições de 4 de outubro como uma espécie de ato redentor, capaz de barrar a direita e confirmar os supostos êxitos sociais e econômicos dos últimos anos.

Logo na abertura, a autora escreve:

“Explode coração! Não é todo dia que merecemos a oportunidade de salvar nosso país, nosso povo, nossas vidas do horror. Esse dia é o 4 de outubro, das eleições, quando salvaremos o Brasil da fúria devastadora dos que só pensam no próprio bolso”. Em seguida, completa que o País seria resgatado “da vulgaridade, em que o mergulharam após golpear Dilma”, marcada, segundo ela, por “desrespeitos, grosserias, desapreço aos mais fracos, o ódio como padrão, a falta de compaixão, de espírito público e brio nacional”.

O artigo concentra dois erros fundamentais da esquerda pequeno-burguesa. O primeiro é tratar as eleições burguesas como se fossem um terreno normal, limpo, democrático, no qual basta apertar um botão para resolver o problema político nacional. O segundo é apresentar como vitorioso um governo de frente ampla que, diante dos ataques da direita, do Congresso, dos banqueiros e do imperialismo, recuou em quase tudo.

A autora chega a escrever: “vamos apertar as teclas na urna, carinhosamente, como quem faz uma oferenda, religiosamente, com fé num futuro bom, próspero, soberano pra todos”. A formulação é a expressão acabada do cretinismo eleitoral. A urna aparece como altar. O voto, como “oferenda”. A política, como ato de fé. A luta de classes, a organização dos trabalhadores, a mobilização popular, a pressão contra o regime golpista desaparecem. Em seu lugar, entra a devoção ao calendário eleitoral.

O golpe contra Dilma Rousseff não foi impedido pela normalidade institucional. A prisão de Lula não foi impedida pela normalidade institucional. A eleição de 2018 foi marcada pela retirada fraudulenta do principal candidato popular. O Congresso que sabota o governo foi eleito dentro dessa mesma normalidade. O Judiciário que perseguiu o PT também funciona dentro dessa normalidade. Apresentar as eleições como se fossem uma disputa democrática comum é esconder a natureza do regime político brasileiro.

Hildegard Angel escreve que o eleitor deve caminhar “para a zona eleitoral, pisando firme, com a convicção de nossa importância cidadã, com lucidez, bem informados sobre os tantos progressos desses últimos quatro anos”. Mas que “progressos” são esses? O governo Lula não é o governo de FHC, de Temer ou de Bolsonaro. Não aplica a mesma política neoliberal agressiva da direita tradicional. Mas tampouco representa uma alternativa real para os trabalhadores. É um governo de frente ampla, formado para conciliar com seus próprios inimigos.

A própria lista apresentada pela colunista mostra esse limite. Ela afirma que o Brasil seguiu “retornando ao grupo das 10 maiores economias do mundo, crescimento econômico superando projeções do tal ‘mercado’, reduzindo o desemprego a níveis historicamente baixos, aumentando renda familiar e empregos formais — ôôô, a CLT voltoooou!”. A comemoração é completamente deslocada. A CLT não voltou. A reforma trabalhista continua de pé. A terceirização continua. A informalidade segue corroendo a vida de milhões. O trabalhador brasileiro continua submetido a salários baixos e a uma pressão brutal dos patrões.

O mesmo vale para a pobreza. A colunista afirma: “não foi só isso, saímos do mapa da fome, milhões saíram da extrema pobreza”. O fato, se tomado isoladamente, pode ser usado como propaganda. Mas o balanço real é outro. O PT esteve no governo por quase 20 anos, somando seus mandatos desde 2003, e o País continua com cerca de um quarto da população dependendo do Bolsa Família para sobreviver.

A existência do Bolsa Família é uma conquista defensiva importante para o povo pobre. Nenhum trabalhador deve abrir mão dela. Mas transformar a dependência permanente de milhões em prova de sucesso do regime é uma falsificação. O objetivo de um governo dos trabalhadores não deveria ser administrar a miséria com programas compensatórios, mas derrotar os mecanismos que produzem essa miséria: a dívida pública, os juros dos bancos, o latifúndio, a submissão ao imperialismo e a chantagem permanente da burguesia.

O artigo também afirma que “brasileiros endividados foram desenrolados, créditos para pequenos empreendedores retomados, assim como os programas educacionais e sociais, que haviam sido interrompidos ou reformulados para pior nos anos anteriores”. A pergunta elementar é: por que, depois de tantos governos do PT, o povo continua endividado, sem casa, sem salário suficiente, sem terra, sem estabilidade e dependendo de crédito para sobreviver? Porque o governo não rompeu com os bancos. Ao contrário, mantém a política de pagamentos ao setor financeiro, aceita o arcabouço fiscal, preserva a autonomia do Banco Central e governa condicionado pela direita.

O texto chega ao ápice quando transforma a eleição em procissão política. “Por tudo isso, é Lula na urna, com preces para dona Lindu; Haddad na urna; Bené, Marina Silva, Tebet, Zé Dirceu, Jandira, Jabbour, Glauber, João Goulart Filho, Chico Alencar, Nísia, Lindbergh, Gleisi, Celso Pansera…” A lista mistura Lula e figuras históricas do PT com representantes diretos da política da burguesia, como Fernando Haddad, Simone Tebet e Marina Silva. É a frente ampla em estado puro: todos no mesmo pacote, como se os interesses da classe trabalhadora pudessem caminhar junto com os representantes políticos da burguesia.

A política necessária é oposta à defendida pelo Brasil 247. É preciso mobilizar os trabalhadores contra a direita, contra o Congresso golpista, contra os banqueiros e contra o imperialismo. É preciso romper com a frente ampla e que os trabalhadores se organizem de maneira independente.

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