Inglaterra

Governo Starmer está prestes a cair?

Derrota eleitoral abriu caminho para Andy Burnham entrar no Parlamento e disputar a direção do Partido Trabalhista

O governo de Keir Starmer entrou em uma de suas maiores crises desde a vitória do Partido Trabalhista nas eleições gerais de julho de 2024. A eleição suplementar de Makerfield, realizada em 18 de junho, colocou Andy Burnham de volta no Parlamento e abriu a possibilidade de uma disputa pela direção do partido.

Burnham derrotou o candidato do Reform UK, Rob Kenyon, por 9.231 votos, com cerca de 55% dos votos. A vaga foi aberta de maneira deliberada: o deputado Josh Simons renunciou para permitir que Burnham concorresse e ingressasse na Câmara dos Comuns. Sua posse está marcada para segunda-feira (22), quando passará a estar em posição formal de disputar a liderança trabalhista.

A partir disso, a imprensa britânica passou a publicar uma série de informações de bastidores sobre a possível queda de Starmer. Jornais como The Guardian e The Telegraph afirmam, citando parlamentares e fontes do governo, que ministros e deputados trabalhistas querem que o primeiro-ministro anuncie um cronograma de saída.

Até o fechamento desta edição, Starmer não renunciou. Pelo contrário, declarou publicamente que pretende resistir a uma eventual disputa. “Vou concorrer, vou me apresentar”, disse, afirmando que não pretende “ir embora” caso haja uma eleição interna no Partido Trabalhista. Downing Street também negou que o primeiro-ministro esteja preparando uma renúncia imediata.

O que há de confirmado é a derrota política acumulada pelo governo: a queda de popularidade de Starmer, a derrota trabalhista nas eleições locais de maio, a entrada de Burnham no Parlamento, as demissões no governo e o avanço do Reform UK, de Nigel Farage, nas pesquisas nacionais. O que há de não confirmado é o número exato de deputados dispostos a apoiar Burnham, a existência de uma intervenção organizada do gabinete contra Starmer e a data de uma eventual renúncia.

The Guardian afirmou que até 200 deputados trabalhistas apoiariam Burnham em uma disputa interna. The Telegraph publicou que o número poderia chegar perto de 300. Também segundo esses jornais, ministros teriam pedido reservadamente que Starmer aceite uma transição ordenada, em vez de disputar a direção do partido.

A raiz política da crise

A queda de Starmer não pode ser explicada apenas pela economia, embora o governo também tenha fracassado em entregar o crescimento prometido, recuperar os serviços públicos e aliviar o custo de vida. A raiz da crise está na política imperialista do governo trabalhista: apoio ao genocídio cometido por “Israel” em Gaza, apoio à guerra da OTAN contra a Rússia na Ucrânia e repressão brutal aos defensores da Palestina na Inglaterra.

No caso de Gaza, a impopularidade de Starmer entre os próprios eleitores trabalhistas se tornou evidente. Em pesquisa YouGov, apenas 14% dos britânicos afirmaram que ele havia lidado bem com a questão, contra 52% que disseram que lidou mal. Entre eleitores trabalhistas de 2019, 83% queriam que “Israel” cessasse o ataque. O próprio Starmer chegou a declarar que “Israel” “tinha o direito” de cortar água e energia dos palestinos sitiados em Gaza, uma defesa aberta do genocídio contra o povo palestino.

A repressão aos defensores da Palestina também atingiu diretamente a base social do Partido Trabalhista. A proibição do Palestine Action levou à prisão de milhares de manifestantes não violentos, muitos deles enquadrados em legislação de terrorismo. Jeremy Corbyn afirmou que a impopularidade do governo também vem de seus “ataques draconianos aos direitos de reunião e à liberdade de expressão”.

Essa política abriu uma sangria pela esquerda. Já em 2024, candidatos independentes ligados à defesa da Palestina derrotaram ou quase derrotaram o Trabalhismo em distritos como Islington North, de Corbyn, Bristol Central, Dewsbury, Blackburn, Leicester South, Birmingham Yardley e Ilford North. Ao mesmo tempo, o Partido Verde passou a atrair parte dos eleitores descontentes com o governo.

A subordinação à OTAN

Outro ponto de crise é a política militar. A queda do secretário de Defesa John Healey, em 11 de junho, ocorreu em meio à discussão sobre aumento dos gastos militares. A exigência de elevar os recursos para a Defesa apareceu semanas antes de uma cúpula da OTAN com Donald Trump, que pressiona os países europeus a chegar a 5% do PIB em gastos militares.

Healey renunciou por discordar do acordo, afirmando que ele reduziria a prontidão das Forças Armadas. No mesmo dia, também caíram o ministro das Forças Armadas, Al Carns, e a assessora Pamela Nash. Dan Jarvis assumiu a Defesa.

A crise mostra a contradição do governo trabalhista. Enquanto os serviços públicos seguem em situação precária e o custo de vida continua elevado, o governo se mantém subordinado à política militar do imperialismo, seja na Ucrânia, seja no alinhamento geral com a OTAN.

Demissões e isolamento

A crise já vinha se acumulando antes da eleição de Makerfield. Em meados de maio, o secretário de Saúde Wes Streeting renunciou em protesto, ao lado da ministra Jess Phillips e de outros integrantes do governo. Streeting já afirmou que disputará a liderança caso haja eleição interna.

Até meados de maio, mais de 95 deputados trabalhistas já pediam a renúncia de Starmer ou a apresentação de um cronograma de saída. A derrota nas eleições locais e regionais na Inglaterra, Escócia e País de Gales agravou a situação. Segundo a imprensa britânica, o Trabalhismo perdeu quase 1.500 assentos nas eleições locais de maio.

O resultado de Makerfield é o estopim de uma crise que já vinha se formando. Burnham, em seu discurso de vitória, afirmou que a eleição suplementar era a “última chance” do Trabalhismo de organizar “uma nova política”, advertindo que não haveria uma segunda oportunidade.

A pergunta que se coloca, portanto, é se Starmer conseguirá resistir à pressão interna. A resposta ainda não está dada. O que se sabe é que ele passou o fim de semana em Chequers sem anunciar uma decisão pública. A expectativa divulgada pela imprensa é que um eventual cronograma de renúncia seja anunciado na segunda-feira (22), mesmo dia da posse de Burnham. Mas, por enquanto, trata-se de uma expectativa, não de um fato.

Caso Starmer caia, será o sexto primeiro-ministro britânico a deixar o cargo em 10 anos, mostrando a decomposição do regime político no Reino Unido, um dos principais centros do imperialismo mundial.

Linha do tempo

  • Julho de 2024: Partido Trabalhista vence a eleição geral por ampla maioria e Keir Starmer assume como primeiro-ministro.
  • Fevereiro de 2026: revelações dos arquivos Epstein atingem Peter Mandelson, embaixador nomeado por Starmer em Washington.
  • Maio de 2026: o Trabalhismo sofre dura derrota nas eleições locais e regionais na Inglaterra, Escócia e País de Gales.
  • Meados de maio de 2026: mais de 95 deputados pedem a saída de Starmer ou um cronograma de transição. Renunciam Wes Streeting, da Saúde, Jess Phillips e outros integrantes do governo.
  • 11 de junho de 2026: John Healey renuncia ao cargo de secretário de Defesa por discordar dos gastos militares. Al Carns e Pamela Nash também deixam o governo. Dan Jarvis assume a Defesa.
  • 18 de junho de 2026: Andy Burnham vence a eleição suplementar de Makerfield contra o Reform UK por 9.231 votos.
  • 19 a 21 de junho de 2026: Starmer passa o fim de semana em Chequers. Trump afirma que ele vai renunciar. A imprensa britânica publica informações de bastidor sobre a pressão para que apresente um cronograma de saída.
  • 22 de junho de 2026: posse prevista de Burnham na Câmara dos Comuns. A data é apontada pela imprensa como possível momento de anúncio de Starmer, mas a renúncia ainda não está confirmada.

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