Copa do Mundo

Para a imprensa brasileira, o mal é ser brasileiro

Enquanto evita criticar o técnico estrangeiro, abutres se dedicam a atacar Neymar, que sequer entrou em campo

Quem está acompanhando a Copa do Mundo consegue perceber, com certa facilidade, a diferença no tratamento da imprensa nacional em relação aos brasileiros e aos gringos, incluindo aí, especialmente, os argentinos na categoria de “gringos”.

Comecemos pelo italiano, que, como tal, não respondeu à pergunta fundamental: como o seu país conseguiu ficar fora de três Copas seguidas?

Ancelotti tem o aval da imprensa brasileira para fazer o que quiser. A escalação e todo o jogo contra o Marrocos, se fossem conduzidos por um brasileiro, teriam sido alvo de críticas duríssimas, e não seria difícil o técnico cair, “perder a cabeça”, enfim, o que geralmente acontece com o treinador brasileiro nas mãos da imprensa nacional.

Ancelotti foi alvo de recentes afagos vindos de Paulo Cobos, colunista da ESPN, que disse: “o técnico brasileiro é a origem dos problemas de Ancelotti, não a solução”. E, por sinal, um dos erros de Ancelotti, “herança deixada pelos treinadores brasileiros”, seria a “falta de coragem de deixar Neymar fora do Mundial”. Trataremos de Neymar depois.

Mas é nítido que o europeu tem carta branca para fazer o que quiser, segundo a imprensa brasileira. E é até possível que isso seja positivo para a atual situação da Seleção. Se fosse brasileiro, com essa imprensa lacaia dos donos do futebol, a desestabilização do esquadrão nacional seria ainda maior.

“Ancelotti precisa reformular toda uma podridão e atraso do futebol brasileiro, que tem reflexos evidentes na seleção. E muito dessa herança é culpa dos treinadores brasileiros”. Neste parágrafo, Paulo Cobos adianta sua posição diante de um possível desastre. A culpa será dos treinadores brasileiros que sequer estiveram na Copa do Mundo.

A posição do colunista é vergonhosa, tamanho é o capachismo diante dos treinadores estrangeiros, diante do “que vem de fora”, diante dos europeus. Sua posição política é a de um colonizado, de uma pessoa que não pensa por si, mas está a serviço de interesses alheios.

Por fim, diz Paulo Cobos: “Mesmo que o Mundial de 2026 termine com um fracasso retumbante da Seleção, nenhum treinador brasileiro será uma opção melhor que Ancelotti. E, se o italiano não resistir, tem muito treinador na Argentina e na Espanha para buscar”.

É nítido que o colunista quase torce para a Seleção Brasileira perder e que, diante disso, seu anseio é jogar toda a culpa sobre os treinadores brasileiros e, claro, sobre Neymar, o principal “erro” de Ancelotti.

Se para Ancelotti a imprensa nacional estende tapetes e joga flores em sua passagem, para Neymar a metralhadora está disparando a todo vapor. Outro soldado do batalhão do jornalismo anti-Neymar é André Kfouri.

Este diz que “a possibilidade de Neymar jogar é tudo acontecer ao contrário, como se dá com ele praticamente desde que voltou ao Santos. Ancelotti o convocou machucado, mas pode ser que ele jogue. Não treina, mas pode ser que jogue”.

E que “a essa altura, sua presença é um exercício de otimismo que hipnotiza os que esperam por ele, enquanto a Seleção tenta se reconstruir em plena fase de grupos”. Obviamente, trata-se de uma opinião de quem desconhece o futebol.

A simples ida de Neymar para a Copa do Mundo cumpre a função de dar mais segurança aos demais jogadores. Aliás, toda a responsabilidade, ou quase toda, está nas costas de Neymar, mesmo ele não jogando. Aceitar essa responsabilidade é sinal de maturidade de Neymar, não o contrário.

Se ele não pudesse jogar nenhum jogo — o que se admite apenas como hipótese remota —, já seria positiva sua ida para o Mundial, para os demais jogadores e, como se viu, para os próprios torcedores, que transformam sua convocação em uma festa. Neymar ostenta autoridade igual ou maior do que a que Messi — o bajulado — tem na seleção argentina.

E aqui uma última explicação rápida sobre os argentinos. No futebol, essa seleção representa uma espécie de anexo da Europa no continente sul-americano, por isso a rivalidade mortal. Se temos raiva dos europeus, temos mais raiva da Argentina: os sul-americanos disfarçados de europeus.

Assim, se existe um time para servir de pressão contra a Seleção Brasileira, esse time é a Argentina. E é isso que explica a bajulação ao Sr. Lionel Messi, apresentado pela imprensa como “melhor que Pelé”, e toda a melação que veio depois de seu primeiro jogo na Copa, quando, na verdade, deveria ter sido expulso. Ah, se fosse um brasileiro…

Mas a Seleção Brasileira sempre foi assim. Todos os títulos, até o pentacampeonato, vieram com muita luta e, apesar da imprensa nacional, apesar da Argentina (tricampeã somente em 2022, um feito brasileiro ainda em 1970), apesar dos poderosos do futebol. E, se a mística está certa, estamos no caminho certo uma vez mais.

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