Guerra no Oriente Próximo

Irã e EUA se reúnem na Suíça para primeiro dia de negociações

Líbano abriu as conversações; delegação iraniana cobrou dos EUA o cumprimento do memorando de Islamabade e deixou a reunião após ameaças de Trump

Delegações do Irã e dos Estados Unidos se reuniram neste domingo (21), no complexo de Bürgenstock, na Suíça, para o primeiro dia de negociações previstas no Memorando de Entendimento de Islamabade, assinado na quarta-feira (18) pelos presidentes Masoud Pezeshkian e Donald Trump.

Segundo a Al Mayadeen, reuniões bilaterais e trilaterais começaram antes da sessão oficial, marcada para as 14h30, horário de al-Quds. O primeiro assunto discutido após a abertura foi a aplicação da primeira cláusula do memorando, que trata do fim da guerra em todas as frentes, particularmente no Líbano.

A primeira rodada das conversações, com Irã, EUA, Paquistão e Catar, durou cerca de 80 minutos. Em seguida, a delegação iraniana iniciou consultas internas. O grupo iraniano é chefiado pelo presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf, e inclui o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, além do porta-voz da equipe de negociação, Esmaeil Baghaei.

Pelo lado norte-americano, a delegação é liderada pelo vice-presidente JD Vance. A mediação ficou a cargo do primeiro-ministro paquistanês Xehbaz Xarif, acompanhado do chefe do Exército, Asim Munir, e do primeiro-ministro do Catar, xeique Mohammed bin Abdulrahman Al Thani.

Líbano é a prioridade

Antes do início das conversações, Baghaei afirmou que o encontro tem como objetivo cobrar dos EUA a aplicação das obrigações previstas no memorando. Segundo ele, a cláusula 13 do acordo determina que as negociações para um acordo definitivo só podem avançar depois da aplicação de cinco pontos, entre eles a primeira cláusula, que exige o fim da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano.

“Sem a implementação desses pontos, especialmente a cláusula 1, não é possível entrar na fase de negociações para um acordo final”, declarou Baghaei.

A posição iraniana já havia sido apresentada pelo Ministério das Relações Exteriores. O órgão afirmou que os EUA devem conter “Israel” e obrigar a entidade sionista a interromper seus ataques contra o Líbano. O porta-voz do ministério declarou que o Irã cumpriu suas obrigações e espera que os EUA façam o mesmo.

“Não assinamos o memorando para que ele não seja aplicado e respeitado. Nossa filosofia é adesão em troca de adesão”, afirmou.

O ministério advertiu ainda que, caso a outra parte não cumpra integralmente suas obrigações, “todo o memorando está em risco”. Segundo a CNN, um funcionário iraniano disse no sábado (20) que acabar com a guerra israelense contra o Líbano era “o item mais importante” para a delegação iraniana.

Ormuz continua fechado

O Estreito de Ormuz também entrou nas conversações. No sábado (20), o Quartel-General Central Catam al-Anbiya anunciou o fechamento da passagem marítima em resposta às violações norte-americanas do memorando e à continuidade dos ataques israelenses contra o sul do Líbano.

O comunicado citou a “violação flagrante” dos compromissos dos EUA, o descumprimento da primeira cláusula do memorando, os assassinatos de civis libaneses, o deslocamento forçado da população e a recusa de “Israel” em retirar suas tropas do sul do Líbano.

Segundo a agência Tasnim, o Irã vinculou a reabertura de Ormuz à aplicação completa do cessar-fogo no Líbano, à emissão de permissões para exportação de petróleo iraniano e à liberação de ativos iranianos bloqueados. Baghaei afirmou que os pontos 10 e 11 do memorando tratam justamente das exportações de petróleo do Irã e dos recursos congelados no exterior.

Hesbolá: trégua não pode manter ocupação

Enquanto as negociações ocorriam na Suíça, o Hesbolá manteve sua posição contra qualquer acordo que permita a “Israel” conservar liberdade de ataque no Líbano. Em discurso durante o conselho central da Ashura, o secretário-geral do Hesbolá, xeique Naim Qassem, afirmou que a agressão israelense fracassou e não atingiu seus objetivos.

Qassem disse que não existe cessar-fogo verdadeiro se “Israel” puder continuar bombardeando, avançando por terra e mantendo presença em áreas ocupadas. Para ele, uma trégua precisa significar a interrupção completa da agressão por ar, terra e mar, o fim das ações de destruição e a retirada das tropas israelenses.

O dirigente afirmou que a resistência não aceita violações e responde conforme considerar necessário. Também rejeitou a criação de “zonas de segurança” no território libanês.

Qassem destacou o papel do Irã na defesa do Líbano. “Olhem para o grande Irã; ele é capaz de fechar o Estreito de Ormuz pelo Líbano. Esta é uma carta nas suas mãos, ó Estado”, afirmou, dirigindo-se ao governo libanês. Ele acrescentou que o Irã colocou entre suas prioridades o fim da agressão contra o Líbano.

O Hesbolá também denunciou as negociações diretas do governo libanês com os EUA em Washington. Em comunicado, o partido afirmou que esse caminho submete o Líbano às exigências norte-americanas e favorece a normalização com “Israel”. Para o Hesbolá, o governo libanês deve usar a força da resistência e a pressão regional para exigir a retirada completa e incondicional das tropas israelenses.

Trump ameaça e Irã deixa reunião

O primeiro dia de negociações foi abalado pelas ameaças feitas por Donald Trump contra o Irã. Em publicação na Truth Social, o presidente norte-americano afirmou que o Irã deveria impedir imediatamente seus “prepostos” no Líbano de “causar problemas”. Trump ameaçou atacar novamente o Irã “mais forte” caso isso não ocorresse.

Segundo a agência Tasnim, a delegação iraniana deixou o local das conversações em protesto contra as ameaças. Uma fonte próxima à equipe de negociação afirmou que as tratativas foram interrompidas e que o resultado final ficou indefinido. A fonte não informou se a delegação retornará à mesa.

A PressTV informou que a delegação iraniana apresentou objeções diretamente ao lado norte-americano e avalia os próximos passos. Qalibaf respondeu às ameaças de Trump em sua conta na rede social X.

“Eles não pensam que, se suas ameaças tivessem algum efeito, não teriam chegado ao estado de desespero de hoje?”, afirmou. O dirigente iraniano disse que o Irã considera as ameaças norte-americanas sem valor e advertiu que as Forças Armadas iranianas estão prontas para responder “de outra maneira” a qualquer agressão.

“Eles falam, nós agimos”, afirmou Qalibaf.

Ocupação quer manter ataques

As ameaças dos EUA ocorreram enquanto “Israel” continua atacando o Líbano, mesmo após o memorando assinado com o Irã. O ministro de Assuntos Militares de “Israel”, Israel Katz, afirmou neste domingo que as tropas israelenses no sul do Líbano não têm restrições para agir contra supostas “ameaças” e que não há plano de retirada da chamada “zona de segurança”.

As declarações confirmam a posição denunciada pelo Irã e pelo Hesbolá: a entidade sionista tenta transformar o cessar-fogo em autorização para manter a ocupação e os ataques.

O comandante da Força Quds do CGRI, brigadeiro-general Esmaeil Qaani, também se manifestou no domingo. Em mensagem dirigida às tropas sionistas, afirmou que elas têm duas opções: retirar-se do sul do Líbano por conta própria ou ser expulsas em humilhação.

“Se não se retirarem do sul do Líbano por seus próprios pés, a epopeia do ano 2000 se repetirá mais uma vez, o mesmo ano em que vocês fugiram desta terra em desgraça”, escreveu Qaani, lembrando a retirada israelense do sul do Líbano há 26 anos.

Segundo o comandante iraniano, as forças israelenses sofreram 100 baixas em menos de quatro dias. A imprensa israelense também informou perdas nas fileiras do exército de ocupação, após operações do Hesbolá no sul do Líbano.

As negociações na Suíça fazem parte de uma janela de 60 dias prevista no Memorando de Islamabade. O documento prevê o fim permanente das hostilidades em todas as frentes, o levantamento gradual das sanções contra o Irã, a retirada do bloqueio naval norte-americano em até 30 dias e a normalização do tráfego comercial pelo Estreito de Ormuz. O primeiro dia mostrou, no entanto, que o ponto decisivo é a capacidade dos EUA de obrigar “Israel” a encerrar a agressão contra o Líbano.

Vitória total do Irã

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