Os bloqueios de estradas na Bolívia continuaram neste domingo (21), apesar da decretação do estado de exceção pelo governo de Rodrigo Paz. Segundo o sítio El Nuevo Cambio, em reportagem reproduzida pelo Resumen Latinoamericano, os cortes de vias permanecem em La Paz, Oruro, Cochabamba e Santa Cruz.
A medida de exceção foi decretada na madrugada de sábado (20), em meio à rebelião popular contra o governo Paz. Mesmo com a presença de policiais e militares nas estradas, as organizações populares mantiveram pontos de bloqueio em regiões decisivas do país.
No departamento de La Paz, a polícia e as Forças Armadas tentaram desbloquear as regiões de Laja e Desaguadero. Os efetivos foram recebidos por moradores mobilizados e recorreram a gás lacrimogêneo, mas não conseguiram liberar a passagem.
Na estrada para Oruro, o governo também não conseguiu restabelecer totalmente o tráfego. Os bloqueios permaneceram em algumas regiões, impedindo a circulação normal de veículos de La Paz para Cochabamba, Potosí e Sucre.
Segundo informações de rádios comunitárias, na estrada La Paz-Oruro, na região de Viscachani, moradores reinstalaram o bloqueio e denunciaram que o dirigente Vicente Salazar “se vendeu ao governo”.
Bloqueios seguem em Cochabamba e Santa Cruz
Na estrada nova que liga Cochabamba a Santa Cruz, os bloqueios também foram mantidos em vários pontos, desde o município de Sacaba até a região próxima a Bulo Bulo, no Trópico de Cochabamba.
Em Wacanqui, no quilômetro 38, camponeses enfrentaram policiais e militares. Os comunários lançaram pedras contra os efetivos, que responderam com gás lacrimogêneo. Após o confronto, policiais e militares se retiraram da região.
A estrada antiga de Cochabamba a Sucre e Santa Cruz permaneceu aberta durante o dia, mas comunários de várias regiões anunciaram que os bloqueios serão retomados até que sejam atendidas as reivindicações do povo boliviano.
Segundo o mapa da Administradora Boliviana de Caminos (ABC), havia 28 pontos de bloqueio no país: três no departamento de Oruro, 12 em Cochabamba, 12 em La Paz e um em Santa Cruz, na altura de Cerro Grande.
Organizações anunciam ampliação dos bloqueios
As Seis Federações do Trópico de Cochabamba e a Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB) decidiram manter e ampliar os bloqueios nas estradas até que Rodrigo Paz renuncie.
A decisão foi anunciada pelo dirigente da CSUTCB Vicente Choque, que chamou as organizações sociais a rejeitar e romper o estado de exceção decretado pelo governo.
Choque também voltou a denunciar o secretário-executivo da Central Operária Boliviana (COB), Mario Argollo, por ter traído os movimentos sociais e firmado acordo com o governo. Segundo o dirigente camponês, a mobilização vinha sendo realizada há mais de 50 dias de forma unificada contra o regime de Paz Pereira.
“Daqui, convocamos todo o povo mobilizado a resistir, suportar e romper este estado de exceção”, declarou Choque, ao anunciar que os bloqueios no Chapare serão mantidos contra a medida decretada pelo governo.
Corte de energia no Trópico
Além da repressão policial e militar, moradores do Trópico de Cochabamba denunciaram um novo corte de energia elétrica em vários municípios da região para pressionar os manifestantes.
A interrupção começou às 18h50 de sábado, segundo a Rádio Kausachun Coca, e até as 10 horas da manhã de domingo ainda não havia sido resolvida, principalmente nos municípios de Sinahota e Chimoré.
“ENDE exerce pressão psicológica nesta região”, afirmou a rádio, ao denunciar o novo corte de energia. A emissora também apontou interrupções nos sinais da Entel e o fechamento de algumas agências bancárias.
O novo corte levou as Seis Federações do Trópico a anunciar o reforço dos bloqueios na estrada nova entre Cochabamba e Santa Cruz e na localidade de Lauca Eñe, onde se encontra o ex-presidente Evo Morales Ayma.
La Paz declara suspensão temporária
A Federação Departamental Única de Camponeses Tupac Katari de La Paz declarou uma suspensão temporária de suas mobilizações e bloqueios por causa do Ano Andino Amazônico. A entidade anunciou uma assembleia ampliada para esta segunda-feira (22), quando serão definidas novas medidas de pressão.
A federação também denunciou Mario Argollo, dirigente da COB, por traição aos movimentos sociais e de índios e por ter se vendido ao governo Rodrigo Paz.
Em comunicado, a direção camponesa afirmou que a pausa será usada para analisar a situação política nacional, as decisões tomadas em escala nacional e a rejeição das bases aos acordos da COB com o governo.
“A direção camponesa não foi consultada de forma orgânica, não se consultou as bases que são quem estão nas ruas dia e noite (…) foram negociar sem nossa participação e sem nosso consentimento”, diz o comunicado.
Segundo a nota, as bases estão “traídas e incomodadas” com a forma como as decisões foram tomadas. A federação anunciou que fará uma avaliação das ações do governo contra as organizações sociais.
Antes do comunicado, o dirigente David Mamani, executivo da Federação Departamental Tupac Katari de La Paz, afirmou que os setores mobilizados mantêm a exigência de renúncia de Rodrigo Paz.
“Nos custou sacrifício, muito esforço, como setores oprimidos, empobrecidos e vulneráveis que realmente precisam do apoio do Estado e do governo”, disse Mamani. Segundo ele, as organizações sociais “ratificaram de maneira contundente continuar com a resistência social até que o presidente do Estado dê um passo ao lado”.




